Nos últimos tempos, mas, principalmente, nos meses de maio, junho e julho deste ano, a erosão observada em lavouras conduzidas sob plantio direto, no planalto do Rio Grande do Sul, tornou-se um fato alarmante. A paisagem desoladora lembrou cenas da década de 1970, quando se praticava o preparo convencional. Lavouras, consideradas por diversos setores da agricultura regional como tecnificadas, conduzidas sob as mais modernas tecnologias, sucumbiram diante das chuvas deste outono-inverno, apresentando intenso processo erosivo.
A erosão ocorrida destruiu parte considerável da camada superficial do solo, rica em matéria orgânica e em nutrientes para as plantas, provocando, indiscutivelmente, perdas econômicas ao produtor rural e poluição de várzeas, açudes, riachos e rios.
Mais alarmante do que observar a erosão retornar às lavouras do Rio Grande do Sul, é perceber que providências, possivelmente, não serão tomadas para prevenir novos desastres como esses, pois o agricultor avalia o ocorrido como fato casual e grande número de assistentes técnicos está convencido de que o plantio direto é prática suficiente para controlar a erosão nessa região do País.
Face à omissão técnica ao uso de práticas conservacionistas complementares à cobertura do solo, para o efetivo controle da erosão no Sul do Brasil, esse quadro assolador já era previsto e anunciado pelo Núcleo Regional Sul Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Essa predição está fundamentada nas características pluviais e topográficas do planalto Riograndense, sob as quais o abandono do preparo de solo e a presença de palha na superfície do solo, definitivamente, não são suficientes para prevenir a erosão. Embora esse cenário tenha se reproduzido em ampla região do Estado, observa-se que lavouras conduzidas sob sistema plantio direto, em consonância com os princípios da agricultura conservacionista, permaneceram imunes à ação erosiva das intensas chuvas registradas.
As causas que concorreram para esse cenário estão associadas a vários fatores, como ausência de rotação de culturas, insuficiente produção de palha e de raízes, insuficiente cobertura de solo, desregrado manejo da integração lavoura-pecuária, abandono da semeadura em contorno e, entre outros, inexistência de práticas conservacionistas para disciplinar a enxurrada. Nesse sentido, destaque deve ser dado ao cultivo exclusivo de soja, seguido de azevém guacho ou de aveia guacha sob pastejo durante todo o inverno, sem a devida observância das condições de umidade do solo e da quantidade de massa vegetativa disponível. É importante enfatizar, portanto, que o foco do problema em questão não reside no ato da retirada dos terraços, pois o terraceamento dimensionado para o preparo convencional de solo se tornou incompatível com as necessidades do sistema plantio direto. A partir dessa convicção, a retirada dos terraços pode ser considerada uma medida tecnicamente coerente. O foco da questão, portanto, está centrado na percepção errônea de que palha na superfície do solo é suficiente para controlar o processo erosivo nessa região do País. Essa argumentação tem inibido a adoção de uma nova estrutura de terraços ou de soluções alternativas, especificamente dimensionadas para o sistema plantio direto.
Na região sul do Brasil, em razão das características de intensidade e de distribuição das chuvas, em qualquer época do ano há probabilidade de ocorrência de precipitação pluvial com potencial para superar a taxa de infiltração de água no solo e formar enxurrada, independentemente do tipo de uso e de manejo do solo. A cobertura do solo, por plantas vivas e/ou por resíduos culturais, apresenta potencial para dissipar em até 100% a energia erosiva das gotas de chuva, mas não manifesta esta mesma eficiência para dissipar a energia erosiva da enxurrada. A partir de determinado comprimento de declive, a energia erosiva da enxurrada pode superar a resistência do solo imposta pela cobertura vegetal e permitir a flutuação e o transporte dos restos culturais, bem como a ocorrência de erosão. Esse é o fato alardeador que vem sendo observado na região.
A erosão provocada pela chuva é o resultado de duas forças que atuam na superfície do solo: uma é a energia das gotas de chuva e a outra é a energia da enxurrada.
A energia das gotas de chuva é eficientemente dissipada pela cobertura do solo, ou seja, pelas plantas vivas ou pela palha que permanece na superfície do solo. A energia da enxurrada, por sua vez, é amenizada pela redução da quantidade de enxurrada e/ou pela redução da velocidade da enxurrada que escoa na superfície do solo. Portanto, para o efetivo controle da erosão provocada pela chuva, além da cobertura do solo é necessária a adoção de práticas que reduzam o volume e/ou a velocidade da enxurrada. Nesse sentido, qualquer prática capaz de manter o comprimento do declive restrito a limites em que a cobertura do solo não perca eficiência na dissipação da energia erosiva da enxurrada, contribuirá para minimizar o processo erosivo e os problemas decorrentes.
A partir de observações empíricas, foi disseminada a percepção de que o sistema plantio direto constituí prática suficiente para controlar integralmente a erosão. Em decorrência, o terraceamento passou a ser considerado supérfluo, induzindo ao abandono da semeadura em contorno e à adoção da semeadura paralela ao maior comprimento da gleba, independentemente do sentido do declive. Como resultante dessas atitudes, tem sido notado, com freqüência alarmante, que a observância parcial das práticas conservacionistas requeridas para as condições de solo e clima dessa região do País, fundamentadas apenas na ausência de preparo de solo e na cobertura do solo, não têm propiciado condição suficiente para conter o potencial erosivo de chuvas intensas ocorrentes. A associação de práticas conservacionistas ao sistema plantio direto, com eficiência para impor barreira física ao livre escoamento da enxurrada, assume relevância, em lavouras configuradas por declives acentuados e pendentes longas.
O planejamento de terraços para lavouras conduzidas sob sistema plantio direto é muito diferente do tradicionalmente praticado nas lavouras manejadas sob preparo convencional. Enquanto no preparo convencional os terraços eram projetados para todo o estabelecimento rural, no sistema plantio direto os terraços constituem obras hidráulicas projetadas apenas para solucionar problemas pontuais de determinadas glebas da lavoura.
Diante desse quadro, percebe-se que ações voltadas à transferência de informações técnicas relativas a demonstração de práticas conservacionistas complementares à cobertura de solo e à conscientização de técnicos e de produtores rurais necessitam ser retomadas.