Como a crise econômico-financeira está longe de terminar, ainda falaremos, escreveremos e sentiremos muito os efeitos da mesma nos próximos meses e mesmo anos. Visando, como sempre, colaborar na compreensão desta crise trago aqui um novo ponto de vista a respeito, o qual vem complementar e acrescentar ao que já se sabe, completando aos poucos o quebra-cabeças a respeito de sua formação e desenvolvimento.
Se num primeiro momento, lá pelos idos de 2000/01, foi um excesso de intervenção do Estado (no caso o governo dos EUA) na economia que acabou gerando o embrião da atual crise (o mea culpa do ex-presidente do FED estadunidense, Alain Greenspan, é lapidar nesse sentido), num segundo momento o excesso de desregulamentação do mercado foi o estopim final para a crise eclodir (2007/08), quando o setor financeiro abusou da liberdade de mercado, especulou demais, e levou todos à crise que grassa no mundo hoje.
A partir de então, o mundo se deu conta, embora já houvesse sido evidenciado por práticas anteriores, de que a economia internacional, para melhor funcionar, precisaria de um pouco de cada coisa: Estado e mercado. Nesse caso, desde que o Estado seja eficiente e organizado, voltado a suprir as necessidades sociais que o mercado não oferece, e desde que o mercado tenha um mínimo de regulamentação. Foi-se o tempo do Estado planificado e foi-se o tempo do Estado mínimo.
Nova etapa da crise (II)
É chegada a hora do Estado organizador, algo que já se discute há mais de uma década, pelo qual o mesmo gera as condições para o mercado funcionar, se ocupando dos aspectos sociais que, pela natureza do mercado, não serão devidamente supridas, como a saúde, a educação, a segurança, a habitação e assim por diante.
Nesse contexto, e nesse momento da crise, tal realidade salta aos olhos quando o mundo se encontra dividido a respeito das receitas para sair de tamanha crise. Há poucos meses, detectada que a terceira fase da crise era o déficit público, a prioridade passou a ser a austeridade orçamentária e o corte das despesas públicas as quais, infelizmente, em parte acabam atingindo os benefícios sociais criados para a população.
Portanto, a dívida pública precisa ser resolvida e controlada na sequência. O problema é que tal austeridade estaria indo longe demais (observe-se o caso da Grécia), fato que freia a economia e lança o mundo no caminho da recessão. Ou seja, o remédio, mesmo que necessário, em dose exagerada tende a gerar um efeito colateral que pode ser pior do que a doença (no caso a dívida pública).
Alguns países, como o Brasil, que ainda possuem a arma da redução do juro, passaram a trilhar este caminho, visando equilibrar o ajuste público, mesmo que precário, com um mínimo de crescimento econômico que não atinja tanto à sociedade. O risco passa a ser a perda de controle da inflação. Mas pode ser um risco calculado e, portanto, administrável.
Nova etapa da crise (III)
Já os países desenvolvidos, que praticam juros próximos de zero, não possuem mais a arma monetária como instrumento. Assim, partem para o uso da arma fiscal, associada a um ajuste na despesa pública.
E, nesse ponto, os EUA têm vantagens sobre os europeus, por exemplo. Mesmo a crise estando fortemente presente nos EUA, o dólar continua sendo procurado, fato que permite o governo local inundar o mercado de dólares e vender seus títulos públicos, rolando sua dívida interna, graças a valorização das outras moedas (salvo a China, que optou por desvalorizar a sua moeda na linha do que ocorre com o dólar, causando o mais recente atrito entre as duas maiores economias do mundo neste início de outubro).
Na Europa, exceção feita à Alemanha, os demais países não podem adotar esse caminho keynesiano, pois o peso da dívida torna o empréstimo muito oneroso e, assim, o investimento público impossível de ser realizado por ser muito caro. O grande desafio mundial atual, portanto, diante de tal situação, parece ser gerar uma estratégia de redução da dívida no longo prazo, que deixe margens de retomada no curto prazo. Quem tem a melhor ideia para isso se realizar? Por enquanto, ninguém apareceu e o impasse global continua.