A agricultura moderna enfrenta um desafio sem precedentes. Se durante boa parte do século XX o agricultor preocupava-se principalmente com pragas, doenças e preços de mercado, hoje existe um adversário muito mais difícil de controlar: a crescente instabilidade climática. Secas prolongadas, chuvas torrenciais, enchentes, ondas de calor e alterações na distribuição das precipitações passaram a influenciar fortemente o desempenho das lavouras em praticamente todas as regiões agrícolas do planeta.
Nesse contexto, temos a pergunta de centenas de bilhões de dólares: como produzir alimentos de forma estável em um ambiente que se tornou menos previsível?
Um excelente estudo, recentemente publicado na revista científica Agriculture, Ecosystems & Environment, intitulado Crop diversification shapes soil multifunctionality under common hydroclimatic extremes (https://bit.ly/4eg0vSH), traz uma resposta promissora. A pesquisa demonstrou que sistemas agrícolas mais diversificados conseguem manter a produtividade e resistir melhor aos efeitos de secas e enchentes graças, principalmente, à melhoria da qualidade e do funcionamento do solo.
Embora o título do artigo aparente algo muito complexo, a mensagem central é simples: quanto maior a diversidade de plantas cultivadas, maior tende a ser a capacidade do solo de proteger a produção agrícola diante dos extremos climáticos. O texto a seguir foi inspirado nesse artigo, seus resultados e conclusões.
O problema da simplificação
Nas últimas décadas, a agricultura evoluiu para sistemas cada vez mais especializados. Essa transformação permitiu enormes avanços em produtividade, mecanização e eficiência operacional. Entretanto, a simplificação excessiva trouxe consequências. Em muitas propriedades rurais, poucas espécies vegetais passaram a dominar as áreas agrícolas. Sequências repetitivas, como trigo seguido de soja ou milho, seguido de soja, às vezes algodão ou feijão, tornaram-se comuns em diversas regiões produtoras.
Do ponto de vista operacional, isso facilita o manejo. Porém, do ponto de vista ecológico, cria um sistema menos diverso e, consequentemente, mais vulnerável. Imagine uma cidade cuja economia dependa exclusivamente de uma única indústria. Se aquela atividade entrar em crise, toda a cidade sofrerá. Já locais com múltiplos setores econômicos possuem maior capacidade de adaptação.
Com os agroecossistemas ocorre algo semelhante. Quanto menor a diversidade biológica, tanto menor tende a ser a capacidade de responder a situações inesperadas. Quando chegam períodos extremos de seca ou excesso de chuvas, sistemas simplificados frequentemente apresentam maiores perdas de produtividade e recuperação mais lenta.
A diversificação agrícola vai muito além de simplesmente cultivar espécies diferentes. Ela envolve a construção de sistemas produtivos capazes de manter uma sucessão contínua de plantas ao longo do ano. Isso pode incluir rotação de culturas, consórcios agrícolas, plantas de serviço, adubos verdes, cultivos em sucessão, misturas de espécies (mix) durante a entressafra, entre outros.
O objetivo não é apenas produzir mais alimentos, vai além. O propósito principal é manter o solo permanentemente ativo, protegido e biologicamente rico. Nesse contexto, ganham destaque as chamadas plantas de serviço, também conhecidas como plantas de cobertura. Essas espécies não são cultivadas para venda, sua função principal é proteger e melhorar o solo entre os ciclos das culturas comerciais.
Plantas que trabalham para o agricultor
As plantas de serviço funcionam como verdadeiras engenheiras ecológicas. Enquanto crescem, suas raízes exploram diferentes profundidades do solo, abrindo canais naturais que facilitam a infiltração de água e a circulação de ar. Ao mesmo tempo, produzem biomassa que cobre a superfície, reduzindo erosão, temperatura do solo e evaporação de água. Quando concluem seu ciclo, suas raízes e resíduos vegetais transformam-se em matéria orgânica.
Essa matéria orgânica é fundamental para manter a fertilidade, alimentar microrganismos e aumentar a capacidade do solo de armazenar água. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo citado no início, manter plantas vivas durante o ano todo significa fornecer continuamente alimento para a microbiota do solo, mantendo permanentemente abastecida uma enorme comunidade subterrânea de microrganismos.
É importante salientar esse aspecto, porque a maioria das pessoas observa apenas o que acontece acima da superfície. Entretanto, uma parte essencial da agricultura ocorre abaixo dela pois, em um solo saudável, vivem bilhões de organismos microscópicos. Bactérias, fungos, algas, protozoários, nematoides e inúmeros outros organismos formam uma rede biológica extremamente complexa.
