A água é um fator essencial na produção aqüicola. Ela concentra o oxigênio necessário aos organismos, conduz nutrientes, funciona como entorno e determina quais espécies, podem aí permanecer e/ou obter melhores proveitos, desde a fase de fecundação até a despesca, (p.ex.: ovos, larvas, pós-larvas, girinos, alevínos, crescimento e engorda). Porém esses organismos necessitam de alimento, liberam aí os seus dejetos, desprezam resíduos, tudo isso trazendo ou criando condições não muito favoráveis para as variáveis físicas, químicas
e biológicas a todo o sistema aquático.
Por causa da especial característica desta água, considerando sua específica qualidade e composição para criação normal de organismos e dos possíveis outros usos que se fazem dela, tanto para o abastecimento de outros animais, até para o ser humano, como também no aspecto de lazer e beleza, certas preocupações devem imperar.
Na aqüicultura nacional, esta água ainda pode vir de locais especiais, captada de primeira vez, (nascentes) ou sem outros usos (córregos, etc.) e portanto conseguida em situações privilegiadas ou quase de extrema qualidade, sem contar quando não forem oriundas de áreas de preservação ambiental.
Na verdade, a carga orgânica, os minerais liberados e outros compostos produzidos pelas criações em geral, e em especial nas "intensivas", advêm essencialmente da utilização dos alimentos lançados pelo criador, visto que uma só pequena parte deste é efetivamente transformado em carne de peixe. Calcula-se de 14 a 15% o que é verdadeiramente transformado em aproveitável, ou seja o que faz o organismo ganhar "massa de corte e/ou comestível", sendo o restante disperso em energia, na composição das estruturas rígidas , além do que é liberado sob a forma de dejetos e mesmos nas perdas por desperdício ou rejeição.
Tem-se notado que em criações de tilápia, normalmente para se obter 1 kg de peso total, (carne, vísceras, estruturas rígidas, etc. ...), são necessários 1,8 a 2,0 kg de ração, portanto uma taxa de conversão nas cercanias de 2:1, ocorrendo assim uma enorme perda, nas mais variadas formas. Em tanques super eutrofizados, com lançamentos de resíduos orgânicos (vísceras, restos de outros alimentos, adubo, etc. ...) para o bagre africano e tilápia, tem-se conseguido taxa de conversão de 1,2/1. Parece vantajoso, mas deve-se considerar a má qualidade das águas de uso e lançamento, além de predispor os organismos a possíveis infeções e infestações, sem contar a alteração no sabor natural da carne desse animais.
É esta massa de carga dissolvida na água e assentada no fundo do tanque, lago etc., que caracteriza o que se pode chamar de "efluente de certa carga", gerado pela atividade aqüícola. Portanto, esta poluição advém essencialmente do alimento não convertido, constituindo numa carga a mais para o empreendedor, significando desperdício de ração, tempo maior dos serviços de manejo e manutenção, para o desenvolvimento da criação, com taxa menor de assimilação.
Calcula-se que, para cada quilo de alimento produzido, se tenha uma proporção de até 40% de perda, presente sob a forma de matéria em suspensão e posteriormente depositada no fundo do tanque e que varia de 4% a 10%. É dessa parte dissolvida na água que se encontra sob a forma mais potencialmente perigosa, a de compostos amoniacais, que se pode chamar de possíveis poluentes. Destes dissolvidos, 2,5% esta na forma de outros nutrientes, como o fosfato. Alerta-se que, para 100 kg de peixes que recebam , por exemplo, 3 kg de alimento/dia, são produzidos cerca de duas vezes mais em carga de D.Q.O./dia.
A literatura afirma que a criação de peixes em cativeiro acarreta problemas quando a taxa de alimentação atinge 80 kg/ha por dia, trazendo decréscimo na concentração de oxigênio dissolvido e elevação na concentração de amônia não ionizada-NH3, ... a mais tóxica. Por exemplo, este autor calcula que para 1000 kg de truta, produzida por ano/hectare, tem-se 10 a 25 kg das várias formas de fosfato produzido e 80 a 90 kg de nitrogenados, portanto materiais introduzidos no sistema. Estudos em andamento indicam uma tendência variando entre 15 a 30% desses últimos compostos produzidos em criações intensivas de peixes onívoros e carnívoros, alimentados com alimentos de taxas altas em PB.
Segundo informes do Departamento de Aqüicultura/U.F.M.G. (1995-6), para cada quilograma de ração lançada pode-se produzir: 25 - 50 gramas de amônia; 200 - 300 gramas de sólidos em suspensão; 100 - 200 gramas de D.B.O.; 5 - 15 gramas de fosfato e 30 - 60 gramas de nitrato.
Em certas pisciculturas tem-se notado que quando do lançamento de mais de 120 kg/hectare de ração, problemas com a qualidade das águas e ocorrência de morte de tilápias estão mais presentes.
Pesquisadores do CEPTA/SP citam que, no final de um período de engorda, quando a quantidade de ração fornecida atingia 170 kg/ha por dia, ocorria sérios problemas com o crescimento dos peixes, apresentando sinais de estarem submetidos a condições de hipoxia, estado resultante, com certeza, do excesso de matéria orgânica, em processo de oxidação, retirando o oxigênio da água.
Outro aspecto a ser considerado é qual o tipo ou quais os graus de carga orgânica oriunda da atividade aqüícola, assim por exemplo, a atividade de truticultura gera basicamente dois tipos de efluentes distintos; um contendo "baixa carga orgânica e mineral" , com até 100 mg DBO/l, porém em grandes volumes de água ( Q= 100 a 120 l/s ) , o outro tipo já possuindo "alta carga orgânica", com DBO igual ou superior a 1000 mg/l, mas em pequenos volumes de água.
