O futuro secretário da Agricultura e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul, Paulo Herrmann, concedeu entrevista ao Portal Agrolink neste sábado, 31 de outubro, e apresentou as linhas gerais do que pretende fazer à frente da pasta. Entre as propostas, está a criação de um programa de descompactação dos solos, que ele considera a principal medida estrutural para deixar a produção gaúcha mais preparada para eventos climáticos extremos. Herrmann também tratou do endividamento rural.
Quem é Paulo Herrmann
Herrmann foi anunciado na terça-feira, dia 27, pelo governador eleito, Luciano Zucco (PL), como futuro secretário estadual da Agricultura. Ele assume o cargo em 6 de janeiro de 2027, quando começa a nova gestão estadual.
Com mais de 40 anos de experiência no agronegócio, foi presidente da John Deere no Brasil entre 2012 e 2022, período em que esteve à frente das operações e da expansão da multinacional no país. Sua trajetória inclui atuação em empresas internacionais e na gestão de organizações ligadas ao setor produtivo.
Atualmente, é CEO da PH Advisory Group, empresa de consultoria estratégica, mentoria e participação em conselhos de administração. Também atuou como CEO da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), onde conduziu iniciativas de planejamento estratégico e modernização da gestão. Em 2021, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais.
De acordo com o governador eleito, a escolha segue o compromisso assumido durante a campanha de priorizar profissionais com experiência de gestão e conhecimento técnico nas respectivas áreas.
Convite ao cargo
Depois de décadas na iniciativa privada, Herrmann explicou o que o levou a aceitar o convite. O primeiro motivo, segundo ele, foi o perfil técnico que o governador pretende dar à gestão. “O que me motivou foi participar de um projeto que ele propõe que seja técnico”, afirmou.
Para o futuro secretário, esse perfil permitirá que a Secretaria trate dos temas com mais agilidade. A ideia, de acordo com ele, é encaminhar as demandas “com objetividade, sem perda de tempo com outros vieses de qualquer outra natureza”.
O segundo motivo é de ordem pessoal. Herrmann contou que vê na função uma forma de retribuir o que recebeu ao longo da vida, conceito que, segundo ele, aprendeu com os americanos. “Na idade em que estou, eu tenho uma obrigação com o meu estado, com a minha cidade, com o meu município. Aprendi com os americanos um conceito chamado dar de volta, give back. É dar de volta à sociedade tudo aquilo que ela te deu”, disse.
Endividamento rural
Ao ser questionado sobre a primeira prioridade da gestão, Herrmann ressalvou que ainda não tem um plano desenhado, mas apontou o endividamento dos produtores, agravado por sucessivas perdas de safra, como tema central. Ele descreveu a situação com uma imagem direta. “Nós não podemos acordar todas as manhãs com essa espada sobre a nossa cabeça, de alguém poder estar querendo fazer uma execução de nossas propriedades, de nossa terra”, declarou.
Na avaliação dele, o caminho para resolver a questão não passa por medidas técnicas. “Esse problema não tem solução técnica. Ele tem que ser resolvido politicamente”, afirmou. Herrmann ressaltou ainda a dimensão do que está em jogo: “É um volume de recursos muito grande. Em qualquer parte do mundo seria muito dinheiro.”
Segundo o futuro secretário, o governo Zucco está montando uma estrutura de representação política para conduzir o assunto. Ele disse que o senador Heinze coordenará a articulação em Brasília, com o apoio da bancada eleita e dos parlamentares que já atuavam na capital federal. “Ele conhece os caminhos de Brasília, um senador muito respeitado”, disse. Para Herrmann, esse arranjo cria um cenário favorável. “Estamos estruturados como nunca para fazer essa negociação avançar”, afirmou.
Cabe à Secretaria, segundo ele, fornecer subsídios aos negociadores. Herrmann disse que a pasta colocará à disposição dos representantes do Estado no Congresso todas as informações de que precisarem. Ao mesmo tempo, reconheceu que o tema funciona como um entrave para outras ações. “Nós temos um grande obstáculo, um grande quebra-molas, que é a questão do endividamento”, disse.
