O mercado de café está passando por uma mudança importante. Enquanto o preço do arábica na bolsa de Nova York caiu para perto de 290 a 292 centavos de dólar por libra peso, o que mais chama a atenção não é apenas o valor baixo do arábica. É o fato de que a diferença de preço entre o arábica e o robusta está diminuindo rapidamente. Essa diferença, que sempre foi grande, agora está nos menores níveis dos últimos anos.
Isso está acontecendo porque o Vietnã, maior produtor de robusta do mundo, vem entregando volumes altos e com preço mais baixo. As exportações vietnamitas de robusta cresceram forte no início do ano, e a produção do país deve ficar entre 30 e 31 milhões de sacas na safra atual. Ao mesmo tempo, o Brasil caminha para uma safra recorde em 2026/27. As últimas estimativas da StoneX apontam para 75,3 milhões de sacas, e outras consultorias como Marex e Rabobank falam em números ainda maiores, entre 75 e 76 milhões de sacas. Com tanta oferta chegando ao mercado, a pressão sobre os preços é inevitável.
Os fundos especulativos também estão influenciando esse movimento. Depois de ficarem muito comprados em 2025, muitos fundos reduziram suas posições longas nas últimas semanas, o que ajudou a acelerar a queda dos preços. Além disso, o mercado que antes estava invertido - com os preços futuros mais baixos que o preço à vista - está mudando de figura.
Com a safra brasileira maior e chegando ao mercado, espera-se que o mercado passe para o carrego, ou seja, os contratos futuros devem ficar mais altos que o preço spot. Isso é o comportamento normal em períodos de oferta abundante e ajuda a sinalizar que o excedente está sendo absorvido ao longo do tempo. O único fator que ainda pode mudar esse cenário de oferta maior é o possível retorno do La Niña no final de 2026. Se o fenômeno climático se confirmar, ele pode reduzir a produção em algumas regiões e apertar novamente o mercado. Por enquanto, porém, o quadro é de abundância controlada.
Em última análise, a compressão acentuada do diferencial arábica-robusta, aliada à transição do mercado de uma configuração invertida para o carrego, indica uma reconfiguração estrutural no mercado global. Após anos de escassez e alta volatilidade, o setor entra em um novo ciclo caracterizado por maior oferta e por um equilíbrio diferente entre produtores e compradores. Essa evolução não se trata de uma correção passageira, mas do início de uma fase em que a abundância relativa passa a moldar as condições de preço de forma mais consistente. O ano de 2026 se apresenta, portanto, como um período chave de ajuste que deve influenciar o rumo do mercado de café nos próximos anos.