Mercado da soja
As cotações da soja viveram uma primeira semana de junho de altos e baixos, movidas por interesses puramente especulativos, em busca de compensações para a perda de valor do dólar na economia mundial. O fechamento desta quinta-feira (04), após o mercado ter recuado fortemente na véspera, foi de nítida recuperação, com o bushel batendo em US$ 12,30. As atuais cotações, que superam os US$ 12,00/bushel, somente tem comparativo com o ocorrido no início de setembro passado. Desde então o mercado trabalhou sempre abaixo disso, tendo mesmo alcançado quase US$ 7,80/bushel no início de dezembro passado.
Na prática, mesmo que o mercado use argumentos fundamentalistas (oferta e demanda), a realidade demonstra que entramos novamente num jogo de especulação muito semelhante ao que antecedeu o estouro da crise econômica mundial em setembro de 2008. E isso deve durar enquanto a moeda dos EUA não retornar a um valor mais palatável no mercado e/ou enquanto a safra estadunidense não estiver definida.
Nesse último caso, lembramos que um dos relatórios esperados para este mês, o de oferta e demanda do USDA, sairá neste próximo dia 10/06, o qual poderá causar alguns movimentos importantes no mercado. Todavia, é bom salientar também que o mercado já o tem relativamente precificado, não esperando grandes novidades em relação ao relatório de maio passado.
O plantio nos EUA, até o dia 31/05, alcançava 66%, contra a média histórica de 79%. O mesmo está aos poucos se aproximando da normalidade, fato que deveria igualmente pesar contra as atuais altas em Chicago, se as mesmas não fossem meramente especulativas. Já os embarques de soja por parte dos EUA, na semana encerrada em 28/05, chegaram a 239.800 toneladas, contra 508.500 toneladas na semana anterior e 315.100 toneladas no mesmo período de 2008. Ou seja, mais um fator negativo para os preços.
Todavia, no acumulado do ano os volumes continuam importantes, superando largamente o resultado do ano passado na mesma época: 29,4 milhões contra 26,5 milhões de toneladas.
O mercado já começa a realizar que suas posições estão sobrecompradas, fato que explica o ajuste técnico, com clara realização de lucros, ocorrido na quarta-feira (03/06) e que poderá justificar ainda novas baixas nos dias vindouros.
Além disso, é bom não esquecer que a atual safra, mesmo que não venha a confirmar um aumento significativo de área nos EUA, encontra um clima favorável ao desenvolvimento da planta já que há umidade suficiente (e até em demasia) no momento. Isso permite esperar um volume final que pode superar as 87 milhões de toneladas projetadas inicialmente. Afora isso, o plantio do milho ainda não terminou e pode muito bem deslocar alguma área para a soja.
Enfim, os prêmios no Golfo giraram entre 57 e 58 centavos de dólar por bushel durante a semana.
Na Argentina, a realidade é de uma safra final de 32 milhões de toneladas, ante a expectativa inicial de 50 milhões, sendo que até o dia 28/05 cerca de 97% da área já estava colhida. Por sua vez, em Rosário os prêmios continuavam baixando, terminando a semana entre 30 e 35 centavos de dólar por bushel, para os meses de junho e julho.
Em termos mundiais, as importações somadas da China, Japão, Coréia do Sul e Tailândia, em abril, somaram 3,8 milhões de toneladas em equivalente farrelo de soja, representando um aumento de 28% sobre igual período do ano anterior.
Nota-se igualmente que a China, pela força de sua importação em abril, levou à duplicação da exportação mundial de colza e canola em relação ao ano anterior, na medida em que volume chegou a 1,26 milhão de toneladas.
Por outro lado, as projeções para a futura safra de soja mundial (2009/10) avançam um número recorde de 242,3 milhões de toneladas. Isso representa um incremento de 30,6 milhões sobre o atual ano comercial, fato que deverá exercer pressão baixista no mercado futuramente. Na verdade, o problema foi a reduzida safra deste ano, em relação ao esperado inicialmente.
Tanto foi reduzida que a produção dos 10 maiores óleos vegetais terá um incremento, neste ano, de apenas 1,8%. Isso será insuficiente diante da demanda em expansão existente no mundo.
