A guerra à Ciência

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Antonio Carlos Moreira* e Ângelo Zanaga Trapé**

 

Pesquisadores acabam de acenar com mais uma esperança no combate ao vírus da zika. A doença atinge, só no Brasil, mais de quatro mil os recém-nascidos com malformações. O novo alento, apresentado por Qiang Chen, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, surge graças a uma substância tóxica encontrada na planta, quem diria, do temido tabaco.   

A importante descoberta é uma das inúmeras a serem reverenciadas nesta sexta-feira, 24 de novembro, quando se comemora, mundialmente, o Dia da Ciência. Pois a data é também apropriada para a comunidade científica internacional reverberar um alerta.

Cientistas e pesquisadores vêem, preocupados, ganharem força ataques infundados a áreas do conhecimento como Medicina, Química, Alimentação e Genética, responsáveis por inúmeros avanços incorporados ao cotidiano das pessoas. 

Uma das batalhas mais conhecidas nesta guerra teve início nos Estados Unidos e alcança diversos países – Brasil incluído: casais jovens, artistas e diversas celebridades alegam convicções pessoais, ideológicas ou religiosas para recusarem a vacina contra o sarampo aos filhos. Como resultado, desde 2015, a doença já se alastrou por dezessete estados norte-americanos.

No front dos alimentos, o combate à ciência considera sagrado tudo que sugira “natural” ou “orgânico”, enquanto se horripila diante dos produtos “industrializados” ou com alguma “química”.  

Dan Kahan, da Universidade de Yale, EUA, coordenou pesquisa para entender por que, muitas vezes, pessoas não aceitam um fato atestado cientificamente. Ouviu 1.540 entrevistados sobre as causas do aquecimento global; aqueles com melhor formação acadêmica atribuíram mais notas extremas, zero e dez. “Ou seja, as pessoas usam seu conhecimento para reforçar suas crenças, sem importar a palavra Ciência”, concluiu Dan Kahan.

Há aqueles que lançam mão de seu poder para, de alguma forma, jogar pedras no caminho da Ciência. Assim foi a recente decisão do presidente Donald Trump, de retirar os Estados Unidos da UNESCO, órgão da ONU criado em 1946 para promover a Ciência, a Educação e a Cultura.

No Brasil, o quadro é igualmente desalentador para a Ciência. De acordo com Herton Escobar, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, o investimento federal em ciência e tecnologia no Brasil, que já é o menor da história, deve cair ainda mais em 2018. O corte pode ser de 25%, com redução de R$ 5,9 bilhões para R$ 4,4 bilhões. “O que corresponde a menos da metade orçamento de cinco anos atrás”, compara Escobar.

 

O combate à Ciência implica um viés cruel:
tolerar a exclusão social que
atinge 6 milhões de brasileiros

Curioso que os grupos ativistas, formados em sua a maior parte por jovens mais afinados com os recursos digitais e a internet, ao que parece são os mais conservadores a inovações, por exemplo, nas áreas médica, agrícola ou alimentícia. Aliás, a internet terá uma enorme contribuição para a Ciência se pesquisadores utilizarem mais o poder das redes sociais para compartilhar seus conhecimentos.

O fato é que, nos dias de hoje, a maioria das pessoas vive mais e melhor, mesmo sob o inquietante cenário político, social e econômico, no Brasil e em diversas outras nações. Por uma única razão: os avanços extraordinários se devem muito mais a abnegados e anônimos cientistas – sim, em grande parte com investimentos em P&D de empresas, centros de referência e instituições – do que a iniciativas de quaisquer governos de plantão.

O combate sem rigor científico às inovações, potencializado por dogmas telúricos – como, por exemplo, a agricultura à antiga, dos tempos da enxada, de baixíssima produtividade – implica um viés cruel: dificulta o acesso das mais camadas pobres a bens, produtos e serviços, desde tratamentos de saúde aos alimentos industrializados. Ou seja, tolera a exclusão social e a fome, que oprimem cerca de doze milhões de brasileiros, segundo a FAO/ONU. Assim, bem-vinda toda dirupção científica, caminho-chave para o desenvolvimento sustentado das nações.

 

*ANTONIO CARLOS MOREIRA, bacharel em Comunicação Social, especializado em Economia pela FIA Business School e autor e organizador de livros sobre agricultura e alimentos, entre eles “A Ciência da Terra” (IAC, 2008).

**ANGELO ZANAGA TRAPÉ é médico e Doutor em Saúde Coletiva, pela Faculdade de Ciências Médicas, FMC, da Unicamp, SP; preside o Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde “Prof. Waldemar Ferreira de Almeida”, INPES.

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