Quando escrevi em 2018 um artigo sobre a evolução da produção e venda de etanol no Brasil, baseado em um estudo meu publicado na Revista Econômica do Nordeste (REN), eu não imaginava que a produção atingiria os níveis que presenciamos hoje. Naquela época, o setor já mostrava robustez, mas o cenário atual revela uma transformação profunda na matriz energética nacional.
Hoje, fomos muito além da produção de etanol exclusivamente a partir da cana-de-açúcar. O Brasil consolidou-se como um gigante também na produção de etanol a partir do milho. Ao comparar a tabela de produção daquele artigo com o cenário atual, os números são impressionantes. Na safra 2025/2026, o Brasil alcançou uma produção recorde de 37,5 bilhões de litros de etanol. Desse total, o etanol de milho já representa cerca de 27% da produção nacional, saltando para 10,17 bilhões de litros, um crescimento vertiginoso de 29,8% em relação à safra anterior. Para a safra 2026/2027, as projeções indicam que o etanol de milho atingirá a marca de 30% do mix total de produção.
No que tange aos valores, o preço médio do etanol hidratado nas distribuidoras gira em torno de R$ 4,64 o litro (dados do início de 2026). Isso representa um aumento significativo de produção de mais de 36% e uma elevação de mais de 150% no preço médio frente ao último ano daquela pesquisa (2018). A tabela abaixo resume essa transformação:
|
Indicador |
2018 |
2025/2026 |
Variação |
|---|---|---|---|
|
Produção Total de Etanol |
27,5 bilhões de litros |
37,5 bilhões de litros* |
+36,4% |
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Participação do Etanol de Milho |
Próxima a zero |
27% (10,17 bi de litros) |
Exponencial |
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Preço Médio (Distribuidora) |
~R$ 1,80/litro |
~R$ 4,64/litro |
+157% |
Mas quando observamos esses fatores de crescimento expressivo e recordes de safra, deparamo-nos com um paradoxo alarmante. De 2018 até 2024, o setor enfrentou uma onda devastadora de insolvência. Segundo levantamento de 2024 da RPA Consultoria, 107 usinas sucroalcooleiras entraram em Recuperação Judicial ou tiveram falência decretada, o que representa 24% de todas as usinas do país. Desse montante, 79 estão em recuperação judicial e 28 faliram, resultando em 106 usinas com suas operações totalmente paralisadas.
Entre os diversos motivos apontados pelo mercado, como crises climáticas, oscilações do preço internacional do açúcar, endividamento herdado de ciclos passados e asfixia de crédito, há três áreas que demandam evolução na gestão dessas agroindústrias. A primeira é a gestão de risco estruturada. Enquanto muitas usinas já avançam nessa direção, outras ainda precisam mapear adequadamente os cenários de estresse hídrico, flutuações cambiais e gargalos logísticos. Uma visão prospectiva dos riscos estratégicos e de mercado permite que as empresas operem de forma mais preventiva, reduzindo a vulnerabilidade às intempéries econômicas e climáticas. O segundo é a auditoria contínua de processos. Muitas usinas já reconhecem que, em um setor de capital intensivo, a revisão sistemática dos procedimentos operacionais, controles internos e conformidade regulatória é essencial. Essa prática contribui para a eficiência operacional e reduz desperdícios acumulados.
O terceiro, e talvez o mais essencial, é a governança corporativa. Empresas líderes do setor já reconhecem que a governança vai além de um selo para atrair investidores ou conseguir crédito barato. Ela é o pilar central que garante transparência, sucessão profissional clara (especialmente importante em estruturas familiares) e sustentabilidade do negócio a longo prazo. Com governança robusta, a gestão de risco e a auditoria funcionam de forma integrada e efetiva. O desafio para o setor é que essa evolução seja universal. Produzir volumes recordes e surfar em altas de preço são marcos importantes, mas não são garantia de sobrevivência. As usinas que avançam em GRC estão construindo negócios mais resilientes. No agronegócio moderno, a gestão de riscos e a auditoria não são freios, são os faróis que iluminam o caminho seguro para o lucro sustentável.