A evolução da castração em bovinos e a ciência por trás da imunocastração
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Agronegócio

A evolução da castração em bovinos e a ciência por trás da imunocastração

Castração já pode ser feita por meio de uma vacina
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Técnica milenar para controle de comportamento do rebanho, castração já pode ser feita por meio de uma vacina que preserva o bem-estar animal

Uma prática que antecede a era Cristã. A castração de bovinos é realizada desde o início da criação destes animais, há milhares de anos – durante o período Neolítico (Idade da Pedra Polida). No princípio, o procedimento era feito apenas para manter os machos mais calmos. A partir do grande desenvolvimento da pecuária bovina – na segunda metade do século XX –, a castração passou a ser realizada também com o objetivo de melhorar a qualidade e o sabor da carne e pode, até mesmo, contribuir para a sanidade do rebanho.

Apesar dos efeitos positivos, as técnicas tradicionais de castração (métodos cirúrgico, burdizzo[1] e castração química) afetam o bem-estar animal e trazem riscos de complicações como infecções, bicheiras, perda de peso e, em casos extremos, a morte. Porém, desde maio de 2011, os pecuaristas brasileiros contam com um método alternativo que traz os mesmos benefícios destas técnicas e ainda preserva o bem-estar animal: Bopriva, primeira e única vacina para castração imunológica de bovinos do mercado.

Produzida pela Pfizer Saúde Animal, Bopriva é injetável e possui mecanismo de ação similar às vacinas convencionais. “O produto age no sistema imunológico dos bovinos e proporciona a suspensão temporária da fertilidade de machos e fêmeas. Desta forma, Bopriva muda a maneira de os pecuaristas lidarem com a castração e representa, mais do que evolução, uma revolução dessa técnica”, explica Fernanda Hoe, gerente de produto da unidade de negócios Bovinos da Pfizer Saúde Animal.

Segundo a executiva, o grande desafio da bovinocultura era aprimorar as técnicas de castração como ferramenta para adequá-las às exigências atuais em aliar produtividade e bem-estar animal. Foi diante deste cenário que a Pfizer Saúde Animal reuniu uma equipe de pesquisadores para o desenvolvimento de Bopriva. “Foram realizados 24 estudos clínicos globalmente, envolvendo 4.620 animais. O primeiro mercado a receber a vacina foi a Nova Zelândia, em 2010”, completa Fernanda. Conheça a seguir um pouco mais sobre a evolução e os métodos da castração de bovinos no Brasil, suas funções, as diferenças nos organismos dos animais castrados e não castrados, e a ciência por trás da castração imunológica.

Por que castrar bovinos?
A resposta a essa pergunta variou ao longo do século passado no Brasil. “Nas décadas de 20 e 30, por exemplo, não havia cercas definidas. Os animais eram criados por área e os machos eram castrados para pararem de ir a áreas mais distantes”, conta o médico veterinário Francisco de Sales Resende Carvalho, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (MG).

Por terem altos níveis de testosterona, os bovinos inteiros são menos dóceis do que os castrados. Segundo Carvalho, os machos não castrados brigam muito, fogem, pulam cercas, apresentam comportamento de sodomia e fazem buracos no solo para delimitar seus territórios. O comportamento intempestivo pode levar a danos nas pastagens e instalações das fazendas, interferir na alimentação e engorda, além de lesionar os cascos e machucar os animais.

Na década de 40, o objetivo da castração de bovinos de corte no País continuou a ser a redução do comportamento sexual e agressivo para tornar o manejo mais fácil. No entanto, o cenário havia se modificado: as fazendas passaram a ser cercadas com arame. “Os machos inteiros pulavam as cercas para cobrir as fêmeas que estavam no cio e os animais passaram a ser castrados para ficarem quietos na área de engorda”, afirma o especialista.

Nos anos 60 e 70, o Brasil assistiu a uma grande expansão dos frigoríficos. Os bovinos passaram a ser abatidos pelos frigoríficos e ter suas carcaças refrigeradas. A carne de animais inteiros, quando refrigerada, fica com a cor mais escura e a textura mais seca do que a carne de animais castrados. De acordo com o médico veterinário Roberto de Oliveira Roça, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, as propriedades sensoriais da carne dependem de uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos. Um dos principais é o estresse ao qual o animal é submetido antes do abate.

“O macho inteiro tem a testosterona e, por isso, é mais suscetível ao estresse e consome mais glicogênio do que os bovinos castrados. No momento do abate, seu nível de glicogênio nos tecidos é menor do que o encontrado nos bovinos castrados”, explica Roça. O glicogênio é um polissacarídeo responsável por armazenar a energia nas células dos animais. Após o abate dos bovinos, essa substância se transforma em ácido láctico, levando à queda do pH (potencial de hidrogênio, que indica a acidez, neutralidade ou alcalinidade de uma solução) da carne.

As carnes dos bovinos que têm o pH mais alto – conhecidas como DFD (dark, firm, dry) –, provenientes de animais estressados, são mais escuras, firmes e secas do que aquelas com pH inferior. Além disso, Roça explica que a carne com pH acima de 6 não pode ser exportada para países da União Europeia. “Este controle existe há cerca de duas décadas, pois o vírus da aftosa pode sobreviver em carnes de pH mais alto. Não é possível adquirir aftosa consumindo a carne com pH elevado, mas há o risco de levar o vírus para um país que já eliminou a doença”, alerta o professor.

