Por * Melinda Kimble e Dulce Benke
Melinda Kimble: Práticas de agricultura sustentável e melhorias no manejo do solo podem impulsionar a produtividade e as rendas rurais, conservar água, economizar energia e reduzir a poluição
Atualmente, 2,5 bilhões de pessoas são totalmente dependentes da agricultura, não somente como forma de sustento, mas também para a sobrevivência. Um bilhão de pessoas ainda vive em situação de fome crônica. A cada seis segundos, uma criança morre de fome. Uma combinação de crescimento populacional, que deve atingir 9,2 bilhões em 2050, representando um aumento de 34% nos próximos 41 anos, com mudanças alimentares, especialmente na Ásia, proporcionará crescentes demandas na agricultura.
A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU (FAO) prevê que será necessário um aumento de 70% na produção de grãos para acomodar a demanda estimada. O quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevê um declínio na produção agrícola mundial, caso seja confirmada a tendência de mudança climática em três das cinco situações previstas no decorrer dos próximos 50 anos. A discrepância de direção dessas duas tendências isoladas já causa preocupação. O relatório Stern também ressalta o que aconteceria mundialmente com sucessivas elevações de temperatura, representando um declínio entre 15% e 35% na produção agrícola africana e fazendo com que regiões inteiras sofram com a falta de chuva.
A magnitude das alterações térmicas projetadas atualmente, mesmo em situações relativamente otimistas, não tem precedentes. Agricultores provavelmente enfrentarão problemas que nunca vivenciaram antes: temperaturas médias mais elevadas, novas pragas e produtividade reduzida. A perspectiva de convergência dos impactos negativos criará vários desafios para o setor agrícola mundial.
A agricultura é, isoladamente, responsável por 14% das emissões de gases do efeito estufa. Se incluirmos florestas, o número fica um pouco acima de 30% das emissões globais. Porém, a agricultura também pode fazer parte da solução.
Práticas de agricultura sustentável e melhorias no manejo do solo podem impulsionar a produtividade e as rendas rurais, aprimorar a saúde do solo, conservar água, economizar energia, reduzir a poluição e estimular o desenvolvimento econômico por meio da criação de empregos, da redução da pobreza e da segurança alimentar. A utilização mais eficiente de fertilizantes e o manejo da pecuária também são opções promissoras para aumentar a redução de emissões. Tais práticas também podem reduzir expressivamente o desmatamento e a degradação, proporcionando ganhos em produtividade e eficiência.
A implantação de medidas de adaptação, como o aumento da agrodiversidade, a utilização de novas variedades e a identificação de culturas locais e regionais mais eficientes, aumenta a resiliência dos sistemas agrícolas aos impactos da alteração climática. Além disso, a utilização eficiente de culturas como a cana-de-açúcar (no caso do Brasil) pode aprimorar a eficiência e a produtividade no setor como um todo, assim como a utilização dos resíduos agrícolas provenientes da colheita ou do processamento.
De acordo com a FAO, 70% desse potencial de mitigação estão em países em desenvolvimento. Agricultura e florestas são os únicos setores que podem realmente remover o dióxido de carbono da atmosfera. O sequestro de carbono no solo representa aproximadamente 90% do potencial técnico de mitigação da agricultura e está entre as opções promissoras que visam reduções significativas de emissões até 2020, contribuindo com o objetivo de longo prazo de caminhar para uma economia de baixo carbono.
Como progredir
Os investimentos em agricultura não responderam às necessidades para tornar as culturas mais eficientes e/ou melhorar o manejo do solo. O investimento atual também não é suficiente para atender aos novos desafios apresentados pela mudança climática. Para alcançar todo o potencial de redução das emissões terrestres e ampliar as medidas de adaptação para atender as mudanças climáticas, serão necessários investimentos e novos mecanismos de financiamento.
A magnitude do investimento necessário para compensar os impactos negativos, visando alcançar maior produtividade, é expressiva. O International Food Policy Research Institute (IFPRI) estima que o mundo precise de US$ 7 bilhões adicionais em investimento anual para suprir a necessidade atual. A FAO estimou recentemente que o setor agrícola nos países em desenvolvimento precisará de um investimento bruto anual de, aproximadamente, US$ 210 bilhões para alimentar o mundo até 2050.
O McKinsey Global Institute estimou que 50% das 17,4 gigatoneladas de reduções de emissões até 2020 devem ser provenientes de agricultura e florestas. Se alcançado, tal objetivo proporciona enormes oportunidades para os setores agrícola e florestal. Um preço para o carbono também pode proporcionar incentivos expressivos para alavancar investimentos agrícolas.
