"Spodoptera frugiperda" a principal oponente do milho no Cerrado
A cultura do milho é de grande importância para o agronegócio nacional, além de ser base de sustentação para a pequena propriedade, constituindo um dos principais insumos no complexo agro-industrial brasileiro. Atualmente vem sendo utilizado diretamente na alimentação humana e de animais domésticos, bem como na indústria para a produção de rações, cola, amido, óleo, álcool, flocos alimentícios, bebidas, além de outros produtos.
Em regiões de cerrado, o milho é uma cultura estratégica, principalmente em esquemas de rotação de culturas (com soja, algodão, girassol, etc) e plantio direto, sendo cultivada na época normal (verão) e época de safrinha.
Nos últimos anos, tem se observado um aumento considerado em populações de Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae), conhecida popularmente como lagarta-do-cartucho ou lagarta-militar. Esse fato está relacionado principalmente ao hábito alimentar da praga, que é um inseto polífago, atacando não só o milho, mas algodão, trigo, arroz, pastagem, aveia, sorgo, milheto, etc. Devido a essa gama de hospedeiros, a rotação de culturas normalmente não é uma ferramenta eficaz no controle da praga em regiões de cerrado.
Desse modo, a lagarta-do-cartucho vem aumentando os seu danos na região de cerrado, ocorrendo durante todo o estádio de crescimento da cultura, desde a emergência de plântulas até a fase final de desenvolvimento, podendo causar reduções superiores a 30% na produtividade das lavouras da região.
# Conhecendo a praga e seus danos
O inseto adulto é uma mariposa com cerca de 35 mm envergadura, de coloração pardo-escura nas asas anteriores branco-acinzentada nas posteriores. As posturas são em massa, com uma média de 150 ovos.
O período incubação dos ovos é de aproximadamente três dias. As lagartas recém-eclodidas alimentam-se própria casca do ovo. Após essa primeira alimentação, permanecem repouso por um período variável de duas a dez horas.
Quando encontram hospedeiros adequados, começam a alimentar-se dos tecidos verdes, geralmente começando pelas áreas mais suculentas, deixando apenas a epiderme membranosa, provocando o sintoma conhecido como "folhas raspadas".
À medida que as lagartas crescem, começam a fazer orifícios nas folhas, podendo causar severos danos às plantas. É comum também o ataque base da espiga ou mesmo diretamente, nos grãos leitosos. A planta do milho é mais sensível ao seu ataque quando a infestação inicia-se entre 40 e 45 dias de idade.
# Pesquisas sobre o controle da praga no cerrado
A Fundação de Apoio a Pesquisa Agropecuária de Chapadão é uma instituição de Pesquisa, localizada no município de Chapadão do Sul (MS) destinada à geração de tecnologias para a região dos Chapadões.
A região dos Chapadões compreende os municípios de Chapadão do Sul (MS), Chapadão do Céu (GO) e Costa Rica (MS), localizados na divisa nordeste de Mato Grosso do Sul e sul de Goiás. Segundos dados do IBGE (2006), o município de Chapadão do Sul (MS), na safra 2005/2006, apresentou uma área plantada de 15.400 hectares de milho, com produção de 108.240 toneladas e rendimento médio de 7.028 Kg/ha. O município de Chapadão do Céu, na mesma safra, teve uma área plantada de 15.600 hectares, produção de 111.700 toneladas e rendimento médio de 7.160 Kg/ha.
Devido à importância sócio-econômica do milho na região, e o aumento nas últimas safras, das populações da lagarta-do-cartucho, a Seção de Pragas da Fundação Chapadão realiza levantamentos de uso de grupos químicos de inseticidas utilizados pelos produtores no controle de S. frugiperda, na cultura do milho, na região dos chapadões, avaliando também o comportamento de alguns inseticidas no controle de S. frugiperda na cultura do milho, em condições de campo.
Foram realizados levantamentos sobre os grupos químicos de inseticidas usados pelos produtores rurais para o controle de S. frugiperda na cultura do milho, na região dos chapadões, localizadas nos municípios de Chapadão do Sul (MS), Costa Rica (MS) e Chapadão do Céu (GO).
Foram coletadas as informações em duas safras agrícolas de verão (2004/2005 e 2005/2006) em 15 propriedades rurais que juntas somam 24.471,60 hectares de milho da região, representando 79% da região.
A partir das informações cedidas pelos produtores, foi realizado o cálculo de percentagem de uso de inseticidas nas lavouras produtoras de milho da região dos Chapadões.
Paralelamente a esse estudo foram realizados três experimentos no município de Chapadão do Sul (MS), na área experimental da Fundação de Apoio a Pesquisa Agropecuária de Chapadão (Fundação Chapadão), com o objetivo de avaliar a eficiência e praticabilidade agronômica de diferentes inseticidas no controle de S. frugiperda.
Os resultados dos levantamentos mostraram que as benzoiluréias e carbamatos são os grupos de inseticidas mais usados pelos produtores de milho na região dos chapadões para controlar a lagarta-do-cartucho, sendo que o último grupo químico citado teve um incremento de uso de 15% do total aplicado na segunda safra, após a realização dos primeiros estudos na Fundação Chapadão.
Em relação ao comportamento dos inseticidas, foi constatado que alfacypermetrina + teflubenzuron e spinosad apresentam ação rápida de controle de S. frugiperda. Triflumuron, novaluron e lufenuron demonstram eficiência somente a partir do 7 daa.
Os carbamatos (thiodicarb e metomil), nas doses testadas, são eficientes aos 3 dias após a aplicação. Os piretróides quando aplicados isoladamente não apresentaram controle satisfatório nos diversos experimentos e em diversas datas avaliadas.
# Recomendações para o MIP da praga no cerrado
Torna-se necessário o monitoramento da praga pelos produtores em suas lavouras, uma vez que não se justifica aplicação preventiva de inseticidas, mas sim os produtos devem ser aplicados quando o inseto atingir o Nível de Dano Econômico, que é de 20% (folhas raspadas), preconizado também por outras instituições de pesquisa.
No cerrado o método de controle mais empregado é o controle químico, assim torna-se de fundamental importância, o conhecimento e uso de técnicas eficazes e sustentáveis, como a utilização de inseticidas seletivos aos inimigos naturais, preferencialmente produtos de faixa verde ou com menor impacto possível no ambiente.
Deve-se também realizar uma rotação de produtos com modos de ação diferentes objetivando evitar a resistência da praga aos inseticidas.
Enfim, na região do cerrado brasileiro se todos os envolvidos com a cadeia produtiva do milho (produtores rurais, técnicos, extensionistas, pesquisadores, empresas de defensivos) estiverem conscientes do fato que a lagarta-do-cartucho é uma praga devastadora, e que é necessário à realização de práticas de controle recomendadas principalmente pelos órgãos de pesquisa, o milho poderá ser cultivado convivendo com o seu principal oponente e será possível produzir alimentos com sustentabilidade econômica, social e ambiental.
Autores:
M.Sc. Germison Vital Tomquelski – Pesquisador Fundação Chapadão
Eng. Agr. Gustavo Mamoré Martins – Unesp – Ilha Solteira SP