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Dona Noêmia e o fome-zero.


Luiz Alberto Silveira Mairesse

Dona Noêmia tinha vindo de Alegrete (RS). Conhecia-a em Santa Maria (RS), bem na época em que se discutia a implantação do programa Fome-Zero. Eu procurava alguém para me auxiliar num trabalho de pesquisa na UFSM, disposto a pagar do meu próprio bolso, devido à grande deficiência de auxiliares de serviços gerais. Ofereci meio salário mínimo por 20 horas semanais, sem carteira assinada (!) Dona Noêmia foi a primeira a aparecer, dentre mais de uma dezena naquela manhã. Isto que falei só para a faxineira do prédio...

No outro dia bem cedo dona Noêmia apareceu para começar o trabalho. Bem disposta disse-me: "Não consegui dormir a noite toda de tão faceira pela oportunidade que você me deu". E foi logo me pedindo um avental branco, para que se sentisse como uma laboratorista ou coisa assim.

Logo a eficiência e disposição de dona Noêmia saltaram aos olhos de todos. Com uma caligrafia insuperável e boa de prosa, combinando com o avental sempre branco e engomado, várias vezes era tratada como professora por alunos que não a conheciam. Ela ficava toda vaidosa, quando isto acontecia.

Abandonada pelo marido, morava só, com um filho temporão de 12 anos com sérios problemas de saúde, numa vila próxima à UFSM. Vivia com extrema dificuldade. Por várias vezes me pediu adiantamentos para evitar o corte de luz, coisa de 20 ou 30 reais. Mas aos poucos as coisas iam melhorando. Já garantia a outra metade do salário, trabalhando para professores e alunos da pós-graduação. Às vezes levava seu menino para o trabalho. Ele ficava admirado com as práticas de laboratório. Um dia ele decretou: "não vou mais tirar notas baixas no colégio, eu vou ser um cientista".

Meu trabalho de pesquisa estava finalizando e preocupava-me em ter que dizer para dona Noêmia que ela seria dispensada brevemente. Não foi preciso. A partir de uma ajuda emergencial que ela deu no primeiro dia de um seminário de agronomia, ofereceram-lhe a possibilidade de trabalhar toda a semana no evento. E não parou mais. Ela já tomava conta de pequenos eventos, fornecendo os doces, salgadinhos, café, chá e outros, até mesmo ajudando na distribuição de material, inscrições...

Um dia dona Noêmia chegou e me disse: "vou montar uma firma para atender eventos, para poder extrair notas fiscais". Estava para atender a um congresso latinoamericano (!), onde, segundo ela, daria o seu salto definitivo. Contratou então várias ajudantes para fazer os salgadinhos e doces. Disse-me ela, na véspera do início do congresso, que quase não havia mais espaço na casa dela para tanta coisa de comer.

Pela manhã bem cedo, como combinado, alguns estudantes que tinham se prontificado a ajudar no transporte do material, foram até sua casa. Chamaram, bateram na porta da frente, e nada. Estranharam quando ouviram um chuveiro ligado. Entraram no pátio e junto à janela do banheiro gritaram por ela. E nada. Chamaram os vizinhos e em comum acordo arrombaram a porta. E lá estava dona Noêmia: debaixo do chuveiro, morta! De tão faceira pela nova perspectiva, que seu coração não resistiu...

No caixão, lá estava ela, bem maquiada, serena, linda até. Parecia estar sorrindo, envaidecida com tanta gente importante chegando e depositando coroas e flores. Morreu dignamente, dando exemplo para todos, de que só o trabalho abre o caminho para a cidadania e a liberdade; e que a esmola escraviza cada vez mais. Se este não foi aparentemente um final feliz, a história pode ainda não ter findado. Por linhas tortas, quem sabe daqui um tempo não nos deparemos com o menino da dona Noêmia? Um cientista, como ele decretou um dia? Se ao invés de trabalho ela conseguisse o Fome-Zero, quase certamente estaria viva até hoje. Mas que exemplo teria dado para o filho e para todos nós? Por alguns trocados estaria fazendo parte dessa legião dos que não acreditam em conquistas e seu guri não teria plantado dentro de si a semente de um ideal, que não se sabe nem mesmo se vingará. Acredito que sim, já que esse moleque é semente da própria dona Noêmia...
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