As negociações pré-Copenhague sobre REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) são os primeiros passos rumo ao desenvolvimento de um mecanismo de financiamento voltado para a diminuição do desmatamento. Graças a várias decisões em COPs, o setor florestal foi o foco inicial – partindo de conservação florestal até reflorestamento e manejo sustentável de florestas. Legislações ainda em negociação nos Estados Unidos podem guiar o mercado de carbono florestal internacionalmente, considerando a parcela fixa para créditos de carbono oriundos de florestas tropicais, previsto pela legislação local americana de comércio de emissões. Se o sistema de comércio de emissões nos Estados Unidos for efetivado, oferecerá uma grande oportunidade para países em desenvolvimento com grandes áreas de matas nativas, já que eles podem fornecer até 50% desses créditos de carbono. Contudo, duas coisas são necessárias: 1) preço do carbono com crescimento constante ao longo do tempo, e 2) um mecanismo para mobilizar a atuação do setor privado nos mercados de carbono, por meio da compra de compensações de investimentos diretos.
Uma reestruturação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) também pode ser importante para transferir inovação e capital. Quanto mais ambiciosas forem as metas de redução no mundo desenvolvido, maior o potencial de geração de créditos de carbono programáticos no MDL reformulado. Para ilustrar, somente em 2008, o MDL forneceu um capital de US$ 8 bilhões para países em desenvolvimento pela venda da Redução Certificada de Emissões (CERs).
A FAO argumentou que a agricultura deve ser tratada separadamente e defendeu o estabelecimento de um programa de trabalho em agricultura, dentro do processo da Convenção do Clima, para resolver assuntos técnicos e metodológicos. Uma ampla discussão sobre como incluir, no longo prazo, agricultura, agro-floresta e conservação florestal, assim como suas interações com mudanças no uso da terra, é esperada na COP 15. No entanto, é improvável que este processo seja concluído neste momento. Para o futuro, fica evidente que precisamos aprimorar as bases de informações globais a fim de promover melhores decisões e planejamentos estratégicos, e desenvolver políticas de incentivos que estimulem novos investimentos e iniciativas, visando preservar o planeta para gerações futuras.
*UN Foundation – Iniciativa Internacional de Bioenergia e Sustentabilidade (IBSI).
Artigo publicado no Relatório do Seminário Agricultura, Mudanças Climáticas e Comércio, do Ícone (Instituto de Comércio e Negociações Internacionais).
Melinda Kimble: Práticas de agricultura sustentável e melhorias no manejo do solo podem impulsionar a produtividade e as rendas rurais, conservar água, economizar energia e reduzir a poluição
Atualmente, 2,5 bilhões de pessoas são totalmente dependentes da agricultura, não somente como forma de sustento, mas também para a sobrevivência. Um bilhão de pessoas ainda vive em situação de fome crônica. A cada seis segundos, uma criança morre de fome. Uma combinação de crescimento populacional, que deve atingir 9,2 bilhões em 2050, representando um aumento de 34% nos próximos 41 anos, com mudanças alimentares, especialmente na Ásia, proporcionará crescentes demandas na agricultura. A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU (FAO) prevê que será necessário um aumento de 70% na produção de grãos para acomodar a demanda estimada. O quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevê um declínio na produção agrícola mundial, caso seja confirmada a tendência de mudança climática em três das cinco situações previstas no decorrer dos próximos 50 anos. A discrepância de direção dessas duas tendências isoladas já causa preocupação. O relatório Stern também ressalta o que aconteceria mundialmente com sucessivas elevações de temperatura, representando um declínio entre 15% e 35% na produção agrícola africana e fazendo com que regiões inteiras sofram com a falta de chuva.
A magnitude das alterações térmicas projetadas atualmente, mesmo em situações relativamente otimistas, não tem precedentes. Agricultores provavelmente enfrentarão problemas que nunca vivenciaram antes: temperaturas médias mais elevadas, novas pragas e produtividade reduzida. A perspectiva de convergência dos impactos negativos criará vários desafios para o setor agrícola mundial.
A agricultura é, isoladamente, responsável por 14% das emissões de gases do efeito estufa. Se incluirmos florestas, o número fica um pouco acima de 30% das emissões globais. Porém, a agricultura também pode fazer parte da solução.
Práticas de agricultura sustentável e melhorias no manejo do solo podem impulsionar a produtividade e as rendas rurais, aprimorar a saúde do solo, conservar água, economizar energia, reduzir a poluição e estimular o desenvolvimento econômico por meio da criação de empregos, da redução da pobreza e da segurança alimentar. A utilização mais eficiente de fertilizantes e o manejo da pecuária também são opções promissoras para aumentar a redução de emissões. Tais práticas também podem reduzir expressivamente o desmatamento e a degradação, proporcionando ganhos em produtividade e eficiência.
