O agricultor José Batistela acompanha, curioso, as notícias sobre a crise global de alimentos. Assusta-se ao escutar no rádio, dito por importante homem do FMI, ou da ONU, não tem certeza, que a fome poderá desencadear a terceira guerra mundial. Puxa vida, encrenca séria. Reflete o velho sitiante de Araras. Homem rude, nascido na roça, mãos calejadas no guatambu da enxada, sempre gostou de uma boa polêmica. Descendente de italianos, daqueles que ergueram o colonato do café, Seu José estava confuso.
Rememora o tempo que plantava feijão, arroz e milho no seu pedaço de chão. Naquela época, há meio século, o alimento próprio fazia parte da subsistência familiar. Havia de tudo em casa. Lingüiça, banha do porco, frango caipira, polenta, ovo e leite frescos, verdura da horta, fruta do pé, café moído na hora. Fartura da terra.
As coisas, porém, mudaram. A urbanização, acelerada pelo êxodo rural, seduziu a sociedade. O valor do moderno passou a residir no pátio da indústria e no asfalto do comércio, não mais na poeira do campo. Com o tempo, o empório da cidade passou a oferecer comida barata. Depois, chegaram as gôndolas dos supermercados. Acabou o granel.
Nesse processo, os agricultores familiares aprenderam dura lição, preparando-se para enfrentar o mercado. Tarefa nada fácil. Concorrência exige qualidade, regularidade de oferta, escala e tecnologia. Jogo cruel do capitalismo.
José Batistela desistiu de cultivar cereais. Não valia mais a pena. A cada safra, perdia dinheiro. Na correria da cidade, assim lhe parecia, ninguém arranja tempo para cozinhar feijão. Mudam os hábitos alimentares, alimentos processados ganham espaço na mesa. Fast food.
Resolveu mudar de atividade. Plantou laranja. Nunca se arrependeu de trocar a subsistência pela lavoura comercial. Entrou na cooperativa, participou dos “dias de campo” dos agrônomos, buscou dinheiro do crédito rural, investiu em tecnologia. Era pequeno seu pomar, mas se tornou, orgulhoso, um empresário agrícola. Na década de 80 ganhou dinheiro na citricultura, educou os filhos.

