A situação da agropecuária brasileira ficou extremamente difícil a partir de 2005. Este quadro pouco evoluiu em 2006, apesar da safra de grãos indicar um volume maior, já que o clima não foi tão ruim. No entanto, em termos econômicos o melhor volume não irá trazer, infelizmente, grandes melhorias pois os preços dos produtos primários recuaram fortemente neste último ano, puxados por um câmbio que coloca a moeda brasileira cada vez mais sobrevalorizada. Paralelamente, os custos de produção praticamente ficaram estabilizados em patamares mais elevados, quando não subiram. Para se ter uma idéia do quadro difícil, detecta-se que o Real médio se valorizou 21% apenas entre março de 2005 e as três primeiras semanas de março 2006. Ao mesmo tempo, os preços médios dos produtos agrícolas recuaram. No Rio Grande do Sul, o saco de soja ao produtor perdeu 32,3% de seu valor entre março/05 e março/06. O saco de milho perdeu 32,5% de seu valor. O saco de trigo teve seu preço estagnado em R$ 18,00. O saco de arroz perdeu 33,6% de seu valor. O quilo vivo do suíno tipo carne viu seu preço despencar 34,9% no período. O leite perdeu 19% e assim por diante. Os reflexos de tal realidade aparecem em praticamente todos os setores da economia. A tradicional feira Expodireto, de Não-Me-Toque (RS), negociou apenas R$ 50 milhões neste ano, contra R$ 105 milhões no ano passado (ano da forte seca) e mais de R$ 200 milhões no ano anterior. Paralelamente, durante o 17o Fórum da Soja, realizado no dia 14/03, no mesmo local, os produtores de soja do Mato Grosso, através da Aprosoja, informaram que nos últimos dois anos o custo de produção aumentou em US$ 264,91/hectare, sendo que o frete sofreu um incremento de US$ 126,00 no período.
A crise agrícola continua (II)
Apenas no tratamento da ferrugem asiática, os produtores mato-grossenses viram seus custos aumentar em US$ 70,00/hectare nos últimos dois anos. Nestas condições, os custos totais sobem assustadoramente, inviabilizando a atividade. Apenas o custo variável, na região de Primavera do Leste (MT), chegou a US$ 510,79/hectare. Para se alcançar o ponto de equilíbrio, o produtor precisaria tirar 69,4 sacos de soja por hectare de produtividade nesta atual colheita. Ora, a média regional tem sido de 45 sacos, sendo que os melhores produtores chegam ao redor de 58 sacos de média. Neste contexto, apenas com um câmbio ao redor de R$ 3,00 para se poder chegar ao ponto de equilíbrio com a atual média. Como o câmbio continua girando entre R$ 2,10 e R$ 2,20 o prejuízo é enorme. Tal realidade é a mesma no restante do país, variando os valores, porém, permanecendo as distâncias percentuais. Isto está inviabilizando o agronegócio em geral e o produtor rural em particular. Paralelamente, o governo federal pouco vem fazendo em favor de criar alternativas compensadoras. Ora, o setor primário precisa urgentemente solucionar o problema da falta de um seguro agrícola eficiente; da logística; de um sistema de comercialização que permita alternativas para além da simples especulação em torno do produto físico; de linhas de crédito compatíveis, com juros adaptados a nova realidade inflacionária nacional, hoje bem mais baixa etc. Espera-se que a “MP do Bem”, destinada ao setor, corrija tal realidade. Sem isto, o setor continuará freando e puxando, consigo, boa parte da economia nacional. Como disse o professor Mauro Lopes (FGV), isto é um desrespeito da Nação para com um setor que tem historicamente carregado nas costas (sic) o Brasil.