O primeiro efluente, (baixa carga), consiste da água oriunda dos tanques de larvas, alevinagem e engorda, que embora apresente-se em concentração baixa de DQO/DBO, se dispõe continuamente, pelo processo de manejo dos tanques. Já o segundo, (alta carga), é originário da sedimentação, compondo a descarga de fundo pelo sistema de monge ou qualquer outro processo para retirada da água de fundo e/ou da operação de sifonagem e/ou varredura do fundo dos tanques com fezes e restos de ração. Em certas criações, de truta por exemplo, tal operação é feita a cada semana. Portanto, por possuírem características peculiares, processos distintos de tratamento devem ser aplicados.
No caso de ranicultura, as alterações da qualidade da água de uso, advém principalmente do acúmulo de alimentos e excretas transportados na lavagem das baias e tanques. Embora a quantidade de água e vazão seja variável, a concentração de matéria orgânica é relativamente alta, indo compor as características de DQO/DBO das chamadas águas de lançamento, ou seja, o efluente gerado pela aqüicultura.
Também, a quantidade e as características qualitativas dos alimentos distribuídos não são constantes e iguais, durante todo o tempo de desenvolvimento dos organismos, dependendo do estoque, da fase climática e taxa de alimento lançado num dado instante da fase do desenvolvimento desses.
Outra conseqüência é a evolução da carga orgânica na água, embora o seu tempo de permanência efetivo no tanque, possa não ser tão longo, dispersa rapidamente sob a forma mais ou menos solubilizada, sendo sua recuperação na forma sólida muito difícil. Porém deve-se distinguir a forma solúvel excretada pelos organismos; a forma solúvel resultante da dissolução dos materiais decantáveis e a forma efetivamente decantável.
*Então, os geradores da composição do efluente da aquicultura são: os eliminados pelos organismos por meio das brânquias, pele e excretas fecais; os compostos amoniacais solúveis; as partículas de alimento não consumidos, contidos e transportados pelas águas e que se decompõem nos tanques; a sedimentação e ao próprio transporte de outros dejetos trazidos pela água de abastecimento; a utilização de produtos químicos/veterinários nos tratamentos convencionais; a fertilização química; a adubação orgânica.
Quanto à alimentação, novas formulações da ração permitem limitar os dejetos de certos poluentes, seja pela melhoria na digestibilidade das matérias primas, seja por delegar aos lipídeos, funções antes desempenhadas pelas proteínas. Testes realizados apontam para os alimentos considerados de "alta digestibilidade", um fator de dejetos inferior a 30% em amônia e de 40% em MES (matérias em suspensão), quando comparado ao alimento normal.
Pesquisas propõe a utilização de alimentos com alto teor de lipídeos (18%) para limitar os dejetos com amônia; ... embora o custo desses seja elevado, obtém-se uma compensação satisfatória pela melhoria sensível nos índices de transformação.
Também, técnicas de arraçoamento aplicadas às performances do habito alimentar da espécie, apontam vantagens quanto a conversão alimentar, podendo exercer papel não desprezível sobre os dejetos, quando comparados à performance em peixes alimentados "por demanda". Neste caso, a utilização dos chamados alimentadores automáticos intermitentes seria de grande ajuda, quando convenientemente calibrados.
*O acompanhamento das condições químicas do sedimento, auxiliam ao aqüicultor não só quanto ao potencial da produção do seu plantel, como também podem estabelecer intervalos significativos (máximas e mínimas) das variáveis como, pH, fósforo, nitrogênio, carbono orgânico do sedimento.
Aconselha-se que o produtor tome como obrigatório o acompanhamento diário (e/ou em intervalos maiores) das variáveis pH, oxigênio dissolvido, transparência, temperatura, amônia, nitrito, etc. de todas as águas de sua criação, obtendo assim o conhecimento das mesmas em todo ciclo de criação, podendo e tendo tempo hábil de tomar medidas saneadoras, evitando perdas no seu plantel, como infeções e infestações e/ou alterações qualitativas e quantitativas das variáveis físicas e químicas. Tal cuidado evitará com certeza as surpresas desagradáveis como debilidade, doença e mortandade de organismos, o que significa prejuízo econômico.
* Tudo isso, leva-nos a afirmar que o nível de poluição gerada pela aqüicultura apresenta-se intimamente ligado as situações e manejo do estoque, dos tanques e da alimentação, portanto o emprego de técnicas articuláveis e adequadas de manejo do plantel e do sistema aquático, para cada situação, resulta numa gestão racional da água e melhoria dos resultados de produção.
O aqüicultor tem não só de se preocupar com seus organismos, mas ajustar-se com as exigências ambientais, aplicando condutas que visem minimizar o que se chama de "passivo ambiental" ou seja as contas à pagar e compromissos relacionados ao meio ambiente. Esta idéia não é apenas decorrente da novidade do termo mas principalmente dos valores envolvidos que podem ser tão elevados a ponto de comprometer a saúde financeira do empreendimento.
*Ai esta a "legislação sobre recursos hídricos" visando a "cobrança pelo uso efetivo da água" sendo aplicada não só nos empreendimentos industrias e municipais, mas em cima de qualquer outra atividade que faça uso e reuso deste líquido precioso. Têm-se, entre todos nós, altos créditos dados à atual e futura ação das comissões ou comitês formados em cada bacia hidrográfica.