Herrmann defendeu que o problema seja tratado em duas frentes. Para ele, a dívida é uma consequência de uma fragilidade mais profunda da produção. “O endividamento é um problema momentâneo, que precisa ser resolvido, precisa ser removido. Agora, ele foi criado porque nós temos um problema estrutural para resolver”, declarou.
O “contrapiso” do solo e o programa de descompactação
É nesse ponto que entra a principal proposta apresentada na entrevista. Segundo Herrmann, a fragilidade estrutural da produção gaúcha está no solo. Ele afirmou que o Rio Grande do Sul recebe entre 1.600 e 2.000 milímetros de chuva por ano, volume que, na avaliação dele, é suficiente. O que falta, segundo ele, é distribuição e armazenamento. “O nosso problema aqui não é falta d’água. O nosso problema é que ela vem mal distribuída. Às vezes vem demais, outras vezes vem de menos”, disse.
Para explicar por que a água não fica no campo, o futuro secretário apontou uma camada impermeável logo abaixo da superfície. De acordo com ele, 87% dos solos do Estado apresentam essa compactação a até 10 centímetros de profundidade. “Nós temos, a até 10 centímetros da superfície, uma camada impermeável, quase como um concreto, um contrapiso”, afirmou.
Na descrição de Herrmann, a consequência é o escoamento rápido da chuva. “A água chega, encharca e vai embora. Depois que foi embora, lava a terra junto, faz o assoreamento dos rios. Todo mundo sabe os efeitos”, disse.
A resposta proposta por ele é um programa de descompactação do solo, que chamou de medida número um da gestão para a adaptação ao clima. “Nós vamos fazer um programa para rebentar esse contrapiso que tem debaixo da superfície, para que a água possa entrar. Essa é a forma estrutural de resolver o problema”, afirmou. A lógica, de acordo com Herrmann, é simples: “Se eu não descompactar, eu tenho esse contrapiso lá, a chuva cai e ela vai embora.”
O futuro secretário disse que a mudança climática precisa ser tratada como dado da realidade. “Não adianta reclamar da mudança climática, porque ela veio para ficar. O que nós precisamos é conviver com ela”, declarou. E resumiu a estratégia: “Tudo começa por pegar a água que cai, abraçá-la e levá-la para dentro da terra.”
Manejo, irrigação e monitoramento do clima
Além da descompactação, Herrmann listou um conjunto de práticas que, segundo ele, já estão disponíveis. Entre elas, cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico, ajuste das épocas de plantio, diversificação de culturas e aumento da matéria orgânica por meio da integração lavoura-pecuária. “Tem uma série de medidas técnicas já desenvolvidas, prontas, estudadas e que funcionam”, afirmou.
A execução, de acordo com ele, ficará a cargo de uma rede já existente. Herrmann citou a Emater, que, segundo disse, conta com muitos profissionais, além das cooperativas e dos municípios. “São profissionais de grande qualidade e competência”, disse sobre a equipe da Emater.
A irrigação artificial, que consiste em levar água do subsolo ou de reservatórios para a lavoura, aparece como etapa posterior. “Se tudo isso não é suficiente, aí nós vamos fazer irrigação. Mas essa é uma outra etapa”, afirmou.
O futuro secretário também mencionou a necessidade de reforçar a estrutura de monitoramento. Ele disse que será preciso aparelhar os institutos e as estações meteorológicas do Estado. A justificativa é a posição do Rio Grande do Sul diante dos eventos extremos. “Os especialistas dizem que o que está acontecendo aqui hoje vai acontecer no Brasil de uma maneira geral, que aqui está sendo o laboratório do clima”, declarou. Por isso, afirmou, a intenção é melhorar o mapeamento e a antecipação dos eventos, “para que a gente possa, a partir da nossa experiência, ajudar outros estados brasileiros”.
Alerta sobre desinformação e El Niño
Ao falar de monitoramento, Herrmann fez um alerta sobre a forma como as informações climáticas chegam ao produtor. “Temos que cuidar para não entrar na paranoia”, disse. Ele citou como exemplo o debate sobre o El Niño e defendeu cautela na interpretação e na divulgação de informações sobre o fenômeno.
Na avaliação dele, informações incorretas podem levar a decisões erradas na lavoura. Herrmann descreveu o raciocínio que, segundo ele, ocorre em alguns casos: “Muitas vezes o agricultor pensa: ‘Vem um El Niño, vou plantar menos para me arriscar menos’, e às vezes está seguindo uma informação errada.”
