O vírus da raiva continua prejudicando os plantéis nacionais. No momento em que o Brasil ocupa posição de destaque internacional na pecuária, mais do que nunca a sanidade animal é fundamental para que não haja perdas econômicas entre os criadores. Apesar de fatal nos casos de infecção, esta doença pode ser facilmente evitada. A prevenção da raiva em herbívoros é fundamental tanto para que seja mantida a produtividade dos rebanhos como pelo fato de ser uma zoonose, isto é, uma doença transmissível ao homem.
Os bovinos com raiva normalmente ficam inquietos e mudam de hábitos: afastam-se do rebanho, procuram esconder-se e mantêm-se imóveis ou deitados no mesmo local. Quando estimulados, apresentam dificuldade em se deslocar, devido à paralisia dos membros posteriores. O andar cambaleante agrava-se à medida que a doença evolui. Em alguns casos observam-se movimentos de pedalagem, tremores musculares, diminuição dos movimentos do rúmen e mugidos freqüentes e roucos. Os animais podem apresentar salivação intensa e parecem estar engasgados devido à paralisia da mandíbula e dificuldade de deglutição; procuram defecar e só o conseguem com muita dificuldade; as fezes apresentam-se secas, escuras, cobertas de muco e sangue. Ocasionalmente podem ficar agressivos e na fase final, o animal permanece deitado e não consegue mais se levantar. Os bovinos geralmente morrem entre quatro e seis dias após o início dos sintomas.
O Instituto Pasteur de S. Paulo recomenda que, em casos de suspeita de Raiva dos herbívoros, o produtor evite os seguintes manejos: colocar a mão na garganta de animais aparentemente engasgados por um objeto estranho; intervir em animais com dificuldade de evacuação; movimentar, sem os devidos cuidados, animais com paralisia dos membros posteriores; ordenhar ou manipular órgãos de animais suspeitos.
Sempre que houver suspeita de raiva em uma fazenda, um médico-veterinário deve ser chamado para dar as orientações específicas, coletar o material necessário aos exames de laboratório e fazer o diagnóstico diferencial em relação às outras doenças do sistema nervoso que podem se confundir com a raiva.
Bovinos podem contrair raiva por mordedura de cães infetados. No entanto, no Brasil, a raiva dos herbívoros é normalmente transmitida pela mordedura de morcegos hematófagos, isto é, morcegos que se alimentam de sangue, também conhecidos como vampiros. Só este ano a Casa de Agricultura de Itapira, S.Paulo, já perdeu 10 animais vítimas de raiva pela mordedura de morcegos hematófagos.
Além dos vampiros, existem muitas outras espécies de morcegos que se alimentam de frutas, pólen e insetos. Qualquer tipo de morcego pode ter o vírus da raiva. Por isso, é importante não mexer em nenhum morcego, sobretudo se ele apresentar um comportamento fora do habitual.
O controle dos morcegos hematófagos deve ser feito por equipes especializadas. Estas equipes procedem à captura dos morcegos hematófagos utilizando redes especiais que são armadas em torno dos currais ou na entrada dos abrigos em que eles ficam durante o dia. Os morcegos hematófagos, ao saírem à noite em busca de alimento, vão de encontro a estas redes, onde ficam presos. No dorso dos morcegos capturados é colocada uma pasta com anticoagulante. Os morcegos liberados voltam então aos seus abrigos onde, ao se lamberem mutuamente, distribuem o anticoagulante pela colônia. Os morcegos que lambem o anticoagulante morrem de hemorragia generalizada. Desta forma é possível reduzir as populações de morcegos hematófagos, sem prejudicar os morcegos insetívoros, úteis ao homem, que porventura vivam no interior dos abrigos.
O simples controle dos morcegos hematófagos não resolve o problema da raiva dos herbívoros. É necessário ainda vacinar periodicamente os animais domésticos nas áreas de ocorrência de raiva. Nos bovinos a vacina é aplicada a partir dos três meses de idade; animais que nunca foram vacinados devem receber duas doses com um mês de intervalo; animais já vacinados devem ser revacinados anualmente.
O Ministério de Agricultura padronizou o tipo e o volume da dose de vacina anti-rábica destinada aos herbívoros: vacinas inativadas na dose de 2 mL são as únicas que podem ser aplicadas em bovinos, no Brasil; além disso, todos os frascos de vacina anti-rábica para herbívoros liberados desde 16 de fevereiro de 2003 só podem ser comercializados com a autenticação do respectivo selo holográfico.
A participação dos produtores é indispensável na vacinação dos seus rebanhos, na comunicação de todos os casos suspeitos de raiva e na localização dos abrigos de morcegos hematófagos. Só um trabalho em conjunto dos serviços oficiais com os produtores garante o sucesso do controle da raiva dos herbívoros em uma região.
José Carlos Morgado - Em 1973, graduou-se em Medicina-Veterinária pela Universidade de Lourenço Marques, Moçambique, Portugal. De 1975 a 1988, exerceu suas atividades no laboratório de produção de vacinas contra a febre aftosa da Rhodia-Mérieux, sendo responsável pela produção, controle e desenvolvimento de vacinas anti-aftosa. Em 1989, assumiu a gerência de vacinas, sendo responsável pelo desenvolvimento e lançamento da linha de vacinas Rhodia-Mérieux para Grandes Animais. A partir de 1998, com a fusão da Rhodia-Mérieux com a Merck Sharp e Dohme assumiu a gerência técnica de vacinas para Grandes Animais da Merial Saúde Animal. É também representante técnico da Merial na Comissão de Aftosa do Sindan - Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde