A raça Caracu prossegue na sua saga de melhorar geneticamente o rebanho brasileiro
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Imagem: Divulgação
PECUÁRIA

A raça Caracu prossegue na sua saga de melhorar geneticamente o rebanho brasileiro

O Caracu é a raça mais antiga de bovinos que existe no Brasil
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O Caracu é a raça mais antiga de bovinos que existe no Brasil, pois é o resultado de um cruzamento do gado português e ibérico, que vieram com os portugueses, ainda no período da colonização, e aqui cruzaram com o gado crioulo ou nativo, muito rústico, que já existia no País. Portanto sua linhagem já tem uns 500 anos de melhoramento genético, além da adequação aos nossos trópicos. O Caracu atualmente é uma das raças que mais despertam o interesse dos pecuaristas, desenvolvidas a pasto, e não em testes de laboratórios, herdadas dos seus descendentes portugueses, ibéricos e dos nativos brasileiros,que foram sendo aprimoradas durante cinco séculos, como ganho de peso, precocidade, docilidade no tratamento dos animais.

Aliás, a raça está no Programa Geneplus da Embrapa, e não deve ser por acaso.  Por isso decidimos fazer essa entrevista com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Caracu (ABCC), Renato Maia Visconti, pois queremos saber por que o Caracu está sendo tão desejado pelos pecuaristas brasileiros e mostrar que mais do que nunca a raça está muito ativa, contribuindo para o desenvolvimento e o melhoramento genético do rebanho brasileiro, com carne macia, com marmoreio, exatamente como a que está sendo exigida pelo mercado consumidor internacional. 

Renato gostaríamos que o senhor nos falasse sobre a origem da raça Caracu, que muita gente diz que veio com os portugueses, mas não é bem assim. Você pode nos contar um pouco sobre essa história? 

Renato: Os rebanhos que vieram de Portugal e região da península Ibérica, vieram para o Brasil em 1534 com chegada em São Vicente, litoral paulista, basicamente as raças Alentejana e Minhota e através de cruzamentos destas com o gado crioulo já existente aqui deu origem a uma série de indivíduos com diferentes pelagens e características. Do produto destes cruzamentos, foram selecionados os de pelagem laranja mais padronizada e formada a raça denominada de caracu. Existem algumas teorias para a escolha do nome da raça, dentre elas a semelhança do bezerro recém-nascido Caracu com um veado de pequeno porte da região, denominado de “Kareacu” pelos indígenas. Algumas teorias remontam à presença deste gado nas margens de um rio da região de nome Caracu ... e por ai vai a história do nome. Era um gado extremamente forte e resistente e foi outrora utilizado para o trabalho de tração animal. Com a evolução natural que este gado sofreu e sua utilização em grande parte do território nacional, a raça Caracu foi se adaptando a todo tipo de terreno, topografia, qualidade e disponibilidade de alimento, tornando-se um animal extremamente versátil.

Quais são as características principais da raça, que fez dela uma autêntica raça nacional, melhorada totalmente à pasto, dentro da teoria de Darwin, e não em laboratórios? 

Renato: As principais características da raça são: Adaptação às mais diversas condições de clima,topografia, qualidade de pastagens, resistência a ecto e endoparasitas, pelo curto e de extrema qualidade na troca de calor com ambiente. Bons cascos, prepúcio curto,bons aprumos,características estas que conferem aos reprodutores vida longa na utilização dos mesmos a campo, com uma lotação de 40 a 50 vacas para cada reprodutor, fechando estações de monta com resultados próximos ou acima de 90%, o que o torna imbatível neste quesito. Também é precoce sexualmente, e atualmente, através de melhorias genéticas,incorporou também a precocidade quanto ao ganho de peso e acabamento de gordura e marmoreio, sem falar no sabor e maciez da carne.  As matrizes possuem extrema habilidade materna, docilidade e a capacidade de, em cruzamentos, transmitir estas características para qualquer outra raça. Ainda não vi cruzamentos com caracu que tenham piorado as raças originais, sempre para melhor. É realmente um Taurino genuinamente brasileiro.

O Caracu fez uma grande contribuição ao melhoramento genético dos rebanhos brasileiros, até 1970, mais ou menos, mas com achegada das raças taurinas e européias ele perdeu um pouco de espaço, chegando mesmo quase a desaparecer dos criatórios brasileiros. Você pode nos explicar porque isso aconteceu? Tem a ver com a chegada e explosão do Nelore?