Esses organismos realizam tarefas fundamentais, como: reciclagem de nutrientes; decomposição da matéria orgânica; formação de agregados do solo; fixação biológica de nitrogênio; solubilização e disponibilização de fósforo; proteção contra patógenos. Sem essa atividade biológica, a fertilidade natural seria muito menor.
Os pesquisadores compararam a introdução de diferentes plantas de serviço quanto ao fornecimento de um cardápio variado para essa comunidade biológica subterrânea. Quanto maior a diversidade alimentar, mais ativa, equilibrada e eficiente torna-se a vida presente no solo.
O experimento em terras gaúchas
O estudo reuniu informações provenientes de treze experimentos conduzidos em propriedades rurais do Sul do Brasil. A pesquisa integrou indicadores de saúde do solo, produtividade agrícola e variáveis climáticas. A análise ocorreu durante um período particularmente interessante do ponto de vista científico pois, entre 2022 e 2025, o Rio Grande do Sul enfrentou condições climáticas extremamente adversas, incluindo secas severas e enchentes históricas. Essa combinação permitiu aos pesquisadores observar como diferentes sistemas agrícolas reagiam sob situações reais de estresse climático. Ou seja, apesar das adversidades, na prática, a natureza forneceu um grande laboratório a céu aberto.
Os resultados foram impressionantes. Nas propriedades que adotaram estratégias de diversificação e utilizaram plantas de serviço, as produtividades superaram significativamente as médias estaduais, alcançando, em alguns casos, valores até 76% superiores. Entretanto, ainda mais importante, é a estabilidade observada pois, mesmo diante das oscilações climáticas, essas áreas mantiveram desempenho relativamente consistente.
Já os sistemas simplificados apresentaram resultados modestos. As produtividades ficaram apenas cerca de 8% acima da média estadual e mostraram fortes variações entre anos consecutivos, com oscilações de até 39%. Esses números revelam uma diferença importante entre produzir muito e produzir de forma consistente. Afinal, para o agricultor – e para o Brasil - estabilidade é tão importante quanto altos rendimentos!
O solo e sua importância
Durante muitos anos acreditou-se que a produtividade dependia majoritariamente da quantidade de fertilizantes aplicados. Hoje sabemos que a realidade é mais complexa., sabemos que o solo não funciona apenas como suporte físico para as plantas, ele constitui um sistema vivo, capaz de desempenhar múltiplas funções simultaneamente. É justamente essa capacidade que os cientistas denominam "multifuncionalidade do solo".
Entre essas funções estão: armazenamento de água; ciclagem de nutrientes; sequestro de carbono; sustentação das raízes; atividade biológica; regulação química; filtragem de contaminantes. Quanto mais eficientemente o solo desempenha essas funções, maior sua contribuição para a produtividade agrícola. No estudo em tela, ficou demonstrado que a diversificação de culturas fortalece exatamente esse conjunto de capacidades.
Parcela dos benefícios observados está relacionada ao manejo da água. Quando chove intensamente sobre um solo degradado, grande parte da água escorre pela superfície, carregando sedimentos e nutrientes. Logo, pouca água infiltra. É a maldição da erosão, que arrasta o solo para os rios. No entanto, em um solo bem estruturado, rico em raízes e matéria orgânica, a infiltração é muito maior, pois a água entra no perfil do solo e fica armazenada.
Posteriormente, durante os períodos secos, essa reserva pode ser utilizada pelas plantas. Assim, o solo passa a desempenhar um papel semelhante ao de uma esponja gigante. E, quanto melhor sua estrutura, maior sua capacidade de absorver e armazenar água.
Tem mais: as raízes das plantas de cobertura deixam um legado importante pois, ao crescerem, elas abrem canais naturais conhecidos como bioporos. Mesmo após a decomposição das plantas, esses canais permanecem no solo, criando uma rede de galerias subterrâneas. Através delas, a água infiltra mais facilmente, permite ser armazenadas, e as raízes das culturas seguintes conseguem explorar camadas mais profundas.
Esse fenômeno aumenta significativamente a resiliência das lavouras diante das estiagens, assim, em vez de depender exclusivamente da umidade superficial, as plantas conseguem acessar reservas de água armazenadas em profundidade.
E o carbono?