Herrmann foi além e disse haver interesses por trás da circulação de notícias alarmistas. “Hoje há muitos interesses envolvidos no agro, tem muita gente ganhando dinheiro nas costas do agro”, declarou. Para ele, o produtor precisa de orientação clara, e a imprensa e os jovens têm papel nisso. “Eu preciso de vocês e de jovens influenciadores para nos ajudar a passar qual é a informação mais correta e qual é a recomendação de como nós temos que agir”, afirmou.
Ele encerrou o raciocínio com um recado ao setor. “Nós não vamos parar de ter esses fenômenos. Temos que ser resilientes, nos adaptar, entender os fenômenos e reagir para nos proteger”, disse.
Tecnologia: usar melhor o que já existe
Questionado sobre inovação, mecanização e agricultura de precisão, Herrmann afirmou que o desafio do Estado não é buscar novas ferramentas. Segundo ele, a tecnologia já está disponível. “Nós não precisamos correr atrás de tecnologia. Ela já existe em todos os campos, já estão disponíveis”, declarou.
Na avaliação do futuro secretário, o que falta é preparo para aproveitá-la. Ele usou uma comparação para ilustrar a ideia. “Nós estamos construindo uma casa pelo telhado. Nós temos que agora fazer o fundamento”, disse. É nesse ponto que ele pretende trabalhar com os jovens. “O jovem já nasce dentro desse mundo digital e precisa nos ajudar a usar da maneira mais eficiente todo esse acervo tecnológico que hoje está disponível”, afirmou.
Herrmann recorreu à própria trajetória na John Deere para ilustrar o argumento. “Eu sempre digo que, de todos os tratores que eu vendi na vida, ninguém usou mais que 60% do potencial da máquina. Então ela fica cara, fica ineficiente”, contou.
Selo “Feito no Rio Grande”
Outro eixo apresentado pelo futuro secretário é a agregação de valor à produção primária. Herrmann lembrou que milho, soja, arroz, trigo e a arroba do boi são commodities, e disse que o Estado precisa encontrar formas de diferenciar esses produtos.
Uma das ideias é criar uma identificação própria. “Eu quero criar uma marca, um certificado, um selo ‘Feito no Rio Grande’, alguma coisa assim”, afirmou. De acordo com ele, o selo indicaria ao consumidor que o produto foi feito em um ambiente economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente correto. “Ou seja, criar uma reputação”, disse.
O arroz foi o exemplo escolhido. Segundo Herrmann, o Estado responde por 70% da produção nacional, mas o consumidor não sabe disso na hora da compra. “Nós fazemos 70% do arroz do Brasil, mas, quando a gente vai ao supermercado, não sabe que aquele arroz é gaúcho”, declarou.
Sobre a soja, ele levantou uma possibilidade, condicionada a uma comparação. Se a soja gaúcha tiver mais proteína do que a americana ou a argentina, disse, seria possível classificá-la por esse critério para elevar seu valor. “O que importa na soja é a proteína”, afirmou.
Para a pequena propriedade, Herrmann apontou a chamada gourmetização do agro como caminho. Segundo ele, parte da produção de queijos, pães, alimentos e bebidas hoje é feita apenas para consumo próprio. “Tudo isso é feito hoje para autoconsumo. Podemos agregar um pouquinho mais, estruturar isso para colocar no mercado e criar feiras para fazer a ligação direta entre o produtor e o consumidor”, disse.
Feiras e turismo rural
Ao comentar a agricultura familiar, Herrmann citou uma feira com pavilhões lotados como prova do potencial de comercialização direta, mas considerou insuficiente a frequência atual. “Uma vez por ano é muito pouco. Teríamos que ter, no mínimo, uma vez por mês e, mais adiante, até todos os finais de semana, esse mesmo evento, onde cada um traz o seu produto, comercializa, vende. Isso é gerar economia”, afirmou.
O futuro secretário também pretende estimular o turismo rural, a partir de um modelo conhecido na Europa. “Andando pelo interior da Europa, vê-se muito o que eles chamam de B&B, bed and breakfast, ou seja, cama e café da manhã. Dá para fazer isso aqui”, disse.
