Há 10 mil anos atrás, quando o homem inventou a agricultura, nascia o melhoramento genético, surgindo as plantas geneticamente melhoradas ou modificadas. Ao selecionar as melhores plantas e as melhores sementes para plantio, os seres humanos estavam criando as suas cultivares. Mesmo que fosse de maneira empírica e, por isto, lentamente, houve muitos avanços, de tal forma que a disponibilidade de alimentos fez com que a população humana avançasse de algumas dezenas de milhões do início da revolução da agricultura para 850 milhões na revolução industrial.
Como aconteceu em todas as áreas do conhecimento humano, também na agricultura surgiram produtores rurais mais eficientes, que se dedicavam à produção de sementes, acumulando conhecimentos "de pai-para-filho", para fornecer sementes selecionadas para os demais produtores rurais, dedicados à produção de grãos para consumo. Era a sociedade humana se organizando cada vez mais.
Com o advento da ciência experimental, o melhoramento genético empírico, esgotado em seu potencial, passou a um novo patamar, surgindo as variedades e os híbridos do século 20, obtidos de cruzamentos artificiais, em estações experimentais, sob orientação de profissionais especializados. Os cultivares passaram a ser criados e multiplicados nas primeiras fases (sementes genéticas e básicas) por instituições de pesquisa e entregues aos produtores de sementes para multiplicação posterior (sementes certificadas), o que tem acontecido até hoje. Observe-se que há séculos os produtores de grãos têm recorrido aos produtores de sementes como recurso para obterem lavouras com melhor potencial de rendimento, não só pelas variedades melhoradas, como também pelo uso de sementes puras, com melhor vigor e poder germinativo mais alto, devidos aos cuidados e técnicas específicas na produção de sementes, além dos equipamentos cada vez mais sofisticados que estão sendo utilizados. A agricultura definitivamente seguiu o mesmo rumo das demais atividades humanas com a abertura cada vez maior de ramos de especialização. Não poderia ser diferente
Entretanto, nos últimos anos tem surgido e se expandido uma idéia que pode causar sérios problemas principalmente para os pequenos produtores: o uso de sementes próprias. Algumas organizações, pretensamente defensoras dos interesses da agricultura familiar, alegando estarem defendendo os produtores da exploração das empresas, conseguiram até mesmo institucionalizar em alguns casos o uso da semente própria, como uma forma de aumentar o lucro desses agricultores. Como um presente à agricultura familiar.
Ledo engano! Sem conhecimentos suficientes e sem equipamentos necessários, os agricultores acabam plantando sementes de baixa qualidade, contaminadas com inços, misturadas, desuniformes e com vigor e poder germinativo comprometidos, pelo controle inadequado de pragas e pela secagem e armazenamento impróprios. O resultado são lavouras inçadas, falhadas, infectadas e com baixo potencial de rendimento. Quando sementes apresentam um poder germinativo abaixo de determinados limites a correção com o aumento da quantidade semeada não apresenta os resultados esperados. As sementes que não germinam, pela maior proximidade entre si, afetam as sementes sãs com o ataque de fungos e bactérias, causando imensos prejuízos. Cabe ressaltar também que um lote com baixo poder germinativo apresenta geralmente uma alta percentagem de sementes de baixo vigor, isto é, que germinam, mas por serem muito fracas não conseguem vencer a resistência que o ambiente lhes oferece.
Assim, para sementes transgênicas ou não, com raras exceções, vantagem nenhuma há na produção própria. Pelo contrário: este é um presente grego que se têm oferecido aos agricultores e que lhes tem causado muitos prejuízos, ajudando a levá-los à ruína.