Cadeia produtiva do arroz enfrenta crise com ótimos resultados
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AGRICULTURA

Cadeia produtiva do arroz enfrenta crise com ótimos resultados

Desempenho extremamente positivo do grão em 2020 espalha otimismo em toda cadeia produtiva
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Presença constante na mesa dos brasileiros de todas as regiões do País, o arroz experimenta um desempenho extremamente positivo em 2020, que espalha otimismo em todos os braços da cadeia produtiva, apesar da crise gerada pelo novo coronavírus. No embalo da desvalorização do real frente ao dólar, as exportações do grão bateram recorde no primeiro semestre, enquanto o isolamento social e o temor de desabastecimento provocaram um aumento de demanda interna valorizando o produto e mantendo a produção industrial a pleno. 

Arroz brasileiro amplia espaço no mercado interno e ultrapassa fronteiras

Beneficiado pelo dólar na casa dos R$ 5,00 e pelo aumento do consumo global, o arroz brasileiro ganhou espaço e competitividade no mercado externo, ao mesmo tempo em que foi essencial para abastecer os consumidores nacionais ávidos por manter suas despensas cheias nos primeiros tempos da pandemia, temendo um desabastecimento geral. 

A corrida inicial aos supermercados entre março e abril - quando o temor de desabastecimento se espalhou pelo Brasil -, o aumento das ações públicas e particulares de distribuição de cestas básicas à população de baixa renda e a retomada por parte da população do hábito de preparar as próprias refeições são outros fatores que favoreceram o desenho do cenário positivo de agora.

Os resultados obtidos até agora animam o setor responsável por 50 mil empregos diretos, distribuídos por 184 indústrias e oito mil propriedades rurais instaladas no Rio Grande do Sul, e ajudam a salvaguardar parte da abalada economia gaúcha, que conforme análises recentes divulgadas pelo governo do Estado deve encolher, no mínimo, 10% este ano.

O Sumário Executivo do Arroz, divulgado pelo Ministério da Agricultura em julho, indica que, no primeiro semestre do ano, as exportações chegaram a 953 mil toneladas ao valor de US$ 266 milhões. Isso representa um aumento de 40% com relação ao mesmo período do ano passado, quando 679 mil toneladas deixaram o País movimentando US$ 169 milhões.

Somente em junho, o volume exportado chegou a 316,1 mil toneladas, o que representou um incremento de 1.108% na comparação com o mesmo mês de 2019 e, conforme os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, superou o recorde mensal de embarques registrado em dezembro de 2018 quando foram negociadas 287,1 mil toneladas. A composição das vendas para o exterior em junho deste ano foi de 27,8% de arroz quebrado, 30% de arroz em casa e 42% do grão beneficiado - os principais destinos foram países da América Latina como Costa Rica, México e Venezuela.

Aliado a este contexto favorável, os primeiros meses do ano encontraram os estoques nacionais baixos devido aos bons resultados das exportações no ano anterior, o que causou uma valorização quase imediata do produto. A saca de 50 quilos de arroz irrigado, por exemplo, começou o ano vendida a R$ 54,00 em Pelotas e, nos dias atuais, está cotada em R$ 67,00. Na indústria, a valorização foi semelhante: em fevereiro, o saco de 60kg de arroz tipo 1 Agulhinha era comercializado a R$ 115,00 no Rio Grande do Sul, e, agora, custa R$ 157,00.

"A pandemia colocou o arroz em um outro patamar e, apesar de todo o contexto, é um ano muito bom para a cadeia como um todo e que favorece a recuperação do setor", comenta Marco Aurélio Amaral Júnior, presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Arroz Parboilizado (Abiap).
O fato de o Brasil não ter paralisado a indústria de alimentos nos primeiros meses de ajuste das regras de isolamento social é apontado pelo executivo como mais um ponto a favor do grão. Com liberdade para trabalhar, as fábricas mantiveram a produção a pleno e puderam buscar ampliar suas carteiras de clientes dentro e fora do País.

