Controle de invasoras para aumentar a produtividade da soja
A crise do agronegócio brasileiro vem obrigando os produtores a apertarem o cinto e abrirem os olhos para os inimigos que se instalam no campo. Principalmente quando eles estão, literalmente, no meio da lavoura. O controle das ervas daninhas através do uso adequado de herbicidas e de técnicas de manejo é uma das primeiras medidas para evitar a matocompetição com a soja e a redução de 10% a 30% na produtividade, índice que varia de acordo com a espécie e o nível da infestação. Em algumas áreas, a presença de invasoras pode chegar a índices tão severos a ponto de comprometer toda a produção. Isso porque, além da concorrência por nutrientes, luminosidade e espaço, as ervas daninhas ainda elevam a umidade da lavoura de soja, o tempo de colheita e o trabalho das máquinas.
As dificuldades não param na lavoura. Na hora da venda, o agricultor que colheu grãos de soja misturados a sementes invasoras será obrigado a segregar toda a safra. “Ainda se transporta essa mistura de grãos de soja e de mato. E não podemos esquecer que pagamos por isso”, alerta o pesquisador da Embrapa Soja, Dionísio Luiz Pisa Gazziero.
Em pesquisa realizada pela Embrapa Soja, as perdas ocasionadas pela incidência de ervas daninhas foram confirmadas. O experimento considerou uma área de produção comercial da oleaginosa onde a presença média de 20 plantas de amendoim bravo por metro quadrado indicou perda de dez sacas por hectare. Quando comparado com áreas livres de ervas daninhas, o índice de perda chegou a 15% da colheita estimada. No Mato Grosso do Sul, o pesquisador de fitossanidade da Fundação MS, Ricardo Barros, também confirma as perdas de um manejo incorreto da lavoura. “Erros básicos, chegam a reduzir em quatro, seis e em até dez sacas a produtividade de um hectare”, aponta.
Mas manter as ervas daninhas longe da lavoura não é tarefa fácil. Antigamente, quando muitas das áreas de soja eram plantadas no sistema convencional, as operações de preparo do solo (aração, gradagem) serviam como métodos mecânicos de controle. Com a adoção do plantio direto, o controle das plantas daninhas passou a ser feito basicamente com o uso de herbicidas, antes ou durante o ciclo da cultura. No entanto, os químicos utilizados isoladamente não garantem o nível de controle esperado pelo agricultor. Eles devem ser empregados em conjunto com um manejo cultural, que inclui o plantio de sementes com alto vigor e crescimento inicial rápido, assim como a correção do solo em termos de fertilidade. “Nenhum dos dois sistemas isoladamente é tão eficaz quanto a associação entre os métodos”, aponta o coordenador do Programa de Pós-graduação em Agronomia da Universidade Estadual de Maringá, Rubem Silvério de Oliveira Jr. Para que esse casamento dê certo e as perdas sejam minimizadas, nada melhor do que adotar um planejamento eficaz, acompanhado de monitoramento constante durante todo o ano e não apenas com a chegada da safra.
# Cultivos ininterruptos:
A rotação de culturas e a manutenção de cobertura verde e de palha sobre o solo são algumas das pedidas para inibir as ervas daninhas durante a entressafra. Afinal, é melhor evitar o aumento do banco de sementes depositado sobre o solo durante o inverno do que realizar diversas aplicações de herbicidas durante o verão. Para isso, recomenda-se manter a área sempre em cultivo, evitando períodos de pousio. “O melhor de todos os herbicidas é a cultura”, garante o consultor da Fundação MT, Walter Buzatti. Cultivos de inverno como a aveia e o trigo podem ser boas opções, mas vale lembrar que deve haver rodízio entre os produtos empregados nas diferentes espécies de modo a alterar a dinâmica das plantas daninhas. Afinal, as invasoras têm alto potencial de adaptação e de geração de descendentes. Para provar isso, Gazziero conta que semeou um pé de trapoeraba em um vaso com areia de construção e só forneceu água. Com falta de nutrientes, a planta começou a amarelar, mas antes de morrer já apresentava quatro sementes. “Isso mostra a alta capacidade de sobrevivência dessas plantas”, conclui.
