Leite: preço evolui pouco
Têm sido constantes as reclamações dos produtores de leite brasileiros quanto aos preços recebidos pelo produto. Particularmente agora em que o preço do leite longa vida, nos supermercados, ultrapassou a R$ 2,00 para o consumidor.
Na verdade, o mercado do leite funciona num contexto diferente. Por ser oligopolizado, onde poucas empresas dominam o setor (no Rio Grande do Sul três empresas praticamente detêm o controle de 70% da recepção e industrialização), a formação do preço ao produtor ocorre especialmente por negociação entre representantes dos produtores e indústrias.
No mercado gaúcho, por exemplo, o preço do litro de leite pago ao produtor rural pouco evoluiu nestes últimos três anos. No momento, a média estadual está em R$ 0,56/litro. No ano passado, nesta mesma época, a média era de R$ 0,65/litro e em 2007 a mesma chegou a R$ 0,49/litro.
Ou seja, os preços médios praticamente estagnaram nos últimos três anos, enquanto os custos de produção continuaram a subir e de forma importante. Todavia, em relação ao índice oficial de inflação (IPCA), numa análise ponto a ponto, verificamos que o preço do leite ao produtor o acompanhou já que a inflação no período destes três anos (maio/07 a abril/09) foi de 10,54% e o preço evoluiu 14,3%, embora tenha recuado 13,8% no último ano (maio/08 a maio/09).
É bom lembrar que os custos de produção agropecuários sempre evoluem bem mais, em média, do que o índice oficial da inflação. Entretanto, apesar desta situação instável, o leite continua sendo uma atividade importante para as economias interioranas brasileiras, especialmente porque continuamos ainda deficitários em relação a nossa demanda potencial.
Leite: produção nacional ainda é baixa
A produção brasileira de leite deverá atingir a 30,3 milhões de toneladas neste ano de 2009. Desse total, o Rio Grande do Sul tem uma participação que varia entre 10% e 12%. Nos últimos sete anos a produção brasileira cresceu 32,7%.
Entretanto, ainda estamos longe dos grandes produtores mundiais do produto. A União Europeia (27 países), cuja área física se assemelha ao Brasil, deverá produzir 134,4 milhões de toneladas de leite fluido em 2009. Os EUA projetam 86,8 milhões de toneladas, a Índia espera alcançar 45,1 milhões, a China 38,6 milhões e a Rússia 32,8 milhões de toneladas.
Ou seja, ainda temos um espaço enorme para a produção de leite, desde que o nível de renda do consumidor brasileiro continue melhorando. Tanto é verdade que continuamos importando volumes importantes de derivados de leite.
No caso do leite em pó, por exemplo, no primeiro trimestre de 2009 o Brasil importou 21.519 toneladas desse produto somente da Argentina, e outras 5.475 toneladas do Uruguai. O crescimento das compras externas desse produto, no somatório dos dois países, em relação ao primeiro trimestre de 2008, foi de 448,3%. Em termos globais, as importações brasileiras cresceram 55,8% em valor e 115,7% em volume, no mesmo período.
Ou seja, não há dúvida que a presença de nossos vizinhos, no contexto das facilidades do Mercosul, freia parcialmente a melhoria de preços ao produtor de leite brasileiro.
Leite: exportações nacionais recuam
Apesar de não sermos autossuficientes na produção de leite e de importarmos seus derivados, não deixamos de exportar produtos lácteos. Aliás, muitas empresas com projetos de instalação ou já instaladas no Brasil, e particularmente no Rio Grande do Sul, possuem como objetivo principal a exportação de sua produção.
Tal estratégia somente não se concretiza integralmente em função de um câmbio que, nos últimos anos, não tem sido favorável ao exportador brasileiro.
Para se ter uma ideia da presença do segmento exportador, o Brasil exportou, no primeiro trimestre de 2009, um total de US$ 61,5 milhões de leite e derivados. No ano passado, no mesmo período, o valor exportado chegou a US$ 97,5 milhões.
Ou seja, mesmo com a melhoria cambial em 2009, as exportações de lácteos recuaram 37% em valor entre os períodos considerados.
Isso se deve a um recuo de 17% no volume exportado e, particularmente, a uma redução nos preços mundiais do produto, a partir da crise econômico-financeira mundial que se instalou com força a contar de setembro de 2008.
PIB Brasileiro: mais um recuo oficial
O governo brasileiro, aos poucos, se rende às evidências já sabidas desde setembro do ano passado. O Produto Interno Bruto brasileiro terá um resultado pífio em 2009, devido à crise mundial.
Agora, o governo espera um crescimento de apenas 1% nesse ano (a expectativa anterior era de 2%), contra 5,1% ocorrido em 2008. Ou seja, está no centro do parâmetro que prevíamos ainda no ano passado, que é de 0% a 2% na melhor das hipóteses.
Lembramos que analistas privados e empresários consultados pelo Banco Central continuam apontando para um PIB negativo, próximo a 0,5%, para o Brasil nesse ano de 2009.
Ou seja, a crise tem e continuará tendo reflexos negativos importantes na economia nacional, exigindo muito cuidado de todos em relação ao controle das finanças.