Porém, afora o vírus e seus efeitos devastadores, nada disso soa como novidade aos integrantes da cadeia produtiva que já viveram dias de preços em alta, mercado em expansão e otimismo espraiado. "Em 2008, tivemos um cenário semelhante, com a tonelada do arroz vendida a US$ 1 mil e nos enganamos achando que seria um momento duradouro, mas não aconteceu a esperada corrida pelo produto e os preços despencaram", lembra Amaral Júnior.

A partir disso, o executivo defende um olhar mais crítico sobre o cenário futuro de curto prazo especialmente fora do País, pois em setembro os Estados Unidos - principal concorrente brasileiro na América Latina - começa a colher sua safra e isso irá reduzir o número de compradores em países como México, Costa Rica, Nicarágua e Porto Rico, por exemplo.

"Estamos imaginando estar subindo a ladeira, mas não houve um aumento real de consumo, somente aumentos pontuais. Acredito que o mercado está começando a voltar aos patamares anteriores então precisamos aproveitar para trabalhá-lo e ver como manter os patamares atuais sem depender da especulação", avisa.

Com ou sem aumento das plantações, corretores e indústria devem começar a procurar novos compradores para a produção 2020-2021, afinal a consolidação de novos negócios é a forma mais certeira de evitar perdas. Para isso qualidade e produtividade são pontos fundamentais que parecem atendidos tanto nas propriedades como nas fábricas.

Um dos principais nomes da ciência nacional quando o assunto é qualidade do arroz, o professor Moacir Cardoso Elias é um dos coordenadores do Laboratório de Grãos da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal de Pelotas (Labgrãos/Faem/UFPel). Ele destaca que, desde a consolidação da cadeia produtiva nos anos 1990, o arroz gaúcho evoluiu muito a ponto de ser uma referência e conquistar preferência de consumidores em todo o planeta. "A cadeia do arroz é uma das mais organizadas e muito atenta ao conhecimento produzido pelas instituições de pesquisa, isso garantiu um desenvolvimento muito rápido e qualificado, o que dá ao nosso produto atributos compatíveis com os encontrados nos melhores produtos do mercado internacional", atesta.

Conforme Elias, o salto de qualidade do produto nacional coincide com a criação do Mercosul que abriu as portas para o intercâmbio tecnológico e empresarial muito próximo, especialmente com Uruguai e Argentina, produtores reconhecidos pela qualidade de seus grãos. Aliado a isso, o pesquisador destaca a capacidade da cadeia em encontrar mercados que reconhece a qualidade do arroz brasileiro, como os países da América Latina, o que ampliou significativamente a carteira de clientes.

"Na década de 1980, o País exportava arroz quebrado para alguns países africanos e, para compor os ingredientes da fabricação de chocolates na Bélgica, hoje exportamos arroz tipo 1, o que temos de melhor", lembra. Situação semelhante é verificada com relação ao mercado nacional, no qual a produção das fábricas gaúchas domina a preferência dos consumidores. "Nos anos 1970, quando entramos no mercado da região Sudeste, os rótulos traziam o aviso 'esse arroz não empapa', o que se consolidou como marca do arroz produzido no Estado", completa Elias.

Maior produtividade e qualidade do grão são características da produção gaúcha de arroz

Uma das armas da cadeia orizícola para tentar abrir novos mercados externos, apesar da concorrência predatória dos norte-americanos, e ampliar o consumo dentro de casa, é a reconhecida qualidade do grão nacional.

Essa excelência está materializada em características como cozinhar soltinho, não ficar com o centro duro, ter sabor agradável, coloração clara e poder ser reaquecido sem perder as demais propriedades começa nas lavouras do Sul do Brasil, que na safra 2019-2020 cobriram 934 mil hectares em 128 municípios gaúchos. Somados, eles respondem por 70% da produção brasileira de arroz.

Conforme os dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), esta foi a menor área plantada nas últimas 12 safras, porém o alto nível de tecnificação e qualificação dos produtores gaúchos manteve a produtividade em alta. Na zona Sul, onde estão seis dos dez municípios com maior produtividade do Estado, a produção por hectare chegou a 10.006 kg em Rio Grande, 9.700 kg no Chuí e 9.688 kg em Capão do Leão.