Depois de um manejo cuidadoso durante o inverno, é hora de preparar bem o plantio. A primeira dica é semear em área limpa, sem a presença de plantas adultas ou em germinação. Para isso, recomenda-se o uso de dessecantes de ação total que eliminam as ervas daninhas e ainda preparam a palha ao cultivo em plantio direto. “O dia da semeadura tem que ser o dia de 0% de ervas daninhas”, compara Gazziero. Dados de trabalhos conduzidos por grupo de pesquisa na Universidade Estadual de Maringá indicam que a falta de uma dessecação adequada mesmo antes do plantio da soja pode fazer com que a planta acabe “gastando” uma energia muito grande para emergir e iniciar seu desenvolvimento e, conseqüentemente, acabe produzindo até 30% menos na colheita.
# Quantas aplicações?
O número de aplicações de herbicidas para garantir a limpeza dependerá da situação de cada lavoura e do grau de infestação da área. Contudo, em geral, a soja convencional requer uma ou duas doses antes do plantio. A primeira dessecação pode ser feita cerca de 20 dias antes da semeadura e a segunda poucos dias antes de entrar na lavoura. O mês de outubro é ideal para iniciar o preparo da área onde será cultivada a soja na Região Sul. O pesquisador da Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo (Fundacep), Mário Bianchi, recomenda fazer a primeira dessecação nesse período devido à boa umidade do solo e à temperatura ideal para a ação do herbicida. “Deixar para dessecar em novembro é pior porque se pega um tempo mais seco”, acrescenta.
Superada a fase do plantio, é preciso atentar para o controle em pós-emergência, quando recomenda-se a aplicação de uma dose de herbicidas para a folha estreita (monocotiledônea) e outra para a folha larga (dicotiledônea). A primeira deve ser aquela direcionada ao tipo de daninha que impõe maior competição à soja. Contudo, os compostos também podem ser integrados em uma única calda. Normalmente, a associação de produtos traz um sinergismo o que melhora a eficácia no controle da planta daninha. Na associação de compostos deve-se observar a dose e a compatibilidade dos produtos tanto do lado químico quanto de fitotoxicidade na cultura. A fitotoxicidade dos produtos pode levar a um estresse na planta de soja e, conseqüentemente, afetar o potencial de rendimento da cultura.
# Principais invasoras:
Inúmeras espécies de ervas daninhas povoam as lavouras brasileiras. Apesar da pouca variação de ocorrências nos últimos 30 anos, houve substancial alteração nos danos que algumas delas podem trazer. As plantas daninhas de maior importância variam de acordo com a região. No Sul, destacam-se o picão-preto (Bidens pilosa), amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), trapoeraba (Commelina benghalensis) e a corda-de-viola (Ipomoea grandifolia) entre as folhas largas e o capim-marmelada (Brachiaria plantaginea), capim-colchão (Digitaria horizontalis) e o capim-capricho (Cenchrus echinatus) entre as gramíneas. Nas áreas de plantio da soja localizadas nos cerrados, outras espécies ganham importância, como o apaga-fogo (Alternanthera tenella), erva-de-touro (Tridax procumbens), capim-braquiária (Brachiaria decumbens) e erva-quente (Spermacoce latifolia).
Uma das justificativas para o aumento de preocupação com essas invasoras nos últimos anos deve-se à mudança nas cultivares de soja empregadas para formação da lavoura. Buzatti, da Fundação MT, alega que a busca de variedades mais produtivas levou o sojicultor a diminuir o número de plantas por hectare, o que favorece o desenvolvimento de ervas daninhas. “Antigamente, variedades como a Santa Rosa e a Paraná permitiam plantio de 350 mil a 400 mil plantas por hectare, que acabavam abafando as ervas daninhas. Hoje, no Mato Grosso, trabalhamos com 240 mil plantas”, constata. Outra mudança foi a adoção de cultivares de ciclo precoce, que, em geral, exigem pulverizações antecipadas.
# Escolha do herbicida:
A escolha dos herbicidas requer todo o cuidado e atenção por parte do sojicultor. Com o apoio de um engenheiro agrônomo, a decisão deve levar em conta uma minuciosa avaliação qualitativa e quantitativa das espécies de ervas daninhas presentes no campo. Com base nessas características e no estágio de desenvolvimento das plantas, será possível saber quando e quanto herbicida será preciso aplicar. Quanto maior estiverem as plantas, maior será a quantidade de químico para contê-las. Os produtos dividem-se em herbicidas de contato (aqueles que agem apenas no local onde são depositados) e os de ação sistêmicas (que são absorvidos pela planta e agem de forma geral). Produtos de contato exigem a adoção de bicos de pulverização que permitam gotas menores e maior área de cobertura. Já os sistêmicos podem ser aplicados por bicos que gerem gotas mais grossas. Outra diferenciação diz respeito à composição da calda, onde será diluído o herbicida. Segundo o pesquisador da Embrapa Soja, Fernando Adegas, enquanto os produtos de contato exigem solução em 150 litros por hectare, os sistêmicos podem ser aplicados em 100 litros/ha.
