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Ambiente e civilização


Onofre Ribeiro
Nesta semana do meio ambiente acaba se discutindo o de sempre: desmatamento, poluição, lixo, camada de ozônio. Mas não vejo se discutir a civilização atual. Nem a antiga. Na verdade, não se discute civilização nenhuma. Todos, acabamos na pontuação de pontos de vista repetidos e repetidos. No mínimo, a mediocridade das repetições do já sabido.

 
Se nós considerarmos que o meio ambiente é o conjunto dos bens naturais e do meio em que vivemos, a conclusão é cruel: viver é ambientalmente incorreto! Vamos a exemplos do cotidiano. O mesmo jovem ambientalmente correto, que chora ao ver uma árvore derrubada ou um passarinho morto, demora uma hora debaixo do chuveiro consumindo energia elétrica que vem da água que alimenta a natureza no seu conjunto. A cada 20 minutos de banho, ele gasta a água que daria para 120 beberem e cozinharem durante um dia. Isso equivale também a matar passarinhos e a derrubar árvores.
 
Quando qualquer um de nós bebe uma bebida industrializada, até mesmo a água, está gastando uma cadeia enorme de produtos naturais transformados. O mesmo vale para a comida nossa de cada dia. A comida não nasce ali no supermercado e nem na prateleira da geladeira e do freezer. Ela vem de uma longa cadeia que passa pelas máquinas, pelos combustíveis, pelos fertilizantes, pelos defensivos agrícolas, pelo frete do transporte, pela manipulação de incontáveis mãos que vivem, bebem e se alimentam.

 
É quase impossível reconstituir a trajetória de cada um dos componentes das cadeias que envolvem todos os produtos que estão dentro da geladeira. Aliás, a começar pela própria geladeira que tem uma estória anterior enorme até virar geladeira.
 
Quando as populações urbanas se organizam e condenam os produtos lá no campo depois do noticiário alarmante da imprensa, estão sendo induzidas a se condenarem a si mesmas. O mesmo erro que comete o produtor lá no campo, comete o cidadão urbano com seus automóveis, seu lixo diário imenso, seu consumo e desperdícios de energia elétrica, de água, de bebidas, de móveis, de produtos industrializados, de telefones, de carros, de pick-ups, de gasolina, de diesel, de álcool, de medicamentos, etc.etc.
 
Pra onde vira, o cidadão urbano está consumindo, sem produzir. A equação é simples. Um consome, alguém produz. Ambos utilizam os bens naturais como matéria prima. Um para produzir, o outro para viver. Sem contar que ambos comem, bebem e gastam. Lá atrás, na pré-história o homem primitivo possuía as suas tecnologias da época, caçava, comia, bebia, se vestia, usava ervas medicinais, tudo tirado da natureza. A cada salto de civilização, mais recursos naturais, até chegar ao agora.

 
Portanto, não parece estranho essa relação próxima e crescentemente intensa do homem com o seu planeta. Ela sempre existiu. Só não foi tão intensa como agora. Porém, as tecnologias extraordinárias hoje alcançadas poderão servir para reduzir o peso humano sobre o ambiente do planeta. As discussões são muito maiores do que essas que estão postas aí. Alguém está fugindo da discussão sobre meio ambiente e civilização!
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