Nas duas safras anteriores, a média por hectare no Rio Grande do Sul havia sido de 7.508 kg/ha (2018-2019) e 7.949 kg/ha (2017-2018), enquanto os melhores resultados da Zona Sul ficaram na casa dos 8.100 kg/ha.

O agrônomo André Matos, que há seis anos coordena a regional Zona Sul do Irga, responsável por atender 11 municípios que concentram a segunda maior área de lavouras de arroz do Estado, explica que o produtor gaúcho está cada vez mais técnico e tem adotado métodos mais qualificados de manejo das lavouras como a rotação de cultura com a soja ou a integração lavoura-pecuária.

Na década passada a rotação com a soja ocupava 11 mil hectares dos campos gaúchos semeados com arroz, este ano foram 340 mil hectares, conforme os dados do Irga. "Até a década passada, o plantio de arroz em áreas de pastagens era comum nas pesquisas, mas em áreas comerciais quase não se via; hoje, somente na Zona Sul, já ocupam 20% da área plantada", confirma Matos.

Tanto a pesquisa quanto a prática mostram que a sucessão de culturas combate ervas daninhas como o arroz vermelho, reduz a degradação e melhora a fertilidade do solo, o que acaba aumentando a produtividade e a qualidade do grão. Além disso, a opção pela soja possibilita ao produtor diversificar sua renda, que conforme lideranças do setor está em queda apesar da boa colheita e do mercado aquecido. Isso, no entanto, traz um risco embutido.

Apesar de recomendar a integração de culturas como sistema de produção adequado, o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, admite que a baixa rentabilidade do arroz frente a soja pode seduzir agricultores.
"Estamos há três ou quatro anos com preços abaixo do custo de produção, o que torna o arroz desinteressante para muitos e aumenta a migração para a soja. Hoje, estima-se que 30% da área de arroz está indo para a soja", relata.

Os custos citados por Velho são compostos, conforme metodologia do Irga, por cinco itens: despesas de custeio da lavoura (fertilizantes, sementes, etc.), outras despesas (fretes, secagens, etc.) e despesas financeiras, depreciação e renda dos fatores (pagamento da terra arrendada, etc.). Nesta safra, o custo total ficou em R$ 64,70 por cada saco de 50kg, ou seja, no momento de maior valorização do produto, sobraram R$ 2,30 por saco para o produtor.

Levantamento feito pelo Irga revela um aumento de 13,34% dos custos por hectare em relação à safra passada. Os itens que mais subiram estão relacionados ao custeio de lavoura, e foram aguador (55%), aviação (53%) e água (51,7%).

O dólar alto que favoreceu a cadeia também causou estrago no bolso dos agricultores ao puxar para cima os gastos com sementes e agroquímicos - com a desvalorização do real, a conta ficou salgada. O custo das sementes, por exemplo, subiu de R$ 179,50 por hectare no período 2018-2019 para R$ 231,41 por hectare na safra recém-encerrada, o que representa 28,9% de aumento.

Já os investimentos em agroquímicos sofreram um incremento de 20,7%, com o custo por hectare subindo de R$ 1.143,18 para R$ 1.380,61. "Este cenário obriga a ter gestão e profissionalismo, o produtor precisa lembrar que todos os negócios passaram por mudanças nas últimas décadas e se reinventar", pondera Velho.

Indústria também é beneficiada por maior demanda do grão

O bom desempenho em 2020 tem animado também a indústria instalada no Rio Grande do Sul, onde 184 empresas respondem pelo beneficiamento de 63% do arroz nacional. Juntas, elas processaram ano passado em torno de 5,7 milhões de toneladas conforme dados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).
Beneficiada pelos estoques baixos e o aumento da procura interna e externa, a indústria viu o preço do produto subir 36,5% entre fevereiro e julho, batendo nos R$ 157,00 a saca de 60 quilos. "O mercado não tem um ano igual ao outro, e este está sendo especial", declara Tiago Barata, diretor executivo do Sindicato da Indústria do Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz).