Segundo ele, a estrutura pode ser simples. “Não precisa ser chique, porque não é hotel cinco estrelas que o público quer. Ele quer ver o galo cantar de manhã, quer ajudar a tirar leite”, afirmou. Herrmann argumentou que a maioria dos moradores da cidade tem origem no interior e guarda uma ligação afetiva com o campo, o que, na avaliação dele, ajudaria a aproximar o público urbano da produção rural.
Integração das entidades e legado
Para colocar as propostas em prática, Herrmann disse que pretende reunir as principais entidades do setor em torno de um único plano. A intenção, segundo ele, é evitar divisões por porte de produtor. “Não vamos fazer plano para pequeno, para médio, para grande. Vamos fazer um plano para o Rio Grande, onde, na medida do possível, todos os segmentos estejam representados”, afirmou.
Ele defendeu a integração das entidades representativas na construção de uma proposta conjunta e destacou a necessidade de agir rapidamente, considerando o mandato de quatro anos. “Não temos mais tempo a perder”, declarou.
O futuro secretário também descreveu o tom que pretende imprimir à gestão. Segundo ele, o foco será em ações concretas, e não em queixas. “Eu não quero ser o capitão da lamúria. A lamúria, a vitimização, isso é um vírus. E vírus pega”, disse. Para Herrmann, a resposta deve ser outra: “Combater com planos, com ideias, com ações concretas.” Ele completou com uma frase sobre o alcance das metas: “Eu não quero abraçar o mundo; quem abraça muito, aperta pouco.”
Ao ser perguntado sobre o legado que pretende deixar, Herrmann escolheu uma imagem da química. “Eu gostaria de ser lembrado como aquela pessoa que não inventou a roda. Quero ser o catalisador, aquele elemento que promove a reação, mas não muda o gosto, não muda o resultado final. Ele apenas cria as condições para que isso ocorra”, afirmou.
Em seguida, reforçou o discurso de que não fará distinção entre produtores. “Quero ser o cara da conciliação, o cara de olhar na mesma direção. Não quero ser o secretário do grande, do pequeno ou do médio produtor. Eu sou secretário de todos”, declarou.
Na fala final, o futuro secretário defendeu que o Rio Grande do Sul retome um papel de liderança no setor. “Não é uma questão de tamanho, é uma questão de vocação. Nós somos o berço do agro. Muitos foram embora daqui, os filhos foram embora, fizeram o agro do Brasil, mas nós precisamos resgatar a nossa autoestima e voltar a ser os protagonistas do agro brasileiro”, afirmou.
LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA
Aline Merladete: Paulo, depois de tantos anos na iniciativa privada, o que motivou a decisão de aceitar o convite do governador Luciano Zucco e qual será a principal marca que pretende imprimir nessa gestão?
Paulo Herrmann: Primeiro foi uma motivação de participar de um projeto que ele está propondo ser técnico. Dentro do objetivo de dar à Secretaria da Agricultura e Desenvolvimento Rural essa visão técnica, de encaminhar os temas com objetividade, sem perda de tempo com outros vieses de qualquer outra natureza, considerei positivamente. Esse é um aspecto importante. O outro é que, na idade que eu estou, eu tenho uma obrigação com o meu estado, com a minha cidade, com o meu município. Aprendi com os americanos um conceito chamado dar de volta, give back. É devolver à sociedade tudo aquilo que ela lhe deu, de universidade, enfim. Eu estudei no colégio público. Então, essa questão de propósito e de entrega me levou a aceitar esse desafio.
Aline Merladete: Qual é a primeira prioridade que você pretende colocar em prática assim que assumir o cargo?
Paulo Herrmann: Nós temos alguns grandes temas. Obviamente, eu não tenho um plano ainda desenhado, mas a questão do encaminhamento e da resolução do endividamento é fundamental. Nós não podemos acordar todas as manhãs com essa espada sobre a nossa cabeça, de alguém poder estar querendo fazer uma execução de nossas propriedades, de nossa terra. Para isso, o governo Zucco está montando uma estrutura muito forte em termos de representação política. Vamos ter o senador Heinze fazendo essa coordenação. Ele conhece os caminhos de Brasília, um senador muito respeitado. Então, tenho certeza de que, sob o comando do governador, com a liderança do senador em Brasília, da bancada que foi eleita e dos que já estavam lá, nós vamos ter politicamente o melhor momento para enquadrar isso. E da minha parte, aqui na retaguarda do Estado, quero fazer um grande trabalho de integração. Quero pegar todas as grandes federações e colocar na mesa, e juntos. Não vamos fazer plano para pequeno, para médio, para grande. Vamos fazer um plano para o Rio Grande, onde, na medida do possível, todos os segmentos estejam representados.
