Aditivo pode substituir antibióticos na dieta de bovinos

Agronegócio

Aditivo pode substituir antibióticos na dieta de bovinos

Como promotores de crescimento, eles já não são aceitos na carne comercializada na Europa e geram discussão nos Estados Unidos
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A polêmica sobre usar ou não antibióticos para melhorar o desempenho animal vem ganhando corpo nos últimos anos. O mercado europeu já proíbe a utilização dessas moléculas como promotoras de crescimento, e nos Estados Unidos a pressão vinda dos consumidores obriga grandes redes a tomar uma posição.

Em 2015, o McDonald's deu prazo de dois anos para deixar de comprar frangos criados ingerindo antibióticos. Entre as razões está a controversa resistência cruzada – que poderia ocorrer diante do consumo de antibióticos compartilhados por animais e seres humanos, e com isso selecionar superbactérias. Os antibióticos são usados tanto para tratar doenças como para acelerar o crescimento de aves, suínos e bovinos. 

O cenário abre espaço para novas tecnologias, como os anticorpos policlonais, que inibem o crescimento de bactérias indesejadas. Geraldo Balieiro, pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), explica a diferença em relação aos antibióticos: “Existem algumas bactérias, como o Streptococcus bovis, por exemplo, que produzem ácido lático no rúmen dos bovinos e provocam acidose. O processo, que diminui o pH ruminal, deixa o animal doente e pode até levar à morte. Os antibióticos matam essas bactérias, mas matam também algumas que são benéficas”, afirma o pesquisador. Por ter ação específica, o anticorpo só age sobre um alvo pré-determinado.

Com patente em processo de análise pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), assim como inclusão de matéria-prima na lista de ingredientes permitidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o produto desenvolvido por Balieiro contra o Streptococcus bovis foi testado em animais da raça Nelore cuja dieta era de 85% de concentrado e 15% de bagaço de cana.

O resultado surpreendeu: “Nós fizemos a pesquisa imaginando que se conseguíssemos resultado equivalente em relação ao desempenho animal já estaríamos satisfeitos por evitar o uso dos antibióticos, mas conseguimos um ganho de peso superior no final do confinamento”, conta o pesquisador da Apta. O tratamento controle com antibióticos continha moléculas de monensina e a virginiamicina, os principais aditivos usados na dieta tanto em pastagem como em confinamento no Brasil.

Desenvolvimento - Na prática, Balieiro diz que o uso dos anticorpos policlonais é vantajoso porque eles encontram microrganismos específicos no rúmen e inibem seu crescimento, favorecendo a saúde e desempenho animal sem o uso de antibióticos.

“A questão é que precisamos de galinhas poedeiras para produzir os anticorpos IgY na gema do ovo, já que eles são diferentes das imunoglobulinas dos mamíferos, e não é possível sintetizar o anticorpo em laboratório”, diz o pesquisador. Por tratar-se de material biológico, ele depende da resposta imunológica de um organismo vivo para ser originado. Os anticorpos depositados nas gemas dos ovos das galinhas são coletados para compor o aditivo natural.

Comercialização - No momento, a Apta está negociando parceria com a iniciativa privada para o desenvolvimento do produto em escala comercial. De acordo com Balieiro, a expectativa é conseguir substituir parte da demanda por antibióticos com finalidade de melhorar o desempenho animal, e ter custos reduzidos. “No Brasil, não existe granja de poedeiras com porte suficiente para atender todo o rebanho nacional, mas num primeiro momento será viável desenvolver o produto para atender ao menos uma parcela. O importante é continuar pesquisando”, afirma Balieiro.

Segundo ele, embora o uso de antibióticos como promotores de crescimento seja permitido no Brasil, mais cedo ou mais tarde isso deve mudar, e antes mesmo que aconteça é preciso estar pronto para atender a uma demanda que já é real em outras partes do mundo.

A pesquisa deve ser publicada em um periódico científico em breve, possibilitando a divulgação de maiores detalhes. Geraldo Balieiro é pesquisador da Apta Polo Regional Centro Leste, em Ribeirão Preto.


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