No final de setembro parte da grande imprensa gaúcha divulgou que as vendas antecipadas de soja (safra 2011/12) estavam sendo aceleradas no Rio Grande do Sul devido a desvalorização do Real nos últimos dois meses. É verdade que o produtor gaúcho, e mesmo brasileiro, está vendendo mais soja antecipadamente neste ano, em relação a média histórica. Todavia, não é verdade que o motivo tenha sido a recente desvalorização do Real, embora possa o sê-lo para casos isolados.
Na prática, o produtor gaúcho sabe que os preços praticados neste ano e as indicações de preços futuros para março e abril de 2012 (girando entre R$ 40,00 e R$ 45,00/saco no balcão, e lotes muito próximos a R$ 50,00/saco em média) são muito interessantes e já vêm de tempos. Os negócios foram acelerados em relação a safra futura, pois as indefinições do mercado são sempre muito grandes e, especular no físico, esperando vender apenas na colheita geralmente não dá bons resultados.
Assim, a prática da realização de médias de comercialização da safra futura, que sempre foi praxe no Centro-Oeste (muito pela necessidade de crédito para o plantio), também ganhou mais adeptos no Sul do país. Segundo Safras & Mercado, em 10/06 (muito antes de se iniciar o atual processo de desvalorização do Real) o produtor gaúcho já havia vendido a atual safra na altura de 53%, contra 43% na média histórica. Em termos de país, a relação era de 68% para 67%. Já em 09/09 as vendas gaúchas eram de 67% do total colhido na atual safra, contra a média histórica de 69%.
As vendas antecipadas de soja (II)
No Brasil, a relação era de 81% para 86% na mesma data. O que se nota, portanto, é uma redução no ritmo de vendas da atual safra, em proporção à média, quando justamente o Real se desvaloriza. Ou seja, a expectativa de uma desvalorização ainda mais forte de nossa moeda levou os produtores a esperarem um pouco. Todavia, nem por isso as vendas antecipadas da safra futura sofreram queda. Em 12/08, quando a desvalorização do Real ainda se iniciava, os gaúchos já haviam vendido 7% de sua futura safra, contra apenas 1% na média histórica.
No Brasil, a relação era de 17% para 12%. Um mês depois (09/09) a venda antecipada dos gaúchos pulou para 14%, contra 3% na média, enquanto no Brasil a relação era de 22% para 15%. Nesse mesmo momento, os preços em reais no mercado gaúcho pouco tinham se alterado de um período a outro (a média gaúcha passou de R$ 43,50/saco em 31/08 para R$ 43,00 em 03/10), já que as cotações em Chicago, dentro do efeito de compensação, recuaram fortemente em relação a desvalorização do Real (no mesmo período o Real se desvalorizou 19% enquanto o bushel de soja em Chicago perdeu 18,9%). Ou seja, os produtores percebem, desde que baseados em seus custos de produção, que os atuais preços são bons e merecem um travamento de parte de sua safra visando a realização de uma boa média final de negócios.
Com esta prática o produtor pode deixar de ganhar, porém, não perde jamais. E caso o preço suba posteriormente, tem ainda outra parte da safra para negociar e melhorar a média. Caso recue, já aproveitou em parte os melhores momentos.