O governo dos EUA, pressionado pela maior crise financeira dos últimos 60 anos, se viu obrigado a propor um pacote de salvamento ao sistema bancário local da ordem de US$ 700 bilhões. Ou seja, todas as medidas anteriores, incluindo injeções de recursos importantes na economia, não foram suficientes, nestes últimos 13 meses, para acalmar o ajuste que o mercado vem realizando a partir do estouro da bolha imobiliária naquele país. Nestes últimos dias de setembro a situação se agravou ainda mais porque o Congresso estadunidense, num misto de demagogia e ideologia, a partir da posição dos republicanos, decidiu não aprovar a proposta inicial do pacote. Ora, não há dúvida de que o mesmo é importante e necessário, embora possa ser ainda insuficiente pelo tamanho do iceberg que existe para derreter. Nesse sentido, alguns aspectos merecem consideração. Na história da economia mundial, sempre em períodos de crise aguda, os Estados entraram com políticas e sistemas de socorro, buscando reorganizar o processo. Em segundo lugar, as crises financeiras e econômicas surgem, na maior parte das vezes, por falta de controle (ou regulamentação) do mercado, ou por desorganização gerencial dos Estados. No caso atual, as duas coisas se somaram. O mundo abusou da desregulamentação do mercado financeiro, deixando de lado as lições das crises passadas, e os Estados, em sua maioria, continuam abusando de gastar mais do que podem. Em muitos casos sustentando um sistema ineficiente e custoso. Os EUA, da era George Bush, é um típico representante desse grupo. Em terceiro lugar, não se trata aqui de se construir novamente economias planificadas ou, no outro extremo, de “estado mínimo”, como se procurou fazer no Século XX. A globalização reforça outra realidade e necessidade.
A importância do pacote dos EUA (II)
Trata-se de, em torno do capitalismo, construir um modelo que permita à economia produtiva funcionar, num contexto de mercado livre, porém, com a presença de um Estado organizador, pela sua eficiência gerencial e mecanismos de regulação interna e externa. E cada vez mais interligado com o sistema mundial, na medida em que a interdependência entre as Nações avança. Ou seja, não estamos assistindo a crise da economia de mercado. O que assistimos é a crise da financeirização da economia, que se aproveitou da globalização irreversível, e da desregulamentação a qualquer preço, para “faturar” sempre mais. Ocorre que tal realidade, quando explode, atinge igualmente a economia real, o setor produtivo. Assim, mesmo que a lógica seja de deixar o mercado corrigir naturalmente seus exageros, tal decisão tende a ser ainda mais desastrosa, pois os efeitos nefastos sobre o setor produtivo, a riqueza geral, os empregos e o bem-estar social do mundo serão ainda mais excludentes e devastadores para as Nações e particularmente para os menos preparados. Assim, novamente a receita que defende a intervenção do Estado na economia, em momentos de crise, tende a ser a mais adequada, quando não a única. A atual crise financeira mundial confirma isso. Sem o pacote de US$ 700 bilhões do governo estadunidense (e talvez outros tantos que ainda terão que ser postos em ação), o mundo irá continuar afundando, até ocorrer uma “concertação” entre os principais Estados do planeta. E quanto mais demorar o socorro, pior irá ficar para o setor produtivo. A questão, a partir disso, é que o sistema econômico globalizado aprenda a lição e crie sistemas de regulação eficientes, que não anulem o livre mercado e que canalize a riqueza para o sistema produtivo, eliminando a especulação inconseqüente e o dinheiro fácil.