A implantação de medidas de adaptação, como o aumento da agrodiversidade, a utilização de novas variedades e a identificação de culturas locais e regionais mais eficientes, aumenta a resiliência dos sistemas agrícolas aos impactos da alteração climática. Além disso, a utilização eficiente de culturas como a cana-de-açúcar (no caso do Brasil) pode aprimorar a eficiência e a produtividade no setor como um todo, assim como a utilização dos resíduos agrícolas provenientes da colheita ou do processamento.
De acordo com a FAO, 70% desse potencial de mitigação estão em países em desenvolvimento. Agricultura e florestas são os únicos setores que podem realmente remover o dióxido de carbono da atmosfera. O sequestro de carbono no solo representa aproximadamente 90% do potencial técnico de mitigação da agricultura e está entre as opções promissoras que visam reduções significativas de emissões até 2020, contribuindo com o objetivo de longo prazo de caminhar para uma economia de baixo carbono.
Como progredir
Os investimentos em agricultura não responderam às necessidades para tornar as culturas mais eficientes e/ou melhorar o manejo do solo. O investimento atual também não é suficiente para atender aos novos desafios apresentados pela mudança climática. Para alcançar todo o potencial de redução das emissões terrestres e ampliar as medidas de adaptação para atender as mudanças climáticas, serão necessários investimentos e novos mecanismos de financiamento.
A magnitude do investimento necessário para compensar os impactos negativos, visando alcançar maior produtividade, é expressiva. O International Food Policy Research Institute (IFPRI) estima que o mundo precise de US$ 7 bilhões adicionais em investimento anual para suprir a necessidade atual. A FAO estimou recentemente que o setor agrícola nos países em desenvolvimento precisará de um investimento bruto anual de, aproximadamente, US$ 210 bilhões para alimentar o mundo até 2050.
O McKinsey Global Institute estimou que 50% das 17,4 gigatoneladas de reduções de emissões até 2020 devem ser provenientes de agricultura e florestas. Se alcançado, tal objetivo proporciona enormes oportunidades para os setores agrícola e florestal. Um preço para o carbono também pode proporcionar incentivos expressivos para alavancar investimentos agrícolas.
As negociações pré-Copenhague sobre REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) são os primeiros passos rumo ao desenvolvimento de um mecanismo de financiamento voltado para a diminuição do desmatamento. Graças a várias decisões em COPs, o setor florestal foi o foco inicial – partindo de conservação florestal até reflorestamento e manejo sustentável de florestas. Legislações ainda em negociação nos Estados Unidos podem guiar o mercado de carbono florestal internacionalmente, considerando a parcela fixa para créditos de carbono oriundos de florestas tropicais, previsto pela legislação local americana de comércio de emissões. Se o sistema de comércio de emissões nos Estados Unidos for efetivado, oferecerá uma grande oportunidade para países em desenvolvimento com grandes áreas de matas nativas, já que eles podem fornecer até 50% desses créditos de carbono. Contudo, duas coisas são necessárias: 1) preço do carbono com crescimento constante ao longo do tempo, e 2) um mecanismo para mobilizar a atuação do setor privado nos mercados de carbono, por meio da compra de compensações de investimentos diretos.
Uma reestruturação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) também pode ser importante para transferir inovação e capital. Quanto mais ambiciosas forem as metas de redução no mundo desenvolvido, maior o potencial de geração de créditos de carbono programáticos no MDL reformulado. Para ilustrar, somente em 2008, o MDL forneceu um capital de US$ 8 bilhões para países em desenvolvimento pela venda da Redução Certificada de Emissões (CERs).
A FAO argumentou que a agricultura deve ser tratada separadamente e defendeu o estabelecimento de um programa de trabalho em agricultura, dentro do processo da Convenção do Clima, para resolver assuntos técnicos e metodológicos. Uma ampla discussão sobre como incluir, no longo prazo, agricultura, agro-floresta e conservação florestal, assim como suas interações com mudanças no uso da terra, é esperada na COP 15. No entanto, é improvável que este processo seja concluído neste momento. Para o futuro, fica evidente que precisamos aprimorar as bases de informações globais a fim de promover melhores decisões e planejamentos estratégicos, e desenvolver políticas de incentivos que estimulem novos investimentos e iniciativas, visando preservar o planeta para gerações futuras.
*UN Foundation – Iniciativa Internacional de Bioenergia e Sustentabilidade (IBSI).
Artigo publicado no Relatório do Seminário Agricultura, Mudanças Climáticas e Comércio, do Ícone (Instituto de Comércio e Negociações Internacionais).


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