Manejo das plantas daninhas antes da semeadura da soja
As plantas daninhas afetam a produtividade das culturas devido à competição por água, luz e nutrientes. As plantas daninhas também podem servir de hospedeiras para pragas e doenças e liberar aleloquímicos tóxicos para a cultura.
Em áreas onde se adota o sistema plantio direto, a dessecação antes da semeadura elimina as plantas estabelecidas e proporciona a formação da cobertura morta (palhada). Essa palhada exerce efeito físico sobre a população de plantas daninhas, atuando sobre a passagem de luz, mantendo relativamente estável a temperatura do solo e mantendo a umidade do solo, e ainda pode liberar substâncias alelopáticas, criando condições adversas para a germinação e o estabelecimento de algumas espécies daninhas.
A dessecação deve ser feita de tal forma que a vegetação da área esteja controlada no momento da semeadura. Em geral, recomenda-se que a dessecação seja realizada entre 10 e 15 dias antes da semeadura. Entretanto, o número de dias necessárias para que a vegetação seja controlada varia com as espécies presentes e seu estádio de desenvolvimento. Em situações de ocorrência de grande massa vegetal e espécies com diferentes tamanhos pode ser necessário mais do que 15 dias e o uso de aplicações seqüenciais. Neste caso a primeira aplicação objetiva eliminar as plantas maiores e a segunda para controlar as plantas de menor tamanho.
A dessecação eficiente deve controlar as plantas estabelecidas, evitando que essas permaneçam vegetando no local e interferindo no desenvolvimento da cultura. Áreas infestadas com espécies perenes, como a grama-seda (Cynodon dactylon) e o capim-massambará (Sorghum halepense), necessitam de maior atenção, pois são espécies que requerem, na maioria das vezes, aplicação de produtos e doses específicas.
Os herbicidas dessecantes disponíveis atualmente são glifosato, paraquate e paraquate + diuron. Esses herbicidas não possuem efeito residual e são aplicados isolados ou em associação com 2,4-D, principalmente em áreas com altas infestações de espécies folhas largas. O glifosato, paraquate e paraquate + diuron são herbicidas não seletivos de amplo espectro, indicados para controle total da vegetação. A principal desvantagem do paraquate em relação ao glifosato é a sua ação de contato com limitada translocação, podendo resultar em rebrotação das plantas daninhas, especialmente daquelas bem desenvolvidas por ocasião da aplicação. Apesar do glifosato e do paraquate apresentarem amplo espectro de controle, existem algumas espécies daninhas tolerantes a esses produtos, havendo necessidade de aplicação de outros herbicidas ou de aplicações seqüenciais para obtenção de níveis adequados de controle.
As plantas daninhas corriola (Ipomoea sp.), buva (Conyza bonariensis e C. canadensis), poaia-branca (Richardia brasiliensis) e trapoeraba (Commelina benghalensis) são exemplos de espécies tolerantes ao glyphosate que necessitam de cuidados especiais no momento da dessecação e, na maioria dos casos, requerem a utilização de herbicidas específicos associados ao glifosato e ao paraquate. No Rio Grande do Sul, foram identificados biótipos de azevém e buva resistentes ao glifosato. O controle dessas espécies deve ser feito com herbicidas alternativos, pois a aplicação de glifosato mostra-se ineficiente sobre essas plantas. Os herbicidas metsulfuron (Ally), aplicado no inverno no mínimo 60 dias antes da semeadura da soja, e 2,4-D mostram-se eficientes para o controle da buva e o azevém mostra-se sensível aos herbicidas graminicidas. Além desses, os herbicidas a base de chlorimuron (Classic, Clorimurom master, Conquest, Smart e Twister) têm se mostrado eficientes no controle de buva. Recomenda-se que o produtor consulte um Engenheiro Agrônomo para obter informações sobre época de aplicação e doses a serem utilizadas, principalmente no caso de utilização do metsulfuron.
Existem muitas estratégias que podem ser adotadas para reduzir a infestação das plantas daninhas antes da implantação da cultura e prevenir a seleção de espécies. O uso de cobertura morta e semeadura em época favorável à germinação proporcionarão o estabelecimento rápido da cultura e reduzida germinação de sementes de plantas daninhas. Áreas infestadas com buva e/ou azevém resistente ao glifosato devem ser cultivadas com trigo ou culturas que permitam controlar essas espécies daninhas durante o inverno, com uso de herbicidas seletivos, beneficiando a cultura e evitando a presença dessas plantas daninhas na época de semeadura da cultura de verão. O uso racional dos herbicidas, de forma a não repetir mais do que duas vezes por ciclo a aplicação do mesmo herbicida ou mesmo mecanismo de ação em uma área, previne a seleção de espécies tolerantes e resistentes, prolongando a eficiência e viabilidade de uso das moléculas herbicidas.
Em soja transgênica (resistente ao herbicida glifosato), há situações em que os produtores realizam a dessecação no período entre a semeadura e a emergência da soja. Esse tipo de manejo deve ser evitado, principalmente nas áreas com alta infestação de plantas daninhas, já que pode ocorrer perda expressiva na produtividade de grãos devido à interferência sobre a cultura.
Autores: Leandro Vargas - pesquisador Embrapa Trigo; Mario Bianchi - pesquisador Fundacep; e Mauro Rizzardi - professor da UPF.