O momento atual, segundo Barata, vem compensar uma década de desvalorização do arroz comprovada pelo fechamento de 77 indústrias do setor no estado. De acordo com o executivo, a maior parte delas encerrou as atividades por dificuldade de competir para abastecer o mercado interno. "A produção de arroz no Rio Grande do Sul é uma das mais caras do mundo, enquanto no Brasil se pratica um dos preços mais baixos do globo", lamenta ele.

O novo patamar de preço, de acordo com a visão dos dirigentes da cadeia produtiva, todavia não chega a pesar no bolso dos consumidores, que estão pagando, em média, 26% a mais no quilo de arroz com relação ao final de 2019. Mesmo assim, não deixaram de procurar o produto, que, aliás, parece estar sendo redescoberto pelos cozinheiros domésticos nestes tempos de pandemia. Uma análise feita pelo Sindarroz apurou um dado curioso, mas que ilustra bem essa nova realidade: o aumento de 180% das buscas pelo termo 'como se faz arroz' no Google.

O empresário Jones Wendt, atualmente à frente da Nelson Wendt Alimentos, nona colocada no ranking das maiores beneficiadoras de arroz do Rio Grande do Sul e que mantém plantas industriais em Pelotas e Recife (PE), aponta para um aumento de 20% nas vendas internas entre março e maio, com expectativa de repetição do resultado em julho.

O preço por quilo, considerado o mais baixo entre todos os alimentos prontos no País e o acréscimo do número de pessoas que permanecem mais tempo dentro de casa devido a pandemia impulsionaram, conforme Wendt, o interesse dos consumidores pelo arroz, o que espalha reflexos positivos por toda a cadeia.

"Este aumento de demanda do arroz beneficiado ocorreu em todas empresas, e isto provocou maior procura do grão com casca dos produtores. Aliado ao aumento da demanda externa, isso valorizou o arroz com casca e os produtores recebem hoje 30% mais do que recebiam em fevereiro e, mesmo com este aumento de preços, o arroz beneficiado brasileiro ainda é um dos mais baratos do mundo", comenta.

A popularidade, a facilidade de preparo e a versatilidade são outras características apontadas pelo empresário como responsáveis por manter o produto sempre na lista dos mantimentos considerados essenciais pelos brasileiros. Um estudo encomendado pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) à Euromonitor, no ano passado, apontou para um consumo per capita de 34 quilos por ano no País - a Região Sudeste fica na liderança como aquela onde o grão é mais consumido, com 40 quilos per capita por ano.

Curiosamente, no Rio Grande do Sul, maior produtor do País, a média cai para 15,5 quilos por pessoa. Uma das explicações para isso seriam as regiões de colonização italiana e alemã, onde vivem aproximadamente 5,5 milhões de pessoas, e nas quais massa é a fonte de carboidratos culturalmente mais procurada.

A aprovação da maior parte dos consumidores serve de explicação para a oferta constante e os preços relativamente baixos de Norte a Sul do País, apesar da inexistência de agências reguladoras oficiais intervindo no mercado.

"Se você for a qualquer mercearia no interior do Nordeste ou nos mais distantes igarapés do Norte, sempre encontrará quatro ou cinco marcas de arroz, dos mais diversos tipos, qualidades e preços. E encontrará quatro ou cinco porque o dono da mercearia assim quis, pois se quisesse mais marcas, certamente teria. Somos mais do que 300 indústrias e um número dez vezes maior de produtores de arroz no País, de diversos tamanhos. É claro que há as marcas maiores. A maior empresa diz ter 12%. Na cadeia produtiva do arroz existe mercado, há muita concorrência", explana Wendt.

Trabalhadores aguardam por ganhos salariais

Se, por um lado, produtores, corretores, industriais e comerciantes celebram a valorização e o aumento das vendas do arroz, por outro, milhares de trabalhadores ainda esperam para ver qual será o ganho de quem está no chão das fábricas.

Com o dissídio assinado em julho, os trabalhadores das indústrias de arroz da região de Pelotas - onde estão seis das 10 maiores empresas do Estado - ganharam apenas a reposição da inflação. O salário dos operários de serviços gerais foi de R$ 1.379,60 para R$ 1.400,00 e o dos profissionais variou de R$ 1.545,28 para R$ 1.600,00.

