Por Silmar César Müller*
A safra de grãos já está comprometida pelo aumento dos custos de produção, pela queda dos preços das commodities agrícolas e pela falta de crédito na hora do plantio - um primeiro reflexo da crise financeira global. Isso deve afetar a renda e a capacidade de investimento dos agricultores. Tanto que poderá comprometer até a safra seguinte, de 2009/2010.
Não que vá faltar comida na mesa. Diferentemente da maioria dos países, o Brasil é auto-suficiente em quase todos os alimentos básicos. Produz arroz, feijão, milho, soja, carnes, leite, batata, mandioca, café, açúcar, frutas etc., de forma a poder atender a toda a sua população e ainda exportar o excedente. Mas a abundância não é eterna. Produzir comida é uma atividade rotativa, muito difícil e de alto risco. Vários fatores podem comprometer a produção: o clima, os preços, os custos, o crédito, as barreiras protecionistas de países ricos etc. No Brasil, há, ainda, fatores extras como a precária infra-estrutura de escoamento da produção, os altos tributos e a inconsistência de políticas governamentais de incentivo ao setor.
Não deixa de ser surpreendente. Produzir comida é sempre o melhor investimento. No caso do Brasil, é o melhor antídoto contra a crise, já que o setor gera emprego e renda e ajuda a movimentar toda a economia. Sozinho, o agronegócio é responsável por quase 30% de todos os bens e serviços que o país produz e por quase 40% de tudo que exporta. E, apesar da crise global, 2009 será favorável aos produtores de alimentos. A demanda global não vai cair - pelo menos, não tanto quanto as de outros bens e serviços. Ao contrário: no mundo todo, estima-se que quase 80 milhões de pessoas entrarão na cadeia de consumo em 2009. No Brasil, serão quase 2,5 milhões de novas bocas para se alimentar.
Mas a produção pode cair, sim - e em vários países. A experiência demonstra que crises econômicas costumam derrubar rapidamente a produção de alimentos. Ou seja: temos aí uma oportunidade para consolidar o Brasil na posição de grande provedor global de alimentos. Com ou sem crises.
A relação de trocas na agricultura tem sido amplamente desfavorável aos produtores brasileiros na safra atual, devido ao descasamento entre preços e custos. Mas essa relação vai começar a se reverter de forma positiva em 2009. Os preços internacionais das commodities agrícolas caíram bastante, é verdade. Mas os preços dos combustíveis e fertilizantes devem cair ainda mais, provocando uma redução nos custos de produção das lavouras. Além disso, os preços internos dos produtos agrícolas de exportação tendem a ser favorecidos pela nova taxa cambial, mais realista - que resultará em preços mais em conta (em reais) para os produtores rurais. Não se deve descartar, ainda, uma eventual recuperação dos preços das commodities agrícolas a partir do próximo ano em razão de um possível choque de oferta. Até porque alguns produtos continuam com estoques apertados, como é o caso da soja.
As chances de retomar o potencial de rentabilidade do agronegócio brasileiro na safra 2009/2010 são realistas e tendem a se refletir na remuneração dos agricultores. Mas é preciso garantir que o produtor sobreviva até lá, assegurando a ele renda já na safra atual (2008/2009). O governo demorou para agir na questão do crédito para o plantio da safra atual, que já está comprometida. Mas ainda há tempo de corrigir isso. Como o mercado não tem condições de garantir soluções imediatas, é papel do governo utilizar sua política (já existente) de preços mínimos - capazes de proporcionar aos produtores renda suficiente para, pelo menos, cobrir seus atuais (e altíssimos) custos da lavoura. Se as autoridades ainda não entenderam isso como uma oportunidade de investimento, que pelo menos entendam como uma questão de segurança alimentar - o mínimo a fazer em tempos de crise aguda como esta. Os novos consumidores brasileiros de 2009 e do mundo todo saberão agradecer devidamente pela garantia de comida na mesa até 2010.
* Silmar César Müller é jornalista, sócio-diretor da consultoria especializada Agrinvestor
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Por Silmar César Müller
12/08/2009 08h36 · Fonte: Revista Amanhã