Não é por acaso que os preços do óleo de soja, na esteira da especulação, que eleva igualmente os preços do petróleo no mundo (o mesmo bateu ao redor de US$ 70,00/barril durante esta semana), chegaram novamente ao redor de 40,00 centavos de dólar por libra-peso em alguns momentos da semana.
Contrabalançando esta realidade, temos que os 14 principais países da Ásia esperam importar 4% a menos de grãos de soja neste ano. Isso se deve ao fato dos mesmos terem aumentado a demanda de farelo e óleo, fato que reduz a necessidade de esmagamento local.
Na Europa, no CIF Rotterdam, os pellets de soja fecharam a semana em US$ 457,00/tonelada para o produto brasileiro e US$ 450,00/tonelada para o produto argentino, ambos para junho.
No mercado brasileiro, mesmo com as novas altas em Chicago os preços recuaram. Isso se deve a nova desvalorização do dólar. Durante a semana o mesmo chegou a ser cotado a R$ 1,92, terminando a quinta-feira (04/06) ao redor de R$ 1,94.
A média no balcão ficou em R$ 47,06/saco, enquanto nos lotes os preços médios se fixaram entre R$ 49,50 e R$ 50,00/saco. Nas demais praças do país os mesmos oscilaram em baixa igualmente, ficando entre R$ 42,50/saco em Barreiras (BA) e R$ 48,50/saco em Cascavel (PR).
Os prêmios nos diferentes portos brasileiros igualmente cederam nos últimos dias, fato que auxilia na redução dos preços aos produtores. Em termos médios, os mesmos oscilaram entre 45 e 60 centavos de dólar por bushel na semana. Há uma larga oferta do produto neste momento já que os produtores nacionais estão vendendo o produto para cumprirem compromissos bancários e ao mesmo tempo aproveitarem os preços, que continuam muito bons.
A queda dos prêmios tem relação com o fluxo importante de exportação, com o Brasil batendo o recorde mensal de vendas externas em maio, pelo segundo mês consecutivo, ao atingir 4,68 milhões de toneladas, contra 4,44 milhões de toneladas de maio do ano passado e 4,49 milhões vendidas em abril de 2009.
Entretanto, dificilmente os preços da soja deverão se manter assim tão altos, pois espera-se um sensível recuo se a futura safra mundial for positiva. Além da expectativa de uma safra de 87 milhões de toneladas nos EUA, em condições normais de clima, na Argentina a produção poderá ser de clara recuperação.
Especula-se um aumento para 51 milhões de toneladas na produção de soja do vizinho país, na medida em que os produtores de milho, desestimulados, deverão ceder mais área para a oleaginosa. No Brasil, a futura safra poderá facilmente superar as 60 milhões de toneladas se o clima permitir.
Mercado do milho
As cotações do milho em Chicago acompanharam o movimento especulativo, iniciado há duas semanas, e atingiram US$ 4,49/bushel no dia 02/06 para fechar em US$ 4,48/bushel nesta quinta-feira (04/06). Como se pode notar, as oscilações nesse mercado são bem menores do que o registrado com a soja. Isso se deve a um mercado muito ofertado, com uma demanda menos agressiva em termos mundiais, apesar da quebra na safra da Argentina e da redução no volume final projetado para o Brasil.
As vendas líquidas de milho, por parte dos EUA, na semana encerrada em 21/05 fecharam em 756.000 toneladas para o ano de 2008/09. Para o ano seguinte o volume negociado foi de 267.200 toneladas, sendo Taiwan um dos principais compradores na semana.
O plantio nos EUA alcançou a 93% no dia 30/05, quando se encerrou o prazo técnico para a semeadura do cereal. Na média histórica a área é de 97% nesta época. Isso implica em esperar um repasse relativamente importante para a soja, cujo prazo técnico vai até o final de junho. A partir de agora as perdas de produtividade com o milho podem ser ainda maiores caso os produtores insistam em semeá-lo. Assim, ganha importância ainda maior o relatório de plantio definitivo esperado para o dia 30/06 nos EUA.
