Diz a cultura popular que há males que vêm para o bem. E é verdade. Mas há, também, bondades que vêm para o mal. Quem não se lembra, por exemplo, dos generosos subsídios oficiais disponibilizados aos produtores rurais nas décadas de 1960 e 1970? Esse mecanismo de apoio governamental pretendia desenvolver o campo, via incrementos na produção de alimentos e no bem estar das famílias dos agricultores, objetivando fixá-las na zona rural, evitando, assim, o êxodo campo-cidade, que já começava a intensificar-se.Mas, na prática, houve distorções nas diferentes linhas de crédito, uma vez que alguns agricultores pouco faziam para garantir uma boa colheita, pois, na eventualidade de uma frustração de safra, tinham os seus prejuízos ressarcidos através do seguro agrícola (componente do crédito concedido), com base no rendimento médio da cultura obtido na região onde residia o produtor que pleiteava o benefício. Além disso, esses produtores desviavam parte do crédito recebido para outras atividades e em suas lavouras adotavam baixas tecnologias de produção, incompatíveis com os rendimentos necessários para alavancar a renda familiar que os colocaria numa melhor posição na hierarquia social.
A prova de que os subsídios não ajudaram a agricultura brasileira, como era desejo do governo de então, está no fato de que o crescimento maior da produção agrícola brasileira ocorreu após a retirada dos subsídios, fato que obrigou o agricultor a inovar ou abandonar o campo. Alguns fizeram isso mesmo e migraram para a periferia da cidade mais próxima, onde hoje constituem um ônus para a sociedade urbana, pois são mão de obra desqualificada e, portanto, mal paga. Marginalizados e no desespero, esses pacíficos trabalhadores rurais poderiam transformar-se em violentos homens urbanos. Mas outros – estes os verdadeiros produtores rurais - cresceram, substituindo a falta dos subsídios com aumentos de produtividade, via adoção de modernas técnicas de produção. Como resultado, transformaram-se em empresários agrícolas bem sucedidos e mudaram-se para o andar de cima da pirâmide social.

