Curso discute importância dos polinizadores para a produção de alimentos e a conservação da Mata Atlântica
Organismos são fundamentais para a manutenção dos ecossistemas naturais
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Capacitação promovida pela Embrapa, C3 Ambiental e Prefeitura de Jacupiranga, reuniu agricultores familiares, extensionistas e especialistas para debater o papel das abelhas e outros polinizadores na produção agrícola e na conservação da biodiversidade
Agricultores familiares, extensionistas rurais e profissionais ligados ao meio ambiente participaram, em 12 de março, em Jacupiranga (SP), do curso “Polinizadores, produção de alimentos e práticas agrícolas”, realizado no Rancho Docena. A capacitação foi coordenada pela pesquisadora Katia Braga, da Embrapa Meio Ambiente, e buscou aproximar o conhecimento científico sobre polinização da realidade das pequenas propriedades rurais da região.
A iniciativa faz parte das ações do projeto “Produção Rural Sustentável: Aliando Agricultura e Biodiversidade em Pequenas Propriedades Rurais na Mata Atlântica”, desenvolvido em cooperação entre a Embrapa Agricultura Digital, a Embrapa Meio Ambiente e a empresa C3 Ambiental, com parceria da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Agricultura, Turismo, Cultura, Esportes e Lazer de Jacupiranga. O projeto integra as iniciativas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital Semear Digital, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Segundo Katia Braga, apesar do grande volume de pesquisas sobre a polinização na agricultura, esse conhecimento ainda está distante do dia a dia da agricultura familiar e da formação de extensionistas. “O processo de polinização natural e a diversidade de polinizadores nativos, especialmente de abelhas, são fundamentais para a produção de alimentos e para a manutenção da vegetação nativa. No entanto, esse conhecimento científico ainda precisa ser amplamente incorporado às práticas agrícolas e às ações de extensão rural”, afirma a pesquisadora.
A organização também contou com Poliana Giachetto e Débora Drucker, pesquisadoras da Embrapa Agricultura Digital, com a colaboração da pesquisadora Kátia Nechet da Embrapa Meio Ambiente, responsável pelo Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga. Para Débora Drucker, a proposta é promover um espaço de diálogo entre ciência e campo. “A ideia é trabalhar o tema de forma participativa, ouvindo as demandas de agricultores familiares, extensionistas e gestores públicos, para que o conhecimento científico possa contribuir de maneira prática com a transição para sistemas de produção sustentáveis”, explica.
Agricultura familiar tem papel central Dados do Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que a agricultura familiar representa 77% dos estabelecimentos agropecuários do Brasil e responde por 67% do pessoal ocupado na agropecuária. Esse segmento tem papel estratégico tanto na produção de alimentos quanto na conservação ambiental.
Nesse contexto, os polinizadores desempenham uma função essencial. Estimativas indicam que cerca de 80% das plantas silvestres e cultivadas associadas à produção de alimentos dependem da polinização realizada por abelhas, grupo que reúne o maior número de espécies polinizadoras dessas culturas.
Além de favorecer a produtividade agrícola, esses organismos são fundamentais para a manutenção dos ecossistemas naturais. Na região tropical, os polinizadores participam de 94% da reprodução das plantas com flores, contribuindo para a diversidade genética e para o funcionamento da maioria dos ecossistemas terrestres.
Desafios para a conservação dos polinizadores Apesar da importância ecológica e econômica desses animais, pesquisas realizadas em diferentes regiões do mundo indicam que a intensificação agrícola pode colocar em risco as comunidades de abelhas silvestres. Estudos conduzidos em nove culturas agrícolas e em quatro continentes mostram que mudanças na paisagem agrícola, uso de pesticidas e simplificação dos sistemas de cultivo podem reduzir a diversidade de polinizadores e comprometer a estabilidade dos serviços de polinização.
“Por isso é fundamental compreender como diferentes sistemas de produção e as práticas agrícolas podem impactar positiva ou negativamente esses organismos”, ressalta Katia Braga. “Quando favorecemos a diversidade de polinizadores, fortalecemos também a produtividade agrícola e a conservação da biodiversidade.”
Construção participativa de conhecimento A capacitação foi planejada a partir de demandas identificadas junto a agricultores familiares da região de Jacupiranga, com apoio da prefeitura e da C3 Ambiental, empresa parceira do projeto. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a diversidade de polinizadores, seu papel na produção de alimentos e os impactos das práticas agrícolas na conservação desses organismos.
Para Débora Drucker, o diálogo com agricultores é essencial diante dos desafios ambientais atuais. “Estamos vivendo um contexto de crises climática, hídrica e de biodiversidade. Trabalhar essas questões de forma participativa com agricultores, extensionistas e gestores públicos é fundamental para construir soluções que conciliem produção agrícola e conservação ambiental”, afirma.
Programação O curso foi realizado ao longo de um dia, combinando palestras interativas, atividades práticas e momentos de troca de experiências entre pesquisadores e participantes.
A programação começou com a chegada e acolhida a todos, seguida pela apresentação do projeto e dos participantes. A pesquisadora Katia Braga conduziu a atividade “Percepções sobre polinizadores”, que abriu a discussão sobre a importância desses organismos. Na sequência, ocorreu a prática “Como ocorre a polinização?”, também conduzida por Katia Braga. Os integrantes participaram da dinâmica “As flores dão pistas sobre seus polinizadores?”, que explora as relações entre características florais e os organismos responsáveis pela polinização. Após o intervalo para o almoço, a programação retornou com os temas “Reprodução vegetal, polinizadores e cultivos agrícolas”, “Abelhas polinizadoras e produção de alimentos” e “Práticas agrícolas e conservação de polinizadores”. A capacitação foi encerrada após uma roda de conversa, com a partilha dos aprendizados e a avaliação das atividades desenvolvidas.