"Apesar dos negócios estarem bem e a indústria do arroz ter trabalhado todos os dias desde o início da pandemia, não houve ganho algum para os trabalhadores, se alguém ganhou foram os patrões", lamenta Lair de Mattos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação de Pelotas e Região.

Para o dirigente sindical o alto índice de desemprego, que em junho chegou a 13,3% no Brasil, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), impacta negativamente sobre os salários dos empregados das arrozeiras e põe por terra qualquer expectativa de melhoria, apesar do momento positivo da cadeia produtiva. "Há um exército de desempregados dispostos a trabalhar por estes salários. Entre 2013 e 2014, quando o desemprego estava em 6%, conseguimos um ganho real de 5% sobre os salários", relembra.

A quantidade de vagas ofertadas pelo setor também praticamente não se alterou com relação ao ano passado, conforme os dados do sindicato. O número de trabalhadores fixos - aqueles que permanecem ocupados mesmo depois de encerrada a safra - segue entre 1,3 mil e 1,4 mil nas empresas locais.
Para a próxima safra, Estado deve continuar com a mesma área plantada

A virada do semestre representa para a cadeia produtiva do arroz o início de um novo ciclo. Historicamente as exportações se reduzem, os negócios passam a se concentrar no mercado nacional e, em setembro, começa a semeadura dos campos para a nova safra. É tempo de analisar desafios, projetar expectativas, estudar cenários e prospectar mercados.

Para a safra 2020-2021 já há pelo menos um mantra sendo entoado entre as lideranças: não aumentar a área plantada. A ampliação das lavouras para além do um milhão de hectares é apontada como um risco desnecessário, capaz de se refletir numa desvalorização do produto. "É um bom momento, mas é preciso segurar a euforia e não aumentar a área semeada para ajustar a oferta", declara o presidente da Federarroz, Alexandre Velho.

Produtores tradicionais como Rechsteiner se somam na defesa da necessidade de conter as plantadeiras para garantir a continuidade de uma conjuntura positiva, pois acreditam que a rentabilidade está diretamente ligada ao mercado conquistado, e o aumento da superfície de lavouras só deve acontecer quando a procura pelo arroz gaúcho tiver novo impulso.

Corretores e consultores acostumados às idas e vindas da cadeia, todavia, revelam acreditar que dificilmente se plantará menos de um milhão de hectares no próximo período. O presidente da Abiap e consultor de negócios internacionais vai na mesma linha. "O produtor teve uma produtividade que compensou a diminuição da área e agora está mais capitalizado, a tendência é de haver um aumento para além de 1,1 milhão de hectares", prevê Amaral Júnior.

A pergunta sobre qual rumo os agricultores irão tomar deverá ser respondida até o fim de agosto, quando o Irga deve lançar o relatório do índice de semeadura. Para o coordenador da regional zona Sul do instituto, André Matos, se houver aumento, não será significativo. "Não vejo uma mudança de mercado capaz de influenciar um incremento da área plantada e acredito que o pessoal aprendeu com os erros do passado", declara o agrônomo.

Crédito restrito é um dos principais problemas

Um dos principais problemas que aflige o setor e movimenta lideranças no Estado é a escassez de empréstimos públicos à disposição dos arrozeiros. No início deste ano, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) divulgou estudo sobre a descapitalização dos rizicultores. A pesquisa revela um recuo violento do crédito rural para o setor que, em 2010, era acessado por 50% dos produtores e, em 2019, só esteve ao alcance de 20%.

Neste mesmo período, o percentual de agricultores que mantinha as lavouras com recursos próprios despencou de 35% para 10%. Sem financiamento público ou dinheiro em casa para garantir o custeio da produção, grande parte dos agricultores busca recursos junto à indústria, que conforme o relatório da Farsul, hoje atende a 50% dos produtores gaúchos de arroz.

A prática gera uma dependência indesejada pelo setor primário. "É muito ruim financiar a produção com o cliente; por outro lado, boa parte só permanece na atividade porque a indústria vem segurando a lavoura", argumenta o produtor Fernando Rechsteiner.

