Avaliação Nacional de Vinhos 2026 revela impacto do clima e recuperação da produção
Safra de uvas no RS deve crescer 19,3% apesar das chuvas abaixo da média
A 34ª Avaliação Nacional de Vinhos reuniu profissionais e convidados em Bento Gonçalves (RS). - Foto: Mario Ieggli
Antes de chegar às taças da 34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026, realizada em 17 de outubro, em Bento Gonçalves (RS), a produção vitivinícola brasileira passou por um ciclo agrícola marcado por variações climáticas, períodos de estiagem e diferenças no desenvolvimento das videiras.
Durante o evento, promovido pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), informações técnicas sobre o comportamento do clima e a evolução da produção ajudaram a contextualizar a safra que deu origem às 16 amostras representativas apresentadas ao público.
Mais do que conhecer os vinhos selecionados, os dados permitem compreender o trabalho realizado nos vinhedos e os fatores que influenciaram a quantidade e a qualidade das uvas colhidas.
Do inverno à colheita: o comportamento do clima
O ciclo produtivo 2025/2026 foi influenciado pela continuidade do fenômeno La Niña, com condições distintas ao longo das estações.
Durante o inverno de 2025, embora as temperaturas tenham permanecido próximas ou ligeiramente acima da média em determinados períodos, houve acúmulo significativo de horas de frio, fator importante para o desenvolvimento fisiológico das videiras.
Na primavera, as precipitações não comprometeram de maneira generalizada a sanidade dos vinhedos durante as fases de brotação e floração. Entretanto, a partir de novembro, períodos de seca moderada a severa passaram a caracterizar o ciclo produtivo.
No verão de 2026, as temperaturas ficaram próximas das médias históricas, enquanto as chuvas permaneceram abaixo da média, especialmente até fevereiro.

Anomalias de precipitação no primeiro trimestre de 2026 em comparação com a média histórica de 1991 a 2020. Fonte: INMET. Foto: Acervo Agrolink.
As condições climáticas contribuíram para prolongar o ciclo de desenvolvimento das uvas e atrasar a colheita em determinadas regiões.
Apesar das adversidades, a avaliação técnica apresentada durante o evento destacou a presença de uvas sadias, qualidade enológica elevada e aumento do volume produzido.
Produção gaúcha apresenta recuperação expressiva
O Rio Grande do Sul, principal estado produtor de uvas destinadas à industrialização no Brasil, apresentou recuperação significativa nos volumes de produção.
Segundo os dados apresentados na Avaliação Nacional, a estimativa para a Safra 2026 é de 918,2 milhões de quilos de uvas destinadas ao processamento industrial, crescimento de 19,3% em relação aos 769,4 milhões de quilos registrados em 2025.
A recuperação torna-se ainda mais expressiva quando comparada ao desempenho de 2024, ano em que a produção ficou em aproximadamente 486,9 milhões de quilos.
Em relação à média dos últimos quatro anos, o volume estimado para 2026 representa um avanço de 40,8%.

Legenda: Estimativa de produção de uvas destinadas à industrialização no Rio Grande do Sul aponta crescimento de 19,3% em 2026. Fonte: SISDEVIN/SEAPI-RS. Foto: Acervo Agrolink.
Os números demonstram a dimensão da recuperação produtiva e a importância das condições agrícolas para o abastecimento das vinícolas, cooperativas e demais segmentos da cadeia vitivinícola.
Qualidade enológica começa no campo
A relação entre as condições agrícolas e o potencial enológico das uvas foi um dos aspectos destacados nas informações técnicas apresentadas durante a Avaliação Nacional.
O desenvolvimento das videiras, a disponibilidade hídrica, a temperatura e o estado sanitário dos cachos são fatores que interferem na composição da matéria-prima destinada à elaboração de vinhos e espumantes.
Embora a ocorrência de períodos secos represente um desafio para os produtores, seus efeitos dependem da intensidade, da duração e da fase de desenvolvimento das plantas.
Por isso, a análise da qualidade de uma safra não pode considerar apenas o volume produzido ou a quantidade de chuva registrada.
No caso de 2026, os dados apresentados indicaram uma combinação de recuperação produtiva com condições favoráveis à qualidade enológica das uvas.
A evolução da qualidade também reflete as transformações da vitivinicultura brasileira ao longo das últimas décadas. Durante a abertura do evento, o presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Mário, destacou que o setor ampliou sua atuação e incorporou conhecimento e inovação.
“A vitivinicultura cresceu, se profissionalizou, conquistou novos terroirs, incorporou tecnologias…”, afirmou.
A declaração reforça que os resultados de cada safra não dependem apenas das condições climáticas, mas também da evolução técnica e dos investimentos realizados ao longo dos anos.
Da produção agrícola à avaliação sensorial
A 34ª Avaliação Nacional de Vinhos recebeu 558 amostras de 83 vinícolas, provenientes de 10 estados e do Distrito Federal. Após o processo técnico de seleção, 16 amostras representativas foram apresentadas e comentadas durante a degustação.

A Avaliação Nacional de Vinhos 2026 recebeu 558 amostras de 83 vinícolas, representando 10 estados e o Distrito Federal. Foto: Acervo Agrolink.
O evento estabelece uma conexão entre o trabalho realizado nos vinhedos e a análise dos vinhos elaborados a partir da colheita.
Enquanto os indicadores agrícolas permitem compreender as condições em que as uvas foram produzidas, a avaliação sensorial oferece uma perspectiva sobre o potencial enológico da safra.
Para o presidente da ABE, a importância da Avaliação Nacional ultrapassa a dimensão do evento.
“Mas a nossa maior conquista não está somente nos números que alcançamos a cada ano e na dimensão que é este grande evento, mas sim na evolução que acompanhamos na vitivinicultura brasileira a cada safra que passa.”
A edição de 2026 também marcou os 50 anos da Associação Brasileira de Enologia, entidade que acompanha e contribui para o desenvolvimento técnico do setor.
“Este é um ano histórico, 2026, onde a Associação Brasileira de Enologia completa 50 anos. Cinco décadas, senhoras e senhores. São cinco décadas de trajetória construída por gerações de profissionais que acreditaram no potencial do vinho brasileiro”, destacou o presidente.
A edição de 2026 evidenciou, assim, uma característica importante da vitivinicultura: o resultado apresentado na taça é consequência de um processo que começa no campo, passa pelo manejo dos vinhedos e pelas condições climáticas e se completa com o trabalho de elaboração nas vinícolas.
A Safra 2026 deixa como destaque não apenas a recuperação dos volumes produzidos, mas também a importância do conhecimento agronômico e do acompanhamento climático para a qualidade da produção vitivinícola brasileira.
Próxima edição já tem data marcada
A próxima Avaliação Nacional de Vinhos será realizada em 23 de outubro de 2027. Uma oportunidade única de participar da maior degustação simultânea de vinhos de uma mesma safra do mundo.
Fonte: Informações técnicas e declarações apresentadas durante a 34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026, realizada em 17 de outubro de 2026, em Bento Gonçalves (RS).