Aline Merladete: O endividamento é um dos problemas mais graves do agro gaúcho, agravado pelas sucessivas perdas de safra. Qual é o tamanho desse desafio e o que o governo pode fazer de concreto para ajudar esses produtores a recuperar a capacidade financeira?
Paulo Herrmann: Tem duas coisas, Aline. A primeira é a atividade política, porque esse problema não tem solução técnica. Ele tem que ser resolvido politicamente. É um volume de recursos muito grande. Em qualquer parte do mundo seria muito dinheiro. Então, tem que haver uma solução política e, para isso, estamos estruturados como nunca para fazer essa negociação avançar.
E, do ponto de vista do futuro, nós temos que tornar a nossa estrutura de produção mais resiliente, mais resistente. Toda vez que tivermos uma chuva de estalo, temos que armazenar água dentro do solo. A definição de solo é caixa d’água, e nós temos bastante chuva: 1.600, 1.800, até 2.000 milímetros por ano. Então, o nosso problema aqui não é falta d’água. O nosso problema é que ela vem mal distribuída. Às vezes vem demais, outras vezes vem de menos. E como se resolve isso? Armazenando dentro da terra.
Por que a gente não armazena dentro da terra? Porque nós temos, até 10 centímetros da superfície, uma camada impermeável. 87% dos solos do Rio Grande têm quase que esse concreto, esse contrapiso. Não tem como entrar água, porque ela chega, encharca e vai embora. Depois que foi embora, lava a terra junto, faz o assoreamento dos rios e por aí vai. Todo mundo sabe os efeitos.
Então, nós vamos fazer um programa de descompactação, para rebentar esse contrapiso que tem debaixo da superfície, para que a água possa entrar. Essa é a forma estrutural de resolver o problema. O endividamento é um problema momentâneo, que precisa ser resolvido, precisa ser removido. Agora, ele foi criado porque nós temos um problema estrutural para resolver. Não adianta reclamar da mudança climática, porque ela veio para ficar. O que nós precisamos é conviver com ela, e uma das ações é essa. Depois eu poderia falar em irrigação, em reservação, um monte de coisas. Mas tudo começa por pegar a água que cai, abraçá-la e levá-la para dentro da terra.
Aline Merladete: Como preparar o Estado para os eventos extremos, saindo de uma atuação predominantemente emergencial para uma política permanente de prevenção e adaptação? E o que falta para o Estado avançar na irrigação?
Paulo Herrmann: É um conjunto de medidas, Aline. Uma delas é a descompactação dos solos. Para mim, isso é o número um. Se eu não descompactar, eu tenho esse contrapiso lá, a chuva cai e ela vai embora. Então, não adianta. Esse é o tema número um, e nós vamos ter que montar um programa para fazer isso acontecer.
Depois, temos questões técnicas que podemos trabalhar melhor. Nós temos 1.700 profissionais na Emater, de grande qualidade e competência, para, por exemplo, lidar com a falta d’água: cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico, mudanças nas épocas de plantio, puxando mais para frente ou mais para trás, integração com outras culturas, construção de mais matéria orgânica dentro do solo por meio da integração lavoura-pecuária. Tem uma série de medidas técnicas já desenvolvidas, prontas, estudadas e que funcionam, e que nós vamos ter que colocar em funcionamento por meio da Emater, das nossas cooperativas e dos municípios.
Primeiro, é preciso remover o contrapiso, vou chamar assim a partir de hoje. Me veio essa ideia, acho que ilustra bem. Remover o contrapiso com o programa de descompactação. Depois, fazer gestão e manejo com diferentes culturas, com diversidade, para nos prepararmos para o estresse, para a falta d’água. E, se tudo isso não é suficiente, aí nós vamos fazer irrigação, a irrigação artificial, que é botar água do subsolo ou de reservatórios em cima da terra. Mas essa é uma outra etapa.
