Aumento na exportação de soja prejudica indústria
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Agronegócio

Aumento na exportação de soja prejudica indústria

Empresas que atuam na produção de óleo e farelo estão com capacidade ociosa
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As indústrias do complexo de soja diminuíram o ritmo de esmagamento do grão mais cedo este ano pela falta do produto. Isso ocorreu, principalmente, em função do aumento da exportação in natura. O que deveria começar a acontecer este mês foi antecipado para agosto. De fevereiro a setembro deste ano, o esmagamento acumulado no Brasil foi de 19,6 milhões de toneladas de soja, enquanto que em 2005, no mesmo período foram processadas com 21,3 milhões de toneladas do grão, o que corresponde a 8% menos.

A conseqüência disso é que a maioria das indústrias brasileiras está com sua capacidade ociosa e algumas já pensam em adiantar as férias coletivas de seus funcionários, que geralmente ocorrem em dezembro. Outras estão trabalhando com capacidade produtiva reduzida. É o caso da ABC Inco, que tem condições de esmagar 600 mil toneladas/ano e está operando com 450 mil toneladas soja/ano, o que representa cerca de 20% menos do previsto.

De acordo com o secretário geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Fábio Trigueirinho, o menor volume processado acarreta na diminuição do nível de emprego. Segundo ele, a cada R$ 1 milhão gerados a mais na produção da indústria de óleos vegetais são criados algo em torno de 75 novos empregos. "Estamos exportando mão-de-obra ao deixar de processar internamente a matéria-prima por questões tributárias", disse.

A Abiove possui 12 empresas associadas e a redução no ritmo de esmagamento é uma realidade em todas elas. Assim como em 2005, a previsão é que a exportação de soja em grão seja maior do que de farelo e óleo. Em 2005 foram comercializados no mercado internacional cerca de 22,4 mil toneladas de grãos. Para este ano, a previsão é que sejam mais 25,2 mil toneladas.

O diretor-presidente da ABC Inco, Luiz Gonzaga Maciel, atribui o problema à política brasileira de exportação no complexo da soja, que mudou após a Lei Kandir. Segundo ele, a legislação beneficia a comercialização da soja in natura em detrimento aos produtos industrializados. "Por lógica, o farelo e o óleo deveriam receber mais incentivos no processo de exportação por causa do valor agregado que possuem. Isso redundaria em um salto da balança comercial muito melhor para o País do que a situação do grão", justificou.

Fábricas pedem revisão da planilha de tributação

O diretor-presidente da ABC Inco, Luiz Gonzaga Maciel, ressalta que a questão tributária do Brasil precisa ser revista. Segundo ele, está havendo um processo de desindustrialização e isso vai culminar no fechamento de muitas fábricas e investimentos parados, o que, conseqüentemente, provocará desempregos.

Luiz Gonzaga diz que esta situação é totalmente incoerente e incompatível com a política do próprio presidente que afirmou que vai partir para uma política agressiva de desenvolvimento. "Para que ele consiga isso terá que corrigir distorções dessa natureza", antecipou.

Antes da Lei Kandir, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) era de 13% para exportação de grãos, 11% para farelo e 8% para o óleo de soja. Após a legislação, o imposto para a exportação do complexo de soja foi diferido e a soja in natura passou a ser mais competitiva. Diferentemente do Brasil, a Argentina está trabalhando com uma política inversa, privilegiando a exportação de farelo e óleo. Essa iniciativa fez com que o país vizinho se tornasse um grande exportador da América do Sul de produtos agregados da soja. Na contramão, o Brasil se tornou exportador de matéria-prima. "Esta é uma situação extremamente absurda porque estamos exportando empregos", disse Luiz Gonzaga.

Se não fosse suficiente, a Argentina está criando mais uma legislação interna para permitir importação de soja de outros países. Atualmente, a capacidade industrial deste país está ociosa por falta de matéria-prima. Conforme Luiz Gonzaga, com essa nova legislação complementar, a Argentina vai começar a importar soja do Brasil para industrializar e depois exportar o óleo e o farelo. "Isso vai piorar ainda mais a situação da indústria brasileira. O Brasil vai se tornar um quintal para a Argentina se algo não for feito", previu.

Por meio da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo Vegetal (Abiove), as indústrias estão lutando junto ao governo para ver se conseguem inverter essa situação e corrigir a distorção. O esmagamento da próxima safra começa em janeiro e se o problema persistir, Luiz Gonzaga acredita que o Brasil passará a produzir soja para a Argentina.

Sojicultor reteve produção

O executivo da ABC Inco, Luiz Gonzaga Maciel, descarta a possibilidade de que o problema de redução no esmagamento da soja esteja relacionado ao fato de alguns produtores terem estocado grãos à espera de um preço melhor.

O produtor rural, Getúlio Feliciano Guimarães, planta soja há 30 anos em uma área de 1,6 mil hectares. Ao contrário dos últimos dois anos, esse ano ele estocou parte da produção e acha que o resultado foi satisfatório. As 4,8 mil toneladas de grãos terminaram de ser comercializadas em outubro e o preço da saca, que foi vendida no início por R$ 23,50, chegou a R$ 28.

Getúlio Feliciano termina o plantio da próxima safra no fim deste mês e calcula que a colheita comece a partir da segunda quinzena de março. Geralmente o produtor comercializa 90% da sua produção com as indústrias e o restante entrega para corretores que negociam com outras indústrias ou com granjas. Ele acredita que a redução do esmagamento de soja pelas indústrias neste ano se deu em função da exportação de grãos. Para ele, o fato de os produtores optarem por estocar os grãos é benéfico para as indústrias, que não têm despesas de armazenagem.


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