Renato: A raça Caracu era muito difundida desde o início do século XX, o que fez com que ela estivesse presente em quase todo território nacional, sendo utilizada inicialmente para trabalho de tração nas carroças, arados, transportes de madeiras e tudo mais. Animais de porte continental, extrema força e resistência e que também tinham a capacidade de produzir leite e carne de boa qualidade.Esta dupla aptidão existe até os dias de hoje, mas, com trabalhos de melhoramentos genéticos separados e objetivando a produção de carne e leite em rebanhos distintos. A associação dos Criadores de Caracu foi criada em 1916 e no início dos anos 60, com a importação de outras raças Europeias e Indianas (principalmente o Nelore) a raça perdeu força, talvez pelo modismo e entusiasmo com a chegada de raças novas ao Brasil e quase se extinguiu. A Associação dos Criadores,na época localizada em São Paulo, foi fechada. Alguns rebanhos criados por tradicionais famílias da região Sul, São Paulo e Minas Gerais é que persistiram na criação do Caracu e mantiveram vivo este imensurável banco genético. A Associação foi reaberta em 1983, devolvida para os criadores, tendo sua sede transferida para Palmas no Paraná onde está até os dias de hoje. Nestes estados citados acima os criadores deram início a uma nova era na raça Caracu, objetivando modernização dos padrões raciais e principalmente trazer o Caracu para um modelo mais eficiente de seleção, visando atender as demandas do mercado de carne e leite. Uma série de atitudes neste sentido foram implementadas e hoje podemos ver a evolução da raça com padrões bem funcionais, o que está colocando o Caracu novamente em evidência. 

No entanto, muitos pecuaristas, que começaram a desejar criar raças que atendessem aos padrões de consumo dos europeus com carne mais macia, devido ao marmoreio, voltaram-se para as raças europeias. Houve um resgate do Caracu para entrar nas pistas de novo como uma raça com grande potencial melhorador das que aqui já estavam e das que estavam chegando. Quando é que se deu isso?

Renato: Este resgate se deu a partir da criação da nova ABC Caracu, com atitudes que visavam tornar o Caracu atrativo para os novos rumos da pecuária nacional. Animais mais precoces sexualmente, com potencial de ganho de peso em menor tempo, com melhor conversão alimentar, com deposição de gordura e marmoreio, sem perder as características já conseguidas em quase 500 anos de seleção natural. Era preciso trabalhar na evolução com muita responsabilidade, sem descaracterizar a raça, descartando tudo aquilo que a natureza já havia conseguido. Posso dizer que o Caracu foi “forjado” nas mais inóspitas condições, é realmente uma raça sobrevivente.Cabia a nós criadores, a partir daí, procurar um caminho seguro para esta evolução. Hoje nos orgulhamos do que construímos na raça Caracu. No final dos anos 90 até aproximadamente em 2005, junto ao MAPA, introduzimos o “gen” Mocho na raça Caracu de forma oficial, com abertura para cruzamentos com raças mochas afins. Foram resgatados rebanhos de gado “Mocho Nacional”, muito similares aos Caracu e por isso,utilizados neste cruzamento, objetivando desenvolver a variedade mocha do Caracu. Outras raças também foram utilizadas, como a raça Romosinuano, Colombiana de origem, através da importação de sêmen e reprodutores. Este processo durou até aproximadamente 2005, e novamente o livro de registros de Reprodutores foi fechado para os machos da raça. Apesar do pouco tempo de utilização dos mochos fora da raça, conseguimos um expressivo resultado, bem como a aceitação por parte da grande maioria dos criadores desta nova variedade: o “Mocho Caracu”. Esta variedade tem uma característica que há muito procurávamos, a precocidade de acabamento com deposição de gordura e marmoreio. Condição que a variedade aspada (de chifres) também possui, no entanto de forma mais tardia. Isto trouxe o Caracu para o padrão moderno de carcaça, com abates de indivíduos puros ou cruzados aos 20 meses com peso variando de 20 a 21 @. Animais extremamente competitivos para o mercado de carne.

Quantos criadores a Associação do Caracu tem hoje, e isso representa quantas cabeças?

