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Impacto das pragas sobre a cultura da soja


* José Luis da Silva Nunes
 
Desde a sua instalação, a cultura da soja já está sujeita ao ataque de insetos-pragas. As populações destes insetos flutuam em função das condições ambientais, que podem ser reduzidas por ataques de predadores, parasitóides e doenças. O manejo empregado no controle destes insetos leva em conta esta flutuação, sendo posto em prática quando esta atinge níveis elevados, capazes de causar perdas significativas no rendimento da cultura.

As atuais preocupações ambientais não permitem mais que o produtor não tenha critérios na hora da aplicação de métodos de controle. A aplicação preventiva de defensivos agrícolas é encarada como uma prática desnecessária, pois eleva os custos da lavoura, promove poluição ambiental e causa desequilíbrio entre as populações de insetos-praga e de seus predadores e parasitóides.

As decisões de controle devem levar em conta os princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e consistem em tomadas de decisão de controle através de vistorias regulares à lavoura, para verificar o nível de ataque através da desfolha, do percentual de plantas atacadas, do percentual de vagens atacadas, do número e do tamanho das pragas. Por exemplo, no caso das pragas desfolhadoras e sugadoras, devem ser feitas amostragens com pano-de-batida, usado entre duas fileiras, nas quais as plantas são sacudidas para a queda dos insetos para contagem, em vários pontos das lavouras. Isto porque a simples observação visual sobre as plantas não expressa a população real das pragas presente na lavoura.

Os insetos-pragas são categorizados como principais e secundários em função de sua freqüência, abrangência e danos provocados na cultura. As pragas consideradas principais são:

1) Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmattalis, Hubner, 1818): É o mais comum dos insetos desfolhadores que atacam a cultura da soja. Ocorrem na cultura de novembro a março e seu pico de população ocorre de janeiro a março, conforme a região. O adulto faz sua postura à tardinha e à noite, na parte inferior das folhas.

2) Lagarta-mede-palmo (Pseudoplusia includens, Walker, 1857): Alimenta-se de folhas, mas não das nervuras, conferindo um aspecto rendilhado à lavoura. Atualmente os danos da largarta-mede-palmo são bem inferiores aos da lagarta-da-soja, mas como as duas ocorrem na mesma época, essa praga é considerada praga principal. Sua ocorrência predomina no Paraná e em São Paulo, com pico populacionais maiores de dezembro a fevereiro.

Estas lagartas devem ser controladas quando forem encontradas, em média, 40 lagartas grandes (1,5 cm) por pano-de-batida (duas fileiras de plantas), ou com menor número se a desfolha atingir 30%, antes da floração, e 15% tão logo apareçam as primeiras flores.

A lagarta da soja pode ser controlado com o uso de Baculovirus anticarsia, que é um vírus que ataca especificamente esta lagarta, causando uma doença conhecida como "doença-preta". No início, as lagartas mortas apresentam coloração amarelada, corpo mole e com o passar do tempo tornam-se escuras ou pretas. Para funcionar, o vírus tem de ser ingerido pelas lagartas, e dentro de seu corpo multiplica-se, aumentando a quantidade, acabando por matá-las. Depois de uma semana, mais ou menos, as lagartas mortas apodrecem e soltam mais vírus sobre a soja, matando outras lagartas sadias que vão nascendo.

Como limites para uso desta forma de controle considera-se como o máximo de 40 lagartas pequenas ou 30 lagartas pequenas e 10 lagartas grandes por pano-de-batida. Em condição de seca prolongada e com plantas menores de 50 cm de altura, reduzir esses níveis para a metade, para a aplicação de Baculovírus. Para preparar o produto a base de Baculovírus, deve-se utilizar uma quantidade de aproximadamente 50 lagartas.ha-¹ mortas pelo próprio vírus, maceradas em um pouco de água, ou 20 g.ha-¹ da formulação em pó molhável. Em situações nas quais a população de lagartas grandes já tenha ultrapassado o limite para a aplicação de Baculovírus puro (mais que 10 lagartas grandes/pano) e for inferior ao nível preconizado para o controlequímico (40 lagartas grandes/pano), o Baculovírus pode ser utilizado em mistura com o inseticida profenofós ou com endossulfam, na dose de 30 g i.a.ha-¹ e 35 g i.a.ha-¹, respectivamente.

