O ano de 2005 já está marcado pelo negativismo, surgido particularmente após a frustração da safra de verão, a maior desde 1970, que nos fez perder cerca de R$ 6,0 bilhões. Sem falar nos valores agregados que tal soma deixará de aportar a economia gaúcha e nacional. E isto, depois de uma frustração parcial na safra de verão anterior, adicionada a preços em queda dos produtos agrícolas, particularmente os da soja, que perderam cerca de 50% em poucos meses. Assim como às dificuldades da última safra de inverno onde a qualidade do produto ficou prejudicada mais uma vez pelo clima, fato que derrubou os preços do trigo para níveis ao redor de R$ 18,00/saco quando o preço mínimo é de R$ 24,00/saco.
Um somatório de problemas, amenizados apenas pela melhoria dos preços na área da suinocultura, graças a um mercado mais dinâmico, assim como a manutenção de um mercado ativo junto à carne avícola. O mesmo não se pode dizer da carne bovina, há dois anos encontrando enormes dificuldades na formação dos preços, barrada que está na fronteira de Santa Catarina após os problemas de febre aftosa.
Uma situação que justificaria o desânimo geral do agronegócio gaúcho, particularmente junto aos produtores rurais e suas cooperativas, normalmente os mais atingidos. Sem querer mascarar o problema, pois o mesmo é concreto e preocupante, passado o choque, é preciso reagir. Tal reação deve ser diferente das até aqui realizadas. Não pode ficar apenas na perspectiva conjuntural, ou seja, na perspectiva da próxima safra.
O agronegócio gaúcho é forte, seus produtores já enfrentaram crises parecidas e sempre conseguiram vencê-las, muito embora nem todos possam usufruir dos mesmos resultados. No entanto, um dos erros que se comete é pensar no curto prazo. Assim como se venceu a luta pela constante absorção de tecnologia, situação que os técnicos, agrônomos e veterinários, e todos os demais pesquisadores deste Estado e fora dele, muito contribuíram para se chegar ao atual estágio, precisamos avançar ainda mais em outros aspectos. Isto amenizará futuras crises, mesmo climáticas.
Dentre os desafios que o agronegócio gaúcho tem pela frente, em primeiro lugar está a necessidade de se organizar um verdadeiro seguro agrícola. Na verdade, as opções existem, porém, boa parte dos produtores rurais o considera desnecessário, avaliando que tal proteção é muito mais um custo do que um investimento. Diante de nossa realidade climática, e do tamanho dos prejuízos que passamos a ter, esta mentalidade deve mudar urgentemente. Em segundo lugar, deve-se manter um processo constante de aperfeiçoamento no que tange as linhas de crédito agrícola, para custeio e investimento especialmente. É preciso superar a fase de se esperar apenas pelo governo. O sistema produtivo deve interagir de forma mais decisiva com o governo, trabalhando em parceria em defesa da cadeia produtiva e não em confronto com o Estado. A iniciativa privada deve aperfeiçoar seus mecanismos de auxílio entre si, ou seja, dentro da própria cadeia produtiva. Por sua vez, o governo deve compreender definitivamente a importância de tal estratégia, fato que nestes últimos tempos vem ocorrendo de maneira mais intensa. Em terceiro lugar, tais linhas de crédito devem privilegiar um processo de modernização agrícola pela via da irrigação, embora haja dificuldades ambientais a serem gerenciadas igualmente. A racionalidade de um processo adequado de irrigação passa pela tecnologia e pela racionalidade econômica, deixando-se de lado ideologias e radicalismos. Em quarto lugar, o agronegócio gaúcho deve aprender a construir e trabalhar efetivamente em torno das cadeias de produção. Neste momento, e nossa história econômica nacional demonstra isto, ainda não conseguimos trabalhar como cadeia de produção. Isto é, todos os elos da cadeia assumindo as dificuldades e as vantagens de sua organização e funcionamento. Infelizmente, o que muito acontece, é que os elos mais fortes tendem a capitalizar as vantagens e benefícios e socializar para toda a cadeia os prejuízos. Enfim, os produtores rurais e suas cooperativas devem manter um debate permanente sobre os assuntos econômicos e mercadológicos que envolvam suas atividades. Reações extemporâneas, movidas apenas pela conjuntura das crises, não permite a construção de sustentabilidade ao conjunto do setor. É preciso a construção de um fórum permanente de discussão e encaminhamento de soluções economicamente viáveis ao sucesso das atividades agropecuárias do Estado. Um fórum profissional e jamais político!
Neste contexto, as possibilidades de enfrentamento da crise existem, chegam a ser muitas. No entanto, as mesmas exigem muito trabalho, investimentos e vontade de concretizá-las. Esta capacidade, o setor produtivo gaúcho possui e já provou isto no passado. É hora agora da reação, mesmo sabendo-se que o rescaldo da crise ainda nos exigirá muitos sacrifícios. Esta reação passa por um planejamento estrutural que deve privilegiar as sugestões aqui expostas, assim como outras tantas idéias que diversos setores de nossa sociedade estão construindo e devem ser ouvidos.
A palavra de ordem agora passa a ser “sair da crise produzindo”, através da potencialização de nossas capacidades intelectuais, tecnológicas, políticas e econômicas. Não será fácil, porém, é plenamente possível. Portanto, à luta!