Calor aumenta risco de aquecimento do trigo no silo
O período entre outubro e fevereiro exige atenção redobrada na armazenagem
Foto: Leonardo Gottems
O período entre outubro e fevereiro exige atenção redobrada na armazenagem do trigo. Com temperaturas mais elevadas, aumenta o risco de aquecimento da massa de grãos dentro dos silos, condição que favorece a respiração dos grãos, o desenvolvimento de fungos e a infestação de insetos.
O problema pode provocar perda de peso, alterações na qualidade industrial, mudanças de cor e redução da sanidade do produto. Em situações mais severas, também podem ocorrer grãos ardidos, mofados, perda do poder germinativo, quando o trigo é destinado à produção de sementes, e risco de formação de micotoxinas.
O aquecimento está relacionado principalmente à umidade do trigo na entrada do silo, à temperatura do ar e dos grãos, à presença de impurezas e à ocorrência de pragas e fungos. Quando esses fatores não são controlados, podem surgir pontos localizados de maior temperatura e umidade dentro da massa armazenada.
Esses chamados bolsões de aquecimento tendem a se formar com maior facilidade em regiões onde há concentração de grãos finos, impurezas ou cereal com umidade mais elevada. A deterioração pode se intensificar caso esses pontos não sejam identificados e corrigidos rapidamente.
O processo ocorre principalmente pela combinação de três fatores. Os próprios grãos respiram e liberam calor e água. Insetos presentes na massa também aumentam a atividade respiratória. Ao mesmo tempo, fungos podem se desenvolver em regiões com maior umidade.
Quando esses processos se sobrepõem, determinados pontos do silo podem atingir temperaturas superiores às observadas no ambiente externo. Por isso, o controle começa antes mesmo de o trigo chegar à armazenagem.
Visando a boa qualidade do produto durante a armazenagem, os cuidados na implantação da lavoura deverão ser criteriosos, evitando mistura de cultivares de diferentes ciclos, semeaduras em profundidades desuniformes, eliminar plantas invasoras, pois durante a colheita seus resíduos e sementes ainda verdes, poderão acompanham o produto.
A decisão sobre o momento da colheita é uma das primeiras etapas. Grãos com umidade elevada reduzem o período de armazenamento seguro e aumentam a necessidade de secagem logo após a entrada na unidade armazenadora.
Por outro lado, atrasar excessivamente a colheita também pode elevar as perdas ainda na lavoura e aumentar o risco de germinação na espiga. Os valores exatos de umidade de colheita e armazenamento devem seguir os padrões oficiais e a orientação técnica.
Depois da colheita, serão seguidas as etapas de pré-limpeza, através de ar e peneiras; a secagem e armazenamento dos grãos. A pré-limpeza ganha importância na retirada da poeira, impurezas vegetais e grãos quebrados, que dificultam a circulação uniforme do ar e criam regiões capazes de reter maior quantidade de umidade.
Visando deixar o trigo em uma condição de umidade compatível ao período em que permanecerá armazenado, na secagem, é importante o controle de temperatura, que varia conforme o tipo de secador e a umidade inicial do produto, que em geral, deverá ser torno de 60°C. Temperaturas superiores poderão rebaixar a qualidade da farinha e do glúten, o que desvaloriza o produto destinado à panificação. Já em secagens estacionárias, com grãos em camadas fixas, as temperaturas deverão ser na faixa de 45°C a 50°C.
Uma secagem insuficiente favorece o aquecimento, enquanto a retirada excessiva de umidade pode aumentar a quebra dos grãos, provocar perdas de qualidade industrial e elevar desnecessariamente o consumo de energia. O processo pode ser contínuo ou intermitente e deve evitar diferenças exageradas de temperatura entre o ar de secagem e o grão.
Aeração ajuda a controlar a temperatura
Depois que o trigo está no silo, a aeração passa a ser uma das principais ferramentas para evitar o acúmulo de calor. O sistema força a passagem de ar ambiente pela massa de grãos, reduzindo diferenças de temperatura e ajudando a homogeneizar as condições no interior do armazenamento.
A decisão sobre o acionamento deve considerar a temperatura dos grãos e as condições do ar externo. Uma estratégia utilizada é aproveitar momentos em que o ar está mais frio que a massa armazenada e apresenta umidade relativa que não favoreça a reumidificação do cereal.
Esse manejo tende a ficar mais difícil entre outubro e fevereiro, quando as temperaturas externas são maiores e a umidade relativa também pode estar elevada.
Nessas condições, a aeração pode ser concentrada nos períodos mais frescos do dia, como durante a noite e a madrugada. O objetivo é aproveitar janelas mais favoráveis para retirar calor sem aumentar a umidade dos grãos.
Apenas movimentar o ar, porém, não é suficiente sem monitoramento. Sensores de temperatura instalados em diferentes pontos do silo permitem acompanhar o comportamento da massa armazenada ao longo do tempo. Importante que o teor de água da massa não seja superior a 13% e que a temperatura seja próxima a 18°C.
A amostragem de grãos em diferentes profundidades e a observação de odores e alterações visuais complementam esse acompanhamento. Elevações graduais de temperatura em regiões específicas podem indicar a necessidade de intensificar a aeração ou redistribuir o produto.
A distribuição da massa dentro do silo também influencia o resultado. Montes ou cones de trigo podem dificultar a passagem uniforme do ar e aumentar a chance de condensação próxima à parte superior do armazenamento.
O nivelamento da superfície e a distribuição homogênea durante o enchimento ajudam a reduzir essas diferenças.
Outro ponto de atenção são as pragas do trigo armazenado. Besouros dos cereais (Rhyzopertha dominica), gorgulho (Sitophilus sp.) e traças presentes em grãos armazenados aumentam a atividade respiratória da massa e podem contribuir para a formação de focos de calor e umidade.
Assim ,como o Manejo Integrado de Pragas (MIP), é recomendado na condução da lavoura, as mesmas rotinas poderão ser aplicadas na etapa de armazenamento dos grãos, iniciando pela correta pré-limpeza e secagem, a limpeza de silos, armazéns e equipamentos, a retirada de resíduos da safra anterior e, quando necessário, o uso de produtos registrados para controle de pragas, respeitando receituário agronômico, rótulo e bula. Com isso, teremos a permanente manutenção da qualidade do produto.
As condições físicas do armazenamento também precisam ser observadas. Infiltrações de chuva, goteiras e condensação nas paredes podem comprometer o controle da umidade mesmo quando o trigo entra no silo em condições adequadas.
A mistura de lotes com diferentes níveis de umidade e falhas nos registros de entrada e saída também dificultam a identificação da origem dos problemas e podem atrasar a tomada de decisão.
Quando surgem pontos de aquecimento, a intervenção deve ocorrer rapidamente. Entre as medidas estão o aumento da aeração na região afetada e o revolvimento da massa, com transferência do trigo para outro silo, quando isso for possível.
Em situações mais graves, pode ser necessário retirar os grãos da área comprometida para uma nova limpeza e, caso necessário, realizar secagem complementar.
A decisão deve considerar a intensidade do aquecimento, o período restante de armazenamento e o destino do produto, como consumo imediato, moagem ou uso como semente.
A conservação do trigo após a colheita, portanto, depende de uma sequência de decisões. Correto manejo da lavoura, colheita, limpeza, secagem, aeração, monitoramento, controle de pragas e conservação da estrutura de armazenagem precisam funcionar de forma integrada.
Entre outubro e fevereiro, quando o calor eleva o risco de deterioração, acompanhar a temperatura e a condição da massa de grãos ganha ainda mais importância para preservar peso, sanidade e características industriais do trigo.