Hermes Peixoto Santos Filhos*
*Pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical
O cancro cítrico é uma doença causada pela bactéria Xanthomonas citri subsp. citri. Fortes restrições comerciais às exportação de frutas cítricas, nas formas in natura e de suco, têm sido impostas aos países onde se constatou a doença.
A recente evolução do cancro cítrico nos pomares paulistas coloca em risco a sobrevivência do negócio citrícola, por impor fortes perdas aos citricultores, à indústria de fertilizantes e defensivos, e aos demais agentes econômicos ligados ao setor, incluindo a economia de 330 cidades paulistas que têm, na citricultura, uma aliada na geração de renda e emprego. A cadeia de citros gera 400 mil empregos diretos no País e contribui com US$1,5 bilhão em receita de exportações.
A doença provoca lesões nas folhas, nos frutos e ramos, causando a queda dos frutos e folhas, e da produção. A bactéria do cancro é de fácil disseminação, sendo um de seus vetores o homem. Com o surgimento da doença clorose variegada dos citros, as atenções se voltaram para ela, descuidando-se da fiscalização e do controle do cancro cítrico. O aumento dos focos nas regiões nobres da citricultura paulista é atribuído ao aparecimento de uma praga, a larva minadora dos citros, que se espalhou rapidamente em todos os estados brasileiros e que ao preferir atacar as folhas novas dos citros, tornou-se uma das principais responsáveis pelo crescimento da incidência do cancro cítrico nos pomares desfolhados ou podados.
O número de focos encontrados no Estado de São Paulo aumenta gradativamente, e a atual política de controle da doença, além de infligir grandes perdas aos citricultores, não está conseguindo diminuir o número de focos nos pomares. Para se ter uma idéia do avanço da doença, em 1992, apenas em quatro municípios paulistas foram encontrados focos compostos de cerca de 7.000 plantas. Os dados de novembro de 1999, da Fundecitros, apontam 4.026 focos em 132 municípios, que erradicaram 259.794 árvores e 153.234 mudas de citros. Além disso, os resultados do último levantamento detectaram 1.010.736 plantas situadas num raio de 30 metros de cada foco, que deverão ser erradicadas.
órgãos de pesquisa de vários estados brasileiros estão desenvolvendo estudos que buscam mostrar as formas de disseminação da bactéria por fatores climáticos, como o vento e a chuva, e também a participação da larva minadora, na transmissão e disseminação da doença.
Atualmente, a Comissão Executiva Estadual da CANECCC (Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico), órgão do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, decidiu aplicar, a partir do dia 20 de maio de 1998, um único método de eliminação da bactéria causadora do cancro cítrico: a erradicação das árvores contaminadas e todas as demais contidas no raio de 30 metros.
Para que a citricultura paulista mantenha a competitividade da maior citricultura do mundo, estabeleceu-se uma verdadeira operação de guerra, com a contratação de 4 mil pessoas que farão uso de mais de 600 veículos para o trabalho de controle. Simultaneamente, foi implantada uma sofisticada rede de informação ligando 14 Centros de Apoio Fitossanitário e 41 escritórios da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, que vão fiscalizar cerca de 200 milhões de árvores cítricas.
A prevenção ainda é a melhor arma contra o cancro cítrico e ela deve ser feita a partir da implantação ou renovação do pomar, com mudas sadias e instalação de quebra-ventos. Os cuidados devem ser redobrados durante a colheita. Essa época é a mais favorável para a disseminação da doença, por causa do intenso trânsito de pessoas e materiais dentro da propriedade, sendo que a bactéria pode sobreviver em madeira, plástico, metal e tecido.
As medidas preventivas devem começar com uma rigorosa inspeção dos pomares. A muda deve ser adquirida de viveiros conduzidos em telados com proteção contra insetos. A barreira quebra-vento deve ser colocada a cada 100 metros, levando-se em consideração a direção do vento. O controle da larva minadora deve ser feito de modo eficiente, sempre que, no talhão, 50% das plantas apresentem brotações novas. As escadas, sacolas e caixas devem ser desinfestadas.
O homem é o principal meio de disseminação da doença, portanto, antes de os trabalhadores entrarem no pomar, devem trocar de roupa e fazer a desinfeção de mãos e calçados. No transporte, deve-se evitar que os caminhões entrem nos pomares. Os bins evitam que os caminhões entrem nas ruas para retirar a fruta colhida. Veículos e quaisquer outros equipamentos que entrarem no pomar também devem ser desinfetados por meio de um arco rodolúvio, e os restos de colheita e qualquer outro material vegetal devem ser eliminados.