Também vale alertar para a época recomendada para aplicação pelo fabricante. O uso de herbicidas deve ser feito, preferencialmente nos 30 primeiros dias de desenvolvimento da soja. Passados 40 dias, químicos, como o glifosato, podem atingir as plantas em época de floração, deixando resíduos na produção. O erro de cálculo pode custar caro. Testes apontando a presença de substância no grão podem prejudicar a venda, principalmente ao mercado externo.
# Custos:
Mesmo em épocas de crise no campo, não se pode considerar que o preço dos herbicidas seja um imperativo para a sanidade da lavoura. Com a baixa na cotação do dólar em relação ao real, o produto se tornou bem mais atrativo do que há poucos anos. Segundo o pesquisador da Fundacep, o litro custa, em média, R$ 8. Se for levado em conta a utilização de cinco litros por hectare, o custo representa R$ 40, valor insignificante perto da perda de produtividade que sua não-utilização pode trazer. No Brasil Central, o valor dos herbicidas teve uma queda de 10% a 15% para a safra de 2006/2007. Mais do que a cotação do câmbio, isso é resultado direto de um menor interesse das multinacionais no desenvolvimento de novos produtos para soja. “Os herbicidas eram o segundo colocado nos gastos com a lavoura de soja. Hoje a maior preocupação é com o controle da ferrugem”, alega Buzatti. Resultado da era do glifosato, o cenário é perigoso, já que baseia o controle das plantas invasoras no sucesso de apenas um composto.
Apesar da queda no preço dos insumos, o que vem sendo notado nos campos brasileiros é a redução da tecnologia empregada como reflexo direto da falta de capital de giro do agricultor. “Ao invés de reduzir a área cultivada e manter tecnologia, o produtor está optando por diminuir o investimento”, condena Bianchi. A redução do número de aplicação de herbicida é apenas um dos fatores que deve reduzir a produtividade da lavoura de soja.
# Perigo à vista:
Com o avanço da pesquisa referente à ação das ervas daninhas na soja, alguns conceitos foram revistos. Entre eles estudos clássicos que indicavam que o período onde a infestação das plantas daninhas de fato afetava o potencial produtivo da cultura da soja era compreendido entre o 25º e o 40º dia após a emergência. Trabalhos mais recentes constataram que a presença dessas plantas pode atingir a produtividade mais cedo do que se pensava. Pesquisa realizada nas últimas três safras pela Universidade Estadual de Maringá /PR, aponta que, em função do aumento da densidade de infestação das áreas de plantio, existem prejuízos na produção por infestações muito mais precoces.
Em áreas de amendoim-bravo, cita Oliveira Jr, da UEM, a convivência das plantas daninhas com a soja reduz a produtividade quando ocorre já aos 17 dias, estendendo-se até a 44 dias após a emergência. Outro trabalho, desenvolvido em área com infestação predominante de picão-preto, apontou dados ainda mais preocupantes: a presença de plantas daninhas junto à cultura a partir de 12 dias após a emergência já foi nociva para a produtividade. “Nas nossas palestras, produtores para essa questão da matocompetição precoce, uma vez que, na nossa opinião, esta questão será ainda de maior importância à medida que a soja transgênica ganhar espaço no Brasil”, ressalta Oliveira Jr.
# Atenção à resistência:
O controle sistemático das plantas daninhas com herbicidas com o mesmo mecanismo de ação tem levado à seleção de biótipos de ervas daninhas resistentes. São inúmeros os casos de resistência de plantas de folhas largas presentes nas lavouras de soja, como o amendoim-bravo e o picão preto, e de folhas estreitas, como o capim marmelada e o papua. O processo compreende a capacidade natural de algumas plantas, dentro de uma população, de sobreviverem e se reproduzirem após a aplicação do herbicida na dose recomendada. Com a morte das demais daninhas, elas se sobressaem e continuam gerando descendentes. Atualmente as plantas daninhas constatadas no Brasil têm apresentado resistência a herbicidas que apresentam mecanismo de ação como inibidores da enzima ALS, ACCase e EPSPS. Mas o manejo da resistência é simples, quando se dispõe de herbicidas alternativos, com mecanismos de ação diferentes. “Práticas como alternância de culturas e rotação de herbicidas devem ser sempre utilizadas para prevenir a ocorrência de biótipos resistentes”, lembra Buzatti, da Fundação MT.