A matéria orgânica do solo é composta principalmente por carbono. Quando sistemas diversificados produzem mais biomassa, aumenta também o potencial de incorporação de carbono ao solo. Esse carbono melhora a estrutura física, aumenta a retenção de água e favorece a atividade biológica.
Ao sequestra-lo, e imobilizá-lo no solo, é possível reduzir a concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Menos emissões, menor concentração, conduzindo à mitigação das mudanças climáticas. Dessa forma, a diversificação agrícola gera benefícios simultâneos para o produtor e para o ambiente. Ou seja, os sistemas diversificados, ao mesmo tempo, auxiliam a mitigar as mudanças climáticas, e também servem como tecnologias de adaptação dos cultivos à elas, tornando-os mais resilientes.
Nesse sentido, um dos conceitos mais interessantes apresentados pelos pesquisadores responsáveis pelo estudo é o de "amortecedor biológico". A expressão descreve a capacidade do solo saudável de suavizar os impactos dos extremos climáticos. Senão vejamos: Durante secas, o sistema libera gradualmente parte da água acumulada. Quando ocorrem chuvas excessivas, aumenta a infiltração e reduz encharcamentos.
Em ambos os casos, as variações ambientais continuam ocorrendo. Entretanto, seus efeitos sobre as culturas tornam-se menos severos. Mal comparando, é como o funcionamento da suspensão de um veículo: os buracos continuam existindo na estrada, mas seus impactos são parcialmente absorvidos.
Agricultura regenerativa
Os resultados da pesquisa fortalecem os princípios da chamada agricultura regenerativa. Essa abordagem conceitual moderna busca não apenas preservar os recursos naturais, mas melhorar continuamente a qualidade dos ecossistemas agrícolas. Entre suas práticas mais importantes estão plantio direto; rotação de culturas; plantas de cobertura; integração de espécies; redução do revolvimento do solo; aumento da biodiversidade. O estudo indica que essas estratégias não são apenas conceitos ambientais, afinal eles geraram benefícios produtivos e econômicos concretos.
Assim mesmo, os autores destacam que nenhum sistema é completamente imune aos eventos extremos. Quando ocorrem catástrofes climáticas excepcionais, até mesmo sistemas altamente conservacionistas podem sofrer perdas. Contudo, os resultados demonstram que propriedades com solos mais saudáveis apresentam maior capacidade de recuperação e menor vulnerabilidade geral. Essa diferença pode ser decisiva para a viabilidade econômica de uma atividade agrícola ao longo dos anos.
Aprendendo com a Natureza
Em ambientes naturais raramente encontramos monoculturas, o que vemos são florestas, campos naturais e cerrados apresentando enorme diversidade de espécies. Diversidade essa que cria estabilidade, pois quando uma espécie enfrenta dificuldades, outras continuam desempenhando funções essenciais.
A pesquisa mostra que sistemas agrícolas podem se beneficiar dessa mesma lógica ecológica, conquanto a diversidade gera redundância, complementaridade e resiliência. Diferentes espécies exploram diferentes camadas do solo, utilizam recursos distintos e interagem com diferentes grupos de organismos. O resultado é um sistema mais robusto.
As projeções climáticas indicam que eventos extremos deverão tornar-se mais frequentes e intensos nas próximas décadas – a isso denominamos mudanças climáticas. Diante desse cenário, será cada vez mais importante construir sistemas produtivos capazes de conviver com a variabilidade climática.
O estudo Crop diversification shapes soil multifunctionality under common hydroclimatic extremes oferece uma mensagem clara: a melhor tecnologia pode não estar apenas nas máquinas ou nos insumos, mas também na própria biologia do solo. Ao aumentar a diversidade de plantas, estimular a vida subterrânea e manter o solo permanentemente coberto, os agricultores fortalecem um aliado silencioso que trabalha vinte e quatro horas por dia.
E quanto mais saudável ele for, maior será sua capacidade de produzir alimentos, conservar água, armazenar carbono e proteger as lavouras contra as incertezas de um clima em transformação.
Dedicatória:
Dedico esta coluna ao agricultor Murilo Teixeira, de São Gabriel, no Pampa Gaúcho, a quem aprendi a admirar porque acredita, pratica e divulga exatamente tudo o que escrevi acima. O Brasil seria muito melhor se existissem 10.000 Murilos tratando o solo pátrio da mesma maneira, nos quatro cantos do nosso país.
O autor é engenheiro agrônomo, bolsista de inovação da Embrapa Soja, membro do Conselho Científico Agro Sustentável e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.


