Grãos

Argentina perde um “Paraná inteiro” na safra de grãos

Bolsa de Comércio de Rosário prevê safra 17 de milhões de toneladas abaixo do previsto
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“O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Foi assim que o poeta portenho Enrique Discépolo definiu o ritmo mais tradicional da Argentina. A melancolia, neste ano, poderá buscar inspiração nas lavouras do país vizinho, terceiro maior produtor de grãos do mundo.~

Dados da Bolsa de Cereais de Rosário (BCR) divulgados nesta quinta-feira (15) apontam que a quebra pela seca, somente na soja, deverá chegar a 17 milhões de toneladas, quase toda a produção da leguminosa no Paraná no mesmo ciclo - de 19 milhões de toneladas, segundo estimativa do Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura. As perdas argentinas remontam também a mais que toda a produção de soja e milho do Paraguai (9,5 milhões de toneladas e 3 milhões, respectivamente).

No ano passado, foram as chuvas que castigaram a Argentina. As estimativas iniciais apontavam para uma produção de 60,8 milhões de toneladas de soja, mas o resultado ficou em 57,5 milhões de toneladas. Dessas, mais de 3 milhões ficaram debaixo d’água, substância que está faltando nas lavouras nesta safra.

Vivendo a pior seca dos últimos 30 anos, que dura desde novembro do ano passado, as estimativas para a safra 2017/18 não param de cair. Segundo a Bolsa de Rosário, será uma das piores campanhas da história: apenas 40 milhões de toneladas de soja. No caso do milho, a previsão é 32 milhões de toneladas, 3 mi de t abaixo do previsto. A escassez de água atinge mais de 1 milhão de hectares.

O Ministério da Agroindústria e a Bolsa de Cerais de Buenos Aires são otimistas e falam numa colheita entre 42 e 44 milhões de toneladas. Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aposta numa colheita de 47 milhões. Muito acima do mercado, que já fala em apenas 38 milhões de toneladas. Mas não importa a fonte, o certo é que o sol atrasou o plantio, prejudicou o desenvolvimento da planta e deixou os produtores desolados. “Não tem boas notícias. Será a pior safra dos últimos 10 anos. E a colheita nem começou. O cenário pode mudar”, diz Cristian Russo, chefe do departamento agrícola da Bolsa de Rosário.

Segundo Russo, a situação é complicada e não há um horizonte muito animador. “A produtividade média na safra passada foi de 3.125 kg por hectare. Neste ano, quando as colheitadeiras mal começaram a trabalhar, há produtores que esperam médias de 2.300 kg. E não há previsão de grandes volumes de chuvas até o fim de março, o que poderia reverter a situação em algumas províncias do país”, explica.

Impacto econômico

A Bolsa de Cereais de Rosário afirma que a quebra da safra argentina está estimada, até o momento, em US$ 6,5 bilhões. “Esse volume representa 0,7% do PIB projeto para 2018”, diz Emilce Terré, chefe do departamento econômico da BCR. O governo argentino, que até o ano passado projetava um crescimento de 3,4% em 2018, está revisando os números para 3%, por causa da seca. “O impacto direto, só para os produtores, será de US$ 1,5 bi. O restante será sentido pela cadeia de logística, alimentos, exportação e outros setores que estão diretamente ligados com o campo”, explica. A queda em produção também resultará numa redução de 21% nas exportações, em volume. A Argentina é o maior exportador de farelo e óleo de soja do mundo.

Para Emilce, as perdas na Argentina têm sustentado as cotações em Chicago, embora as perdas no país já estejam precificadas. “Há muito tempo o mercado vem especulando com a safra do país, o que tem sustentado bons preços. Neste momento, acredito, as cotações vão estar em sintonia com o plantio e o desenvolvimento da safra americana. Há chances de repique por causa da nossa safra? Há. O USDA trabalha com uma quebra bastante conservadora. Talvez aja um choque quando as projeções deles para Argentina caia ainda mais”, opina.

Resposta

Com um cenário como esse, como incentivar o produtor a continuar acreditando na atividade? Nesta semana, o governo da Argentina anunciou uma série de medidas para atenuar o impacto da crise. O Banco Central do País, por exemplo, vai aumentar o prazo para quitação de débitos agrícolas.

Segundo o Ministério da Agroindústria, o governo vai anunciar um pacote de medidas para que os produtores possam tomar crédito com um prazo de carência maior e com mais benefícios fiscais. “A medida é essencial para dar ânimo aos produtores, principalmente para a safra de trigo, uma cultura importante para o país”, diz Emilce Terré.
 

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