Quanto às condições das lavouras de milho naquele país, 63% estavam entre boas e excelentes e 37% entre ruins a regulares. Na Europa o milho voltou a subir, na esteira de Chicago, batendo em 159,00 euros por tonelada neste início de junho.
Na Argentina, os preços FOB da tonelada fecharam a semana em US$ 188,00, enquanto no Paraguai os mesmos subiram para US$ 127,50. A seca de verão em todo o sul da América está agora provocando seus reflexos no mercado, já que a oferta local é menor. Até o dia 28/05 a Argentina havia colhido 90% de sua área de milho, contra 81% na mesma época do ano anterior.
No mercado brasileiro, os preços no sul continuaram subindo, com o balcão gaúcho batendo em R$ 18,59/saco na média desta primeira semana de junho. Nos lotes, o norte do Estado praticou R$ 22,00/saco enquanto nas demais praças nacionais pesquisadas os preços variaram entre R$ 16,00/saco em Rondonópolis (MT) e R$ 22,80/saco em Chapecó (SC).
Um dos motivos desta manutenção de preços firmes, e melhoria dos mesmos em muitas regiões, está na constatação de que a safrinha do cereal deverá ser ainda menor do que o já anunciado. Isso se deve as geadas (primeiras deste inverno) que se formaram nesta primeira semana de junho no sul brasileiro. Com temperaturas abaixo de zero em muitos locais, projeta-se uma quebra de até 50% na safrinha do oeste paranaense. No total daquele Estado já se aponta uma quebra de 14% na safrinha, após 35% na safra de verão devido a estiagem.
Contrabalançando esta realidade, as exportações acusam volumes menores em maio. As mesmas recuaram 25%, ficando em apenas 300.000 toneladas. Em relação ao mês de maio de 2008, o recuo no volume exportado chega a 57%. Todavia, no acumulado dos cinco primeiros meses do ano o volume de milho exportado chega a 3,23 milhões de toneladas, contra 2,58 milhões em igual período do ano passado. Esse comportamento permite esperar vendas finais superiores a 6 milhões de toneladas, fato que poderá dar ainda mais sustentação aos preços do cereal no Brasil. Sobretudo se a safrinha continuar sendo prejudicada pelo clima. A título de informação, e para dar uma ideia no novo quadro de mercado, a média de preços da tonelada exportada em maio chegou a US$ 164,40. No mesmo mês, em 2008, a média foi de US$ 229,40/tonelada. Ou seja, o preço atual é 28,3% menor do que o praticado um ano antes.
Já no ano comercial 2009/10 (iniciado em fevereiro passado), o volume exportado é de 1,9 milhão de toneladas.
A semana terminou com os preços na importação, no CIF indústrias brasileiras, valendo R$ 32,31/saco para o produto estadunidense em junho e R$ 29,80 para o produto argentino. Para julho, o produto do vizinho país ficou em R$ 30,04/saco. Na exportação, o transferido via Paranaguá bateu em R$ 22,42/saco para junho; R$ 22,35 para julho; R$ 22,66 para agosto; R$ 22,81 para setembro; R$ 23,77 para outubro; R$ 23,87 para novembro; R$ 24,59 para dezembro e R$ 24,47/saco para janeiro de 2010.
Enfim, mesmo com a quebra na safra e as exportações caminhando relativamente bem, continua a pesar sobre o mercado a possibilidade dos estoques finais brasileiros serem elevados em 2009. Tal situação, se ocorrer, poderá reduzir novamente os preços no início de 2010, quando a nova colheita de verão se cristalizar.
Mercado do trigo
As cotações do trigo em Chicago se mantiveram em alta, fechando a quinta-feira (04) em US$ 6,35/bushel, após terem recuado para US$ 6,17 na véspera. Assim como na soja e no milho, igualmente o mercado do trigo tem oscilado ao sabor da especulação propiciada pelo retorno parcial do capital financeiro junto ao mercado de commodities.
