Por ocasião do 20º Fórum Nacional da Soja, realizado neste último dia 17/03 em Não-Me-Toque (RS), dentro da programação da Expodireto, um tema pertinente abordado foi “as perspectivas macroeconômicas num cenário de crise global”. O mesmo foi apresentado pelo Prof. Dr. Guilherme Dias, da USP, e ex-secretário geral do governo federal em 1993.
A síntese do que se debateu na ocasião apresento abaixo, por ser reveladora em relação ao momento econômico que estamos vivendo. Em primeiro lugar, o cenário macroeconômico é de completa incerteza. A gênese do problema foi a posição dos EUA em consumir acima do que era possível, gerando uma crise de endividamento. Hoje, se desconfia do sistema bancário, na medida em que os bancos demonstraram não possuir fôlego para fornecer o volume de crédito que deram.
Nesse contexto, a solução passa pelo restabelecimento da confiança no sistema financeiro mundial, o que não parece ser simples. Assim, mesmo que a economia dos EUA se recupere, restará um desequilíbrio externo muito elevado.
Isso poderia ser resolvido somente com maior demanda mundial pelos produtos dos EUA. Ora, tal movimento somente ocorre caso haja acordo político cooperativo entre os países. Essa é a “chave do problema”!
Devido ao tamanho da crise, a mesma deverá durar os próximos dois anos, pelo menos, adentrando o ano de 2010. Projeta-se, inclusive, um recuo de até 8% no PIB estadunidense no período. Desta forma, temos um longo tempo de ajuste pela frente, com o risco de, em havendo um desentendimento entre os principais países, ocorrer enormes oscilações no mercado, a começar pelas taxas cambiais.
Assim, quanto mais existir resistências dos países em negociar cooperativamente a crise pior a situação ficará e mais tempo levaremos para dela sair.
Por outro lado, a economia continua a se deteriorar junto aos países emergentes, devido ao crédito limitado e à crise de confiança no setor bancário. Diante disso, o governo busca soluções pontuais.
No que se refere ao câmbio no Brasil, embora se tente mantê-lo ao redor de R$ 2,20 por dólar, tal estratégia está cada vez mais difícil de ser sustentada, podendo a nossa taxa cambial subir para níveis ao redor de R$ 2,60 num futuro próximo. Isso favoreceria aos preços agrícolas.
A posição do governo brasileiro em reduzir os juros básicos contribui para essa tendência. Tal realidade seria uma solução para o setor exportador. Como o governo não possui recursos para financiar as exportações, estaria buscando remunerar o setor pela desvalorização maior do câmbio, embora o risco inflacionário.
Paralelamente, a inadimplência volta a ser preocupante, chegando a 15% no seu total, limitando a capacidade de produzir. Ao mesmo tempo, o capital de giro da economia em geral e do produtor rural em específico fica comprometido. Nesse último caso, pela redução na relação de troca e menor produtividade na safra 2008/09.
Ou seja, a redução no preço dos insumos foi pequena demais, não sendo suficiente para solucionar o problema. Em outras palavras, não estamos com uma recuperação de capital de giro suficiente para enfrentar o período crítico de 2009 e 2010.
Assim, vamos precisar de crédito num ano em que os bancos decidem não dar crédito. E reconstituir o crédito nesta crise será difícil. O setor privado não deverá responder nos próximos dois anos.
Assim, tudo depende da capacidade oficial em gerar uma política anticíclica, onde a realização de déficit de forma responsável seria um caminho. Quanto mais o governo gastar em despesas diretas, menos margem de manobra terá para tal política, engessando o país.