Finalmente, nós vamos ter que fortalecer nossos institutos e estações meteorológicas, que ainda não conheço bem, para fazer um monitoramento mais preciso do clima. Os especialistas dizem que o que está acontecendo aqui hoje, e já vem acontecendo nos últimos anos, vai acontecer no Brasil de uma maneira geral, que aqui está sendo o laboratório do clima. Então, quero aproveitar a oportunidade para ter um melhor mapeamento, monitoramento e antecipação desses eventos, para que a gente possa, a partir da nossa experiência, ajudar outros estados brasileiros.
Aline Merladete: Se somos o laboratório, que a nossa gestão sirva de exemplo para os outros.
Paulo Herrmann: Para fazer o monitoramento e cuidar para não entrar na paranoia. Agora, todo mundo só fala em El Niño, El Niño, El Niño. E o fato de as águas do Pacífico esquentarem um ou dois graus também não quer dizer que nós vamos ter El Niño. Tem que haver outros fatores combinados.
Então, nós temos que parar de divulgar notícias que, na verdade, não são verdadeiras. Muitas vezes o agricultor pensa: “Vem um El Niño, vou plantar menos para me arriscar menos”, e às vezes está seguindo uma informação errada. Nós vamos ter que ter informações claras sobre como o agricultor deve agir diante das mudanças climáticas, com a devida antecipação, prevista e avaliada em sua complexidade.
Aline Merladete: E aproveitar este espaço para divulgar as informações com responsabilidade, sem sensacionalismo, para que o produtor rural se prepare, com a responsabilidade dos meios de comunicação, para não haver equívocos.
Paulo Herrmann: O canal do Agrolink tem uma aderência fantástica, inclusive entre os jovens. Nós temos que começar a preparar os nossos jovens para que eles ajudem a interpretar tudo isso. Hoje há muitos interesses envolvidos no agro, tem muita gente ganhando dinheiro nas costas do agro. E é interessante, para alguns, difundir notícias que gerem pânico, que gerem desinformação, que assustem o nosso produtor. Então, eu preciso de mais informação fidedigna e preciso de vocês e de jovens influenciadores para nos ajudar a passar qual é a informação mais correta e qual é a recomendação de como nós temos que agir. Porque uma coisa é certa: nós não vamos parar de ter esses fenômenos. Eles vieram, é parte da transformação. O mundo mudou, tudo mudou. Nós somos oito bilhões de pessoas, estamos indo para nove, dez. Então, temos que ser resilientes, nos adaptar, entender os fenômenos e reagir para nos proteger.
Aline Merladete: Considerando a sua experiência na John Deere e no setor empresarial, como pretende estimular a inovação, a mecanização e a agricultura de precisão, especialmente para pequenos e médios produtores? E como melhorar a infraestrutura, a armazenagem e a logística para reduzir o custo do produtor?
Paulo Herrmann: Nós estamos construindo uma casa pelo telhado. Temos que agora fazer o fundamento. Eu quero trabalhar muito com os jovens. O jovem já nasce dentro desse mundo digital e precisa nos ajudar a usar da maneira mais eficiente todo esse acervo tecnológico que hoje está disponível. Esse é o primeiro ponto. Nós não precisamos correr atrás de tecnologia. Ela já existe em todos os campos: os bioinsumos e tudo, já estão disponíveis. Eu sempre digo que, de todos os tratores que eu vendi na vida, ninguém usou mais que 60% do potencial da máquina. Então, ela fica cara, fica ineficiente. Essa é uma ação importante.
E, obviamente, vamos trabalhar a agregação de valor. Milho, soja, arroz, trigo, tudo isso é commodity. O boi, a arroba do boi, é commodity. Nós temos que agregar valor. Dentro dessa lógica, quero criar uma marca, um certificado, um selo “Feito no Rio Grande”, alguma coisa assim. Um selo de qualidade, para que, quando a pessoa olhar para aquele produto, entenda que ele foi produzido dentro de um ambiente economicamente viável, ambientalmente sustentável, socialmente correto. Ou seja, criar uma reputação.