Dito isso, as vendas líquidas dos EUA no ano comercial 2009/10, na semana encerrada em 21/05, alcançaram 228.200 toneladas, contra 543.300 toneladas na semana anterior. O Japão foi o principal comprador com 66.200 toneladas. Já para o atual ano comercial 2008/09, tais vendas chegaram a 103.900 toneladas. Quanto as inspeções de exportação, na semana encerrada em 28/05 o volume chegou a 277.994 toneladas, contra 534.108 toneladas na semana anterior. No acumulado do ano-safra, iniciado em 01/06, as inspeções somam 26,59 milhões de toneladas, contra 33,22 milhões no mesmo período do ano anterior.
Quanto ao plantio do trigo de primavera, nos EUA, a área plantada chegava a 89% em 31/05, contra 98% na média histórica.
Assim como na soja, o mercado do trigo não tem motivos concretos para se manter com cotações tão elevadas. Todavia, enquanto durar este novo arroubo especulativo, será difícil o mesmo recuar muito. Porém, tal movimento pode não encontrar sustentação por muito tempo já que a economia mundial continua em grandes dificuldades devido a crise internacional.
Na Argentina, informações oficiais deram conta de que as exportações de trigo, em abril, ficaram em 516.871 toneladas, embora agora as mesmas estejam praticamente interrompidas. Nos primeiros quatro meses do ano o Brasil foi o grande importador do produto argentino, chegando a 1,7 milhão de toneladas. Isso ajuda a explicar a dificuldade para os preços do trigo brasileiro se elevarem.
Nesse início de junho o mercado argentino continuou parado, com indicações futuras de preço entre US$ 235,00 e US$ 240,00/tonelada, continuando a previsão de um plantio, da atual safra, sobre a menor área dos últimos 20 anos (fala-se agora em uma área de apenas 3,2 milhões de hectares ou 30% abaixo da realizada no ano passado).
No mercado brasileiro, os preços do cereal permaneceram estagnados, frustrando expectativas de que junho pudesse assistir a uma recuperação dos mesmos. A média gaúcha ficou em R$ 24,18/saco no balcão, enquanto os lotes registraram os mesmos R$ 470,00/tonelada, preços que já vêm desde meados de março passado. No Paraná, os preços da tonelada até baixaram um pouco, ficando entre R$ 535,00 e R$ 540,00 nesse final de semana.
O plantio de trigo da nova safra continua bastante atrasado no Rio Grande do Sul, apesar de abundantes chuvas no final da semana passada, com o retorno das geadas durante esta primeira semana de junho. Esse novo mês iniciou com apenas 5% da área semeada, contra 22% na média dos últimos anos. Se não houver aumento no ritmo de plantio, o Estado poderá ter uma produção ainda abaixo do volume estimado, que já é menor do que o colhido em 2008. Já no Paraná, o plantio alcançava, em 25/05, um total de 69% da área esperada, sendo que 92% destas lavouras se encontravam em boas condições. Cerca de 22% das mesmas estavam em germinação e 1% em floração. Nesse estágio, as geadas que chegaram são benéficas à cultura.
O dólar ainda mais baixo acabou sendo um estímulo às importações, prejudicando uma possível recuperação de preços, tão aguardada. Mesmo assim, o mercado interno ainda espera preços melhores até agosto. Mas, para isso, será preciso vencer a concorrência externa. Por exemplo: o trigo paraguaio está sendo posto nos moinhos do Paraná a apenas R$ 500,00/tonelada.
Paralelamente, o governo realizou mais um leilão de PEP nesta quinta-feira (04/06), movimentando 150.000 toneladas de trigo gaúcho, com um prêmio em recuo para R$ 151,00/tonelada. Com isso o governo já escoou 1,39 milhão de toneladas de trigo gaúcho. Ora, tal movimento, se auxilia no imediato, evitando novas quedas de preço, aumentam os estoques oficiais e prejudicam uma recuperação futura dos mesmos preços.
Assim, nessas próximas semanas a recuperação dos preços depende do retorno das indústrias às compras, quando se espera um preço na paridade com o produto que está chegando da América do Norte, agora mais caro pela recuperação das cotações em Chicago.
A semana terminou com a importação, no CIF Sudeste brasileiro, valendo US$ 355,25/tonelada para o produto dos EUA; US$ 276,96/tonelada para o produto da Argentina; e US$ 308,29/tonelada para o produto oriundo do norte do Paraná.