Agronegócio vê supersafra e freada em 2005

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Agronegócio vê supersafra e freada em 2005

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Os produtores agrícolas iniciam o ano com a estimativa de uma supersafra, mas com o ânimo baixo. "O ano de 2004 termina com tristeza e o de 2005 promete apenas esperanças." Assim o paranaense José Pitoli, há 25 anos no agronegócio, define o momento atual do setor. Segundo ele, "nunca tivemos uma virada de ano com tanta apatia".

Fernando Muraro, da Agência Rural de Curitiba, há 15 anos nesse setor, não tem grandes esperanças para 2005. "Vai ser um ano de muitas notícias para o produtor, mas a maioria delas, infelizmente, não será boa".

Essa não é, no entanto, uma opinião generalizada. Victor Abou Nehmi Filho, da FNP Consultoria & Agroinformativos, diz que o setor de agronegócio volta a crescer neste ano. O saldo externo agropecuário, que atingiu US$ 33 bilhões em 2004, deve subir para US$ 35 bilhões neste ano nas contas dele. Pitoli, mais pessimista, diz o setor não repete o desempenho de 2004.

Para Anderson Galvão, da Consultoria Céleres, de Uberlândia, "não será um ano de crise, mas de ajustes". Segundo ele, o jogo estava fácil demais e atraiu muitos participantes. A redução da margem de lucro no setor deverá forçar a saída desses "novos entrantes". Galvão classifica como "novos entrantes" advogados, médicos e outros profissionais liberais que foram atraídos pelos ventos favoráveis da agropecuária nos últimos anos.

O produtor tradicional e eficiente, que usa mais tecnologia, vai continuar. "Vai ganhar menos, em vistas das novas condições do setor, mas vai ganhar", diz Galvão. Com isso, ele prevê concentração maior na produção agropecuária.

O agronegócio terá duas faces bem distintas neste ano. Os produtores de grãos sofrerão os efeitos da forte redução nos preços no mercado internacional e da alta nos custos internos de produção. Antonio Ernesto Salvo, presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), diz que a palavra de ordem é prudência e que os produtores devem passar o ano fazendo contas.

Já para os produtores de carnes, o cenário não deverá ser tão ruim. Há uma forte demanda externa, os preços estão em alta e a queda nas commodities reduzirá os custos de produção. Este setor, um dos principais do agronegócio no ano passado, deverá manter a mesma importância neste ano.

Novos produtos:

Nehmi acredita que o saldo da balança comercial perde força em alguns itens, principalmente nos grãos, mas ganha em outros como no de álcool, açúcar e couros. Esses produtos, além de aumento no volume exportado, devem render mais divisas porque os preços externos estão em alta.

Mesmo o setor de grãos, que está com preços em queda, poderá ter recuperação. A elevação dos custos na produção dos Estados Unidos deverá fazer os norte-americanos colocarem o pé no freio e a safra de soja não deve repetir os 85,7 milhões de toneladas do ano passado, diz Nehmi.

Leonardo Sologuren, da Céleres, diz que até o setor de milho, que concorre com safra recorde de 298 milhões de toneladas nos Estados Unidos, deve manter bom desempenho no mercado externo e conseguir receitas de US$ 450 milhões neste ano, um pouco abaixo das de 2004.

Mas ainda que o mercado externo continue favorável aos produtos brasileiros, a renda aferida não será igual à do ano passado. Os custos de produção subiram 25%, em média, e os preços externos tiveram queda de até 30%. Se 2005 será um ano de queda de renda, o de 2004 foi o melhor dos últimos tempos para os produtores. Essa oportunidade, no entanto, não foi aproveitada por todos.

"Quem especulou perdeu dinheiro. Quem não especulou ganhou muito", segundo Nehmi. O ano passado foi marcado por uma inversão no comportamento dos preços. Contrariando o que ocorre normalmente no mercado, os preços foram recordes na safra, mas despencaram na entressafra.

Com os preços aquecidos na safra, parte dos produtores deixou de vender neste período em busca de melhores preços na entressafra. A recomposição dos estoques mundiais, devido à supersafra norte-americana, derrubou os preços internacionais, afetando também os internos.

Para Pitoli, os produtores capitalizados foram os que mais deixaram de ganhar. Sem a pressão das contas para pagar, seguram o produto para comercializar na entressafra. Já os que tinham contas para pagar, acabaram vendendo o produto na alta.

Pitoli diz que os produtores devem aprender a negociar melhor seus produtos e ficar atentos ao mercado internacional. "Hoje deve-se levar em conta o conceito global de safra e não apenas a produção local." A soja é um caso típico. O produto chegou a atingir R$ 54 por saca no segundo semestre do ano passado, mas recuou rapidamente quando foi confirmada a safra de 84 milhões de toneladas nos Estados Unidos, diz.

Fator de volatilidade:

Nehmi acrescenta um novo fator de sobe-e-desce repentino nos preços: os fundos de investimentos. Com a queda nos juros nos Estados Unidos, os fundos passaram a participar ativamente dos mercados agrícolas, "trazendo forte volatilidade ao setor".

Até poucos anos, os "traders" tinham grande importância no mercado internacional, e os preços subiam com certa lógica porque eles levavam em conta estoques, consumo e produção. Hoje, 70% dos contratos negociados nas Bolsas são de responsabilidade dos fundos de investimentos. Esses fundos entram e saem do mercado constantemente, provocando fortes alterações de preços.


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