Nós fazemos 70% do arroz do Brasil, mas, quando a gente vai ao supermercado, não sabe que aquele arroz é gaúcho. Então, temos que criar um selo do arroz. Nós somos os precursores da soja, e temos que marcar essa presença. Se a nossa soja tem mais proteína do que a soja americana ou a argentina, como podemos classificá-la, já que o que importa na soja é a proteína, para que a gente consiga aumentar o valor dela?
E há a gourmetização do agro, um trabalho grande que podemos fazer na pequena propriedade. Nós somos ótimos para fazer queijos, pães, todos esses alimentos e bebidas que eu me criei comendo na minha infância, em casa. Tudo isso é feito hoje para autoconsumo. Podemos agregar um pouquinho mais, estruturar isso para colocar no mercado e criar feiras, para fazer a ligação direta entre o produtor e o consumidor. Existem muitas ideias, e eu não preciso reinventar a roda. Isso já está tudo escrito. O que a gente precisa agora é botar todo mundo ao redor da mesa, todos os segmentos. Não quero ser o secretário do grande, do pequeno ou do médio produtor. Eu sou secretário de todos, e nós vamos trabalhar para viabilizar todos, dentro das suas características.
Aline Merladete: O que você pretende deixar de legado após os quatro anos de gestão? E, sobre a agricultura familiar, o sucesso dos pavilhões e dos eventos mostra o quanto ainda falta para a área urbana perceber que aquilo vem do pequeno produtor.
Paulo Herrmann: A Expointer, por exemplo é um sucesso, aqueles pavilhões lotados de gente. Agora, uma vez por ano é muito pouco. Nós teríamos que ter, no mínimo, uma vez por mês e, mais adiante, até todos os finais de semana, esse mesmo evento, onde cada um traz o seu produto, comercializa, vende. Isso é gerar economia. E o pessoal da cidade, aos poucos, vai se acostumando e vendo.
Quero estimular também o turismo rural. Andando pelo interior da Europa, vê-se muito o que eles chamam de B&B, bed and breakfast, ou seja, cama e café da manhã. Dá para fazer isso aqui. Temos que ajudar a criar uma condição mínima, mas não precisa ser chique, porque não é hotel cinco estrelas que o cara quer. Ele quer ver o galo cantar de manhã, quer ajudar a tirar leite, enfim, criar essa conexão com a cidade. Porque, cá entre nós, Aline, muitas pessoas que moram na cidade nasceram no interior. Então, tem a saudade, querem mostrar para os filhos como era a vida deles, como é acordar de manhã sem ouvir barulho de sirene de polícia e outras coisas mais. Tem muita coisa para fazer.
Eu gostaria de ser lembrado como aquela pessoa que não inventou a roda. Quero ser o catalisador, que, na época em que você deve ter estudado química, é aquele elemento que entra numa reação, promove a reação, mas não muda o gosto, não muda o resultado final. Ele apenas cria as condições para que isso ocorra. Quero ser o cara da conciliação, o cara de olhar na mesma direção. Quero evitar que a gente fique se discriminando entre pequeno e grande. Somos todos, cada um no seu papel, altamente importantes e viáveis, e vamos construir novamente aqui no Rio Grande o agro mais importante do Brasil. Não é uma questão de tamanho, é uma questão de vocação. Nós somos o berço do agro. Muitos foram embora daqui, os filhos foram embora, fizeram o agro do Brasil, mas nós precisamos resgatar a nossa autoestima e voltar a ser os protagonistas do agro brasileiro.
Eu não quero ser o capitão da lamúria. A lamúria, a vitimização, isso é um vírus. E vírus pega, que nem o pessimismo, a gripe. Então, nós precisamos combater isso, obviamente, com planos, com ideias, com ações concretas. Eu não quero abraçar o mundo; quem abraça muito, aperta pouco. Eu quero fazer uma coisa. Não temos muito tempo, são quatro anos. Não dá para ficar meses e meses fazendo planos e mais planos. Precisamos reunir os planos, construir uma proposta conjunta e começar a trabalhar. Não temos mais tempo a perder. Agora, obviamente, nós temos um grande obstáculo, um grande quebra-molas, que é a questão do endividamento. Na Secretaria, vou colocá-la à disposição dos nossos negociadores, dos nossos representantes no Congresso, com todas as informações de que precisarão para fazer a melhor condução do tema.