Renato: Temos pouco mais de cem criadores com rebanhos registrados, durante esta nova fase da ABCC chegamos a ter mais de 250 criadores que foram se desligando por motivos diversos, mas, que na sua grande maioria, continuam criando caracu. Dentro do grupo que está trabalhando com animais registrados, encontramos criadores em praticamente todos os estados do Brasil, focados no melhoramento genético e com sérios trabalhos de evolução da raça.

Qual a produtividade média de carne e de leite que essa raça entrega para nossa balança comercial, anualmente?

Renato: Ainda não temos escala de animais puros para oferecer ao mercado, seja na produção de carne ou leite, que possa atender a grande demanda ou influenciar na balança das negociações, no entanto, o gado oriundo do cruzamento do Caracu, seja com zebuínos ou taurinos, já está presente em frigoríficos de renome nacional. Hoje a procura por bezerros mestiços de caracu para recria e engorda é cada vez maior, são animais com desempenho no ganho de peso e acabamento, se confinados então, os resultados que obtivemos até aqui mostram ótima conversão alimentar, o que dá um acabamento de carcaça em curto espaço de tempo. A fêmea oriunda deste cruzamento, F1 Caracu/Nelore, é muito cobiçada por sua extrema precocidade sexual e habilidade materna, tornando-se uma opção para utilização como receptoras ou matrizes para cruzamento Tricross. Estamos implementando algumas atitudes na ABC Caracu, visando modificar o cenário da oferta de animais puros para abate no intuito de atender esta demanda de consumo da carne gourmet com certificação e selo da raça. Já temos em Cuiabá no Mato Grosso, uma Casa de carnes especializada em carne de Caracu, URUS STEAKHOUSE, com restaurante de alto nível servindo carne de animais puros caracu com exclusividade. 

Ou ainda é mais usada somente para o melhoramento genético mesmo? 

Renato: Trabalhamos com o programa Geneplus para orientar e aperfeiçoar nossa seleção genética, uma ferramenta precisa e moderna que muito nos auxilia para direcionar nosso trabalho na fazenda. Visto isso, podemos dizer que a raça Caracu hoje está num patamar de qualidade genética para produção de carne de qualidade, igual ou superior a muitas raças utilizadas no Brasil. Nos cruzamentos, nossos reprodutores ou matrizes, são capazes de transmitir todas as qualidades que ressaltamos acima. Estamos trabalhando para dar maior visibilidade ao nosso trabalho de melhoramento genético, com dados estatísticos e índices que possam trazer confiança aos produtores de carne para a utilização dos reprodutores Caracu em seus rebanhos. Além do programa já citado, temos parcerias com institutos de pesquisa tais como o Instituto Federal do Paraná (IFPR), Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IAPAR) e Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE) e para trabalhos com rebanhos experimentais o Instituto de Zootecnia (IZ) Sertãozinho em São Paulo e Embrapa Gado de Corte no Mato Grosso do Sul, estes, vem desenvolvendo há algum tempo, trabalhos relevantes para nossa melhoria genética. Deixo aqui, sem medo de errar, uma recomendação: RAÇA CARACU, podem usar sem moderação.

Além de corte, o Caracu também se destina à produção de leite. É uma produção significativa para a nossa produção pecuária? Qual é a aptidão mais natural dessa raça, corte ou leite? Quais as são as características das vacas Caracu destinadas à cria e recria, visando à produção leiteira? Cresce também o interesse dos pecuaristas pelo Caracu leiteiro? 

Renato: Em pequena escala, temos o leite da vaca Caracu produzindo queijos de alta qualidade. Praticamente o rebanho leiteiro do Caracu só está presente em Minas Gerais, região de Poços de Caldas.  Os trabalhos a partir de 1983 quando a ABCC foi recriada se direcionaram mais no desenvolvimento da pecuária de corte. Apesar da qualidade do leite da vaca Caracu o interesse por esta atividade diminuiu, mesmo sabendo que a raça produz um leite sustentável com pouca ou nenhuma suplementação alimentar, tornando sua produção mais barata. Atualmente alguns produtores de leite têm procurado a Associação para obter informações sobre o Caracu leiteiro, uma procura ainda muito tímida, mas que não deixaremos de dar atenção a esta variedade leiteira e incentivaremos sempre a sua melhoria genética e de incremento na multiplicação deste rebanho.


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