Outro fator diferencial dos animais castrados é a cobertura de gordura na carcaça que deve ser mediana e uniforme. Em carcaças de bovinos de corte, ela tem um papel fundamental: a proteção contra o frio durante o resfriamento após o abate, que também evita o ressecamento, o escurecimento da carne e o encurtamento das fibras musculares. A cobertura de gordura do animal castrado é melhor em comparação a bovinos inteiros criados nas mesmas condições, o que torna a carcaça dos animais castrados com melhor acabamento e a carne de melhor qualidade.

Os bovinos castrados conseguem ter uma cobertura de gordura média entre 3 e 5 mm, considerada um bom acabamento pelos frigoríficos – que, muitas vezes, remuneram melhor os pecuaristas que fornecem animais com melhor acabamento de carcaça. “Este melhor acabamento deixa a carne mais saborosa e macia. O ácido láctico também tem sabor agradável e contribui para a palatabilidade”, acrescenta Roça. Outros fatores que interferem na qualidade de carcaça são a genética, a nutrição e o manejo dos animais na fazenda. Bovinos de boa genética, castrados e alimentados com dietas de alto nível energético chegam a atingir a cobertura de gordura uniforme entre 6 a 10 mm, que é a preferida pelas marcas de carne premium. Confira abaixo as técnicas utilizadas para castração de bovinos ao longo do século XX:

Técnicas tradicionais de castração de bovinos

Esmagamento com macete

Método muito usado no início do século XX. O animal era amarrado ao solo com cordas e utilizava-se um pequeno bastão para bater de 10 a 12 vezes nos testículos.

Emasculador, burdizzo ou castração russa

A técnica foi trazida ao Brasil por volta da década de 40. Trata-se de um método físico feito com uma ferramenta (conhecida como burdizzo, nome de uma das fabricantes) específica para castração, parecida com um alicate. O instrumento esmaga os cordões espermáticos, sem danificar o escroto, interrompendo a circulação sanguínea para os testículos – que entram em processo de deterioração e caem necrosados com o tempo. O aspecto, mau cheiro e infestações por larvas de moscas antes dos testículos caírem estão entre as reclamações dos pecuaristas que utilizam este método em suas propriedades. Porém, seu principal inconveniente é que, após algum tempo, a circulação pode ser retomada e os animais precisam ser castrados novamente.

Elastrador

Método bastante utilizado em bezerros nos EUA. Por meio de uma ferramenta, um elástico de alta pressão é fixado na base do escroto dos animais. Seu resultado é semelhante ao emasculador: em cerca de 50 dias o tecido dos testículos cai necrosado. No entanto, o elastrador só pode ser usado em animais jovens devido ao tamanho do elástico. Além do grande incômodo e dor que provoca nos animais, esta caindo em desuso porque aumenta muito a suscetibilidade a infecções. 

Castração química

Consiste na aplicação local de substâncias químicas que provocam a atrofia dos testículos. É utilizada no Brasil desde a década de 70. Hoje, são usadas injeções de tintura de iodo e látex. O processo é bastante doloroso para o animal e pode apresentar resultados muito graves, pois às vezes a substância atinge apenas parte dos testículos. 

Castração cirúrgica

Técnica mais realizada hoje no Brasil. Geralmente é feita sem anestesia por meio de duas incisões laterais na bolsa escrotal do animal para retirada dos testículos ou com a remoção do ápice do escroto. Apesar de trazer os benefícios já citados, não evita os prejuízos causados pelas complicações pós-operatórias. O animal fica suscetível a infecções ou miíases, pode perder peso e, em casos extremos, corre risco de morte.

 
Como funciona a castração imunológica

Bopriva é uma vacina que estimula o sistema imunológico do animal a produzir anticorpos contra o Fator de Liberação de Gonadotropinas (GnRF ou GnRH). Desta forma, o produto bloqueia a liberação de dois hormônios e, como consequência, suprime temporariamente a função testicular e a produção de testosterona em bovinos machos. Nas fêmeas, a função ovariana também é inibida temporariamente com o uso de Bopriva, reduzindo o comportamento de cio.

A neutralização do GnRH por meio do uso da vacina leva ainda à interrupção temporária do comportamento sexual e agressivo aliada à uma melhoria da qualidade de carcaça. Por ser uma vacina, Bopriva traz ainda como benefício a diminuição da perda de performance associada à castração cirúrgica. “Outra vantagem da técnica é a preservação do bem-estar animal. A vacina atende a essa demanda, pois é administrada com duas doses injetáveis (dose e reforço) na tábua do pescoço e pode ser associada a outros manejos de rotina. A primeira dose de Bopriva sensibiliza o sistema imunológico do animal, que responde ao produto 7 a 14 dias após a segunda dose”, salienta Fernanda Hoe.

O efeito do produto é temporário. Em média, sua ação dura de três a cinco meses após a aplicação da segunda dose. Após esse período, a atividade testicular ou ovariana retorna lentamente. A duração de efeito de Bopriva varia conforme o intervalo entre a 1ª e 2ª dose, por isso é recomendado o uso de protocolos diferentes de acordo com o sistema de produção. Uma terceira dose pode ser aplicada para prolongar a ação da vacina, proporcionando mais cinco meses de efeito.

“A segurança alimentar para o consumidor final também é um diferencial da imunocastração”, destaca Fernanda. Bopriva não exige período de carência para abate, pois é um produto não hormonal que não deixa resíduos no organismo do animal. “Isto porque o antígeno desta vacina é uma proteína e, assim como todas as proteínas, é destruído quando cozido e no trato gastrintestinal. Por essas razões, as autoridades regulatórias permitem o abate imediato de bovinos machos e fêmeas imunizados com Bopriva”, finaliza a executiva.

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