Os bioinsumos para uso animal podem ampliar as alternativas de controle de parasitas na pecuária brasileira, que perde cerca de US$ 3,2 bilhões por ano devido a desafios sanitários associados ao carrapato bovino. Apesar do potencial tecnológico, a expansão do segmento depende de uma regulamentação específica para o registro desses produtos, atualmente em discussão no âmbito da Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024).
O avanço da resistência aos carrapaticidas químicos e a demanda por sistemas de produção mais sustentáveis aumentam a busca por soluções biológicas. No entanto, a ausência de regras específicas para o uso desses produtos na pecuária dificulta sua regularização e o acesso dos produtores às novas tecnologias. “Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos”, afirma Caio Monteiro, pesquisador na área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Os bioinsumos de uso animal abrangem produtos e processos de origem biológica, principalmente à base de microrganismos e seus metabólitos, utilizados na produção pecuária e aquícola. Essas tecnologias buscam melhorar a saúde, o bem-estar e a eficiência produtiva, com atenção à segurança e à qualidade industrial.
A base tecnológica é semelhante à dos bioinsumos agrícolas, com a utilização de organismos benéficos, como fungos e bactérias. A principal diferença está na aplicação: enquanto os produtos agrícolas atuam sobre plantas, solo e organismos fitopatogênicos, os de uso animal interagem diretamente com os animais ou com o ambiente em que vivem.
Entre as alternativas em desenvolvimento estão fungos entomopatogênicos capazes de infectar carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento, com aplicação direta nos animais e nas pastagens.
Também são pesquisados bacteriófagos, vírus que infectam bactérias, como aditivos zootécnicos para prevenir infecções do trato gastrointestinal em aves, suínos e bovinos. Essas soluções apresentam potencial para substituir ou reduzir o uso de antibióticos em determinadas aplicações.
Além de diminuir a dependência de produtos químicos, os biológicos podem reduzir os impactos sobre organismos não-alvo e o risco de resíduos químicos nos alimentos de origem animal. “O uso de biológicos na produção animal possui enorme potencial, principalmente onde os problemas não têm solução eficiente disponível”, ressalta Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences.
Resistência a carrapaticidas pressiona o manejo sanitário
A perda progressiva de eficácia dos antiparasitários químicos, associada à seleção de populações resistentes, representa um dos desafios para o controle do carrapato bovino. O uso inadequado desses produtos também pode aumentar o risco de resíduos nos alimentos e gerar impactos sobre a comercialização.
Segundo Queiroz, as alternativas biológicas podem contribuir para reduzir o uso de produtos químicos e os riscos associados à disseminação de organismos resistentes, inclusive bactérias multirresistentes, por meio da alimentação ou do manejo.
As exigências de controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos também têm repercussões no comércio internacional. O material divulgado pela entidade relata que, no início de setembro, a União Europeia suspendeu temporariamente a entrada de produtos brasileiros de proteína animal no bloco, com base nas regras europeias para o uso dessas substâncias.
Para Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio, esse cenário reforça a necessidade de alternativas eficazes, seguras e sustentáveis para o manejo sanitário da pecuária.
Apesar do avanço tecnológico, o segmento ainda não dispõe de regulamentação específica para o registro de produtos biológicos destinados ao controle de parasitas na pecuária. A consolidação do mercado depende, portanto, da definição das regras para aplicação da Lei dos Bioinsumos, sancionada como Lei nº 15.070/2024.
Segundo as informações divulgadas pela ANPII Bio, a regulamentação segue em discussão a partir da minuta de decreto encaminhada por meio do Ofício nº 440/2025/DSV/SDA/MAPA, de dezembro de 2025. O processo inclui a construção de normas específicas para o registro dessas tecnologias.
A entidade ampliou sua atuação para incluir empresas de biológicos voltados à pecuária entre as associadas, com foco em soluções para o controle de parasitas externos. A iniciativa busca fortalecer a interlocução entre indústria, pesquisadores e instituições acadêmicas.
A ANPII Bio também participou do grupo de trabalho instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para a construção do marco regulatório, como representante exclusiva da indústria com experiência específica em soluções para controle de parasitas na pecuária. “O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação”, afirma Bonotto.
Setor propõe regras específicas para produtos de uso animal
A ANPII Bio estruturou contribuições técnicas e institucionais para que a regulamentação considere as particularidades dos bioinsumos pecuários, incluindo critérios proporcionais ao risco e estímulos à inovação.
Segundo Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à entidade, o registro desses produtos exige avaliações que vão além das normalmente requeridas para produtos agrícolas, como ensaios de eficácia, toxicologia e ecotoxicologia. Também são necessários ensaios de segurança clínica nos animais-alvo.
Entre as propostas apresentadas pela associação estão critérios para validar metodologias analíticas, adequar os requisitos de registro de estabelecimentos e reconhecer o efeito direto dos produtos sobre seus alvos biológicos.
A entidade também defende uma lista positiva de ativos biológicos autorizados para uso na pecuária, identificados em nível de cepa, além da harmonização de terminologias entre as áreas agrícola e animal.
Outra proposta prevê que produtos pecuários com efeito direto comprovado sobre parasitas e invertebrados possam informar esses efeitos em rótulos e bulas, com clareza e responsabilidade técnica. A restrição seria mantida para alegações terapêuticas ou curativas, consideradas privativas de medicamentos veterinários.
Além da atuação regulatória, a associação busca conectar instituições de pesquisa, universidades, startups e empresas de tecnologia às indústrias e aos investidores, com o objetivo de viabilizar o escalonamento industrial e a validação das soluções.
A definição de regras específicas é apontada pelo setor como uma etapa decisiva para ampliar a oferta de bioinsumos na pecuária brasileira, estimular investimentos e transformar o potencial científico em alternativas disponíveis aos produtores.