3) Percevejo-verde (Nezara viridula, Linneus, 1758): O adulto põe ovos na face interior das folhas, dispostos na forma de hexágonos. O percevejo suga a seiva das plantas, danificando os grãos e podendo causar distúrbios fisiológicos chamados retenção foliar ou soja louca. O seu dano já inicia quando as ninfas estão no terceiro estádio até se tornarem adultas.

O controle deve ser iniciado quando forem encontrados quatro percevejos adultos ou ninfas com mais de 0,5 cm por pano-de-batida. Em campos de produção de sementes, o nível deve ser reduzido para dois percevejos por pano-de-batida. Se forem contados os insetos das plantas de apenas um metro de fileira, reduzir a população crítica para a metade (dois e um percevejos, respectivamente). Em certas situações, o controle químico pode ser efetuado apenas nas bordas da lavoura, sem necessidade de aplicação de inseticida na totalidade da área, porque o ataque destes insetos se inicia pelas áreas marginais, aí ocorrendo as maiores populações. Uma alternativa econômica é a mistura de sal de cozinha (cloreto de sódio) com a metade da dose de qualquer um dos inseticidas indicados para controle da praga. O sistema consiste no uso de apenas 50% da dose indicada do inseticida, misturada a uma solução de sal a 0,5%, ou seja, com 500 gramas de sal de cozinha para cada 100 litros de água colocados no tanque do pulverizador, em aplicação terrestre. O primeiro passo é fazer uma salmoura separada e, depois, misturá-la à água do pulverizador que, por último, vai receber o inseticida.

4) Broca-das-axilas (Epinotia aporema, Walsinghan, 1914): Até pouco tempo atrás não era considerada praga principal. Com o aumento da área de plantio e, provavelmente, com a diversificação de cultivares utilizados, sua incidência tem aumentado consideravelmente. O ataque inicia-se pelos brotos das plantas, antes que os mesmos se desenvolvam totalmente. As lagartas alimentam-se de parte dos folíolos, e mais tarde tecem uma teia, unindo-os e impedindo a sua abertura. O broto atacado pode morrer ou crescer deformado. Outras partes da planta, com caule, ramos e folhas podem ser atacadas também. Controlar quando a lavoura apresentar em torno de 25% a 30% de plantas com ponteiros atacados.

5) Tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus): Os danos são causados tanto pelos adultos, que raspam o caule e desfiam os tecidos, como pelas larvas, brocando e provocando o surgimento de galha. O controle químico desse inseto não tem sido eficiente. As larvas ficam protegidas no interior das galhas e os adultos, além de emergirem do solo por um longo período, ficam a maior parte do tempo sob a folhagem da soja nas partes baixas da planta. Algumas práticas culturais podem ser utilizadas para, gradualmente, diminuir a sua ocorrência.

A rotação de culturas é a técnica mais eficiente para o seu manejo, mas sempre associada a outras estratégias, como plantas-iscas e controle químico na bordadura da lavoura. Tais práticas propiciam reduzido percentual de plantas mortas e danificadas e maior produtividade, no final do período de rotação soja-milho-soja, quando comparado ao monocultivo de soja. Em áreas onde ocorreram danos da praga é indicado substituir a soja por uma espécie não hospedeira (milho, milheto, sorgo ou girassol), para interromper o ciclo biológico do inseto.

As instituições de pesquisas recomendam cuidados para o manuseio e emprego de defensivos no controle de pragas da soja, tais como:

• Somente utilizar inseticidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para a praga-alvo que deseja controlar;
• Usar equipamento de proteção individual (EPI) apropriado, em todas as etapas de manuseio de agrotóxicos, a fim de evitar possíveis intoxicações;
• Não fazer mistura em tanque;
• Evitar aplicações em dias ou em horários com ventos fortes, visando reduzir a deriva dos jatos, tornando mais eficiente a aplicação e reduzindo possíveis contaminações de áreas vizinhas;
• Observar o período de carência do produto, principalmente no controle de pragas de final de ciclo da cultura;
• Ler com atenção o rótulo e a bula do produto e seguir todas as orientações e os cuidados com o descarte das embalagens;
• Devolver as embalagens vazias (após a tríplice lavagem).
 
 
* Dr. em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, atua como Engenheiro Agrônomo para o Portal Agrolink.

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