Já o presidente da Federarroz. Alexandre Velho, acrescenta que a prática reduz o poder de barganha dos plantadores, que pagam os financiamentos pela cotação do início da safra, quando o produto ainda não está valorizado. "O arroz não tem preço pré-fixado, ficamos presos ao valor praticado pela indústria", diz.

Desde julho de 2019, representantes do setor discutem, sem sucesso, com o governo federal, a criação de um pacote de ajuda. No início de agosto, durante visita a Bagé, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu de uma comitiva de entidades representativas dos arrozeiros um documento reiterando a necessidade de se buscar soluções para a falta de crédito público aos produtores, causada principalmente pelo endividamento.

Estima-se que a dívida do setor chegue a R$ 3,5 bilhões. Entre as medidas pleiteadas, estão a renegociação dos valores vencidos há mais de um ano em novos contratos de 15 anos, com dois de carência e juros de 5% ao ano.

Analistas de mercado dizem acreditar que, no segundo semestre, o arroz em casca, que até então respondeu por 47% das exportações feitas neste ano, deve perder espaço para o grão beneficiado. Um dos motivos é a escassez de produto disponível para exportação, já que a indústria absorve a maior parte da safra.

Há, ainda, o fechamento de mercados da América Central, enquanto as fábricas gaúchas devem permanecer enviando arroz para países vizinhos como Peru e Venezuela, além de compradores tradicionais da África, o que pode manter a estabilidade dos negócios.

Existe, no entanto, alguma desconfiança com relação à capacidade de absorção do mercado internacional. "Estamos vendendo por que o Estados Unidos ainda não colheu e porque o produto deles é muito ruim, mas nossos clientes como México e países centro-americanos estão cheios de arroz", analisa o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Arroz Parboilizado (Abiap), Amaral Júnior.
Já com relação ao consumo interno, as análises e movimentos recentes do mercado mostram que a situação permanecerá favorável para a indústria e produtores mais capitalizados e que ainda possuem grãos armazenados. Os estoques, que começaram 2020 baixos, devem chegar ao final do ano igualmente reduzidos.

Um dos reflexos disso foi observado na primeira semana de agosto, quando a saca de 50 kg arroz com 63% de grãos inteiros atingiu preço recorde de R$ 80,00 no Litoral Norte. No final de julho, a saca estava cotada em R$ 73,00. Esse aumento foi puxado, basicamente, pela disputa de empresas do Sudeste do País e do Sul gaúcho sobre a produção que ainda resta livre no mercado.

O medo de uma eventual falta de matéria-prima nacional para as indústrias gaúchas fez as companhias voltarem seus olhos para cargas de arroz estocadas no porto de Rio Grande e que ainda não tinham comprador no exterior. A tática deu certo e os estoques de algumas empresas estão seguros.

A preocupação se justifica pela existência de uma cláusula de barreira que impede o Rio Grande do Sul a importar mais de 10% do que produz, como forma de salvaguardar a produção primária local. Dessa forma, o que em outras situações garantiu proteção ao agricultor, agora pode fazer a indústria perder espaço para empresas de outras regiões do País que poderão importar além dessa quantidade para atende o consumo nacional.

Nesse quadro, quem deve sentir no bolso é o consumidor comum. Uma pesquisa de mercado realizada no início de agosto pelo site Planeta Arroz, especializado em acompanhar o mercado do grão, aponta para um aumento médio dos preços do quilo do arroz entre 2% e 3,5% registrado nas últimas semanas de julho. Em Porto Alegre, conforme o aplicativo Menor Preço, do governo do Estado, o preço do saco de cinco quilos de arroz tipo 1 no varejo varia, atualmente, entre R$ 14,26 e R$ 24,69, enquanto em Pelotas fica entre R$ 14,69 e R$ 17,99.

A pergunta, ainda sem resposta, feita pelos analistas de mercado, é se, uma vez pressionada pelos produtores ávidos por empréstimos para iniciar a semeadura, as indústrias irão manter os preços praticados atualmente ou repassarão o custo dessa compra antecipada aos atacadistas e varejistas? A conferir.


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