Chuva em excesso pode frustrar bom momento do trigo no Rio Grande do Sul
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Imagem: Pixabay

AGRONEGÓCIO

Chuva em excesso pode frustrar bom momento do trigo no Rio Grande do Sul

Excesso de umidade no solo tende a aumentar a presença de doenças na lavoura
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As intensas precipitações registradas no Rio Grande do Sul desde última semana e que nesta quarta-feira (8) voltaram a desalojar centenas de famílias, também ameaçam a atual safra de trigo, principal cultura de inverno do Estado. Até junho, com a semeadura do trigo avançando forte, o clima era apontado com um fator benéfico. Veio julho, dois ciclones e muita chuva, alterando significativamente o horizonte em um ano em que a área plantada deverá crescer cerca de 20%, alcançado 760,9 mil hectares, ante 915,7 mil no ano passado.

Na Região das Missões, por exemplo, a ocorrência de cerca de 200 ml de chuva em cidades como Santa Rosa e Ijuí, em uma semana, pode implicar perdas futuras e custos maiores. Juntas, as duas cidades somam mais de 50% de toda á área destinado à triticultura gaúcha, ambas com mais de 200 mil hectares semeados, segundo dados da Emater divulgados recentemente.

Os maiores danos, no momento, estão na perda de nutrientes já depositados no solo, assim como das plantas que já foram semeadas, carregados pela água em alguns trechos. O clima úmido ainda impõe ao produtor riscos de maior proliferação de pragas e manchas folhares, o que demandar mais custo e cuidados extras. Caso persista a elevada ocorrência de chuva e tempo fechado, o alerta acende para a baixa luminosidade, o que prejudica o desenvolvimento do trigo.

O excesso de chuva implica em lixiviação e erosão do solo, o que leva a perda de nutrientes e dos insumos aplicados, diz Hamilton Jardim, representante da Federação da Agricultura do Estado (Farsul) para a área do trigo. E com a previsão de mais chuva nos próximos dias, o que impede dar continuidade do plantio em cerca de 20% da área prevista, muitos agricultores precisarão avançar no zoneamento agrícola recomendado para a cultura, que termina na sexta-feira (10. Fora do zoneamento, o risco de perda é maior e já não há cobertura do seguro.

“Além das lavouras já implantadas sofrerem muito, aquelas a serem semeadas precisam de vários dias sem chuva para que possa ter andamento. Algo que vinha normal até a semana passada agora é preocupante. Ainda assim o plantio vai seguir, já que o produtor adquiriu os insumos e agora precisa usá-lo”, explica Jardim.

A chuvarada pegou de surpresa os produtores. Até junho as previsões climatológicas previam tempo favorável ao trigo da semeadura à colheita, mas os últimos dias mostraram o contrário. Técnicos da Emater ainda são cautelosos quanto a projetar perdas, mas a produtividade menor é um ameaça real. A adubação que seria feita agora, especialmente com ureia, vai ter que esperar, assim como o controle de plantas daninhas e pragas, que fica mais difícil de monitorar com o solo enxarcado.

“As lavouras em desenvolvimento vegetativo, em decorrência da umidade, têm mais risco de ocorrência de doenças. As condições não são boas porque dificultam a germinação e atrasam a implantação nesta final da semeadura”, diz Ronaldo Carbonari, gerente de planejamento da Emater.

Com os trabalhos paralisados, a expectativa é que o tempo seco permita ao produtor retornar ao campo o mais breve possível, seja para avaliar os danos e reforçar a aplicação de insumos perdidas na enxurrada, seja para plantar o que ficou para trás nos últimos dias. José Cláudio Reis, técnico da Emater em Giruá, é um pouco mais otimista.

“Não é alarmante, neste momento. O processo erosivo é o maior dano, mas produtores que trabalharam melhor o solo, mantendo palhada da cultura anterior, tiveram menos prejuízo. E o trigo tem uma capacidade de recuperação muito boa nesta fase”, pondera Reis.

Gilmar Vione, assistente técnico regional da Emater de Santa Rosa, também alerta para a perda de nutrientes devido à erosão ou lixiviação do solo,o que pode se refletir em desenvolvimento menor da planta e áreas amareladas na lavoura. Apesar do custo maior para reaplicação de insumos, a perda na produtividade ainda pode ser contida, mas é uma ameaça os lucros futuros. E ainda há projeções apontando para um julho mais chuvoso do que a média, antecipa Vione. Com alta nebulosidade, há baixa luminosidade, que é importante para o trigo.

“Na próxima semana vamos sair a campo e verificar a situação, o que não foi possível até agora justamente pela chuva e as dificuldades de se transitar por estradas de chão”, explica Vione.

Preço em alta e cuidados com o solo amenizam as perdas

Na região Norte do Estado, diz Almir Rambo, engenheiro agrônomo da Cotrijal, de Não-Me-Toque, as lavouras começaram bem em termos de germinação, mas agora entram uma fase de comprometimento devido à perda de nutrientes colocados na terra antes dos temporais, com água carregando calcário, adubo e outros nutrientes aplicados.

Ainda que o produtor tenha custos extras para repor esses nutrientes, no entanto, o preço do grão ajuda a iluminar o horizonte, avalia Rambo. A saca, que era comercializada por R$ 41,8 em julho do ano passado hoje vale R$ 53,8, alta de quase 30%, de acordo com levantamento da Emater.

“Apesar de o custo de produção ter ficado maior neste ano, devido ao dólar, a venda felizmente está acompanhado essa alta, o quem nem sempre acontece”, comemora Rambo.

Entre as pragas, doenças e plantas invasoras que se tornam uma agravante para o controle, Almir Rambo, engenheiro agrônomo da Cotrijal, destaca o mosaico, uma virose que é intensificada pelo excesso de água no solo, o que vai exigir monitoramento maior da lavoura. Em outras áreas, onde não se trabalha a rotação de culturas, problemas fúngicos como as manchas folhares, vão exigir um manejo mais atento, alerta o engenheiro agrônomo.

Giordano Schiochet,  que semeou sobre a palhada, conta que na área onde conseguiu fazer o plantio ideal, a chuva não promoveu estragos.

"Onde eu tinha milho e milheto antes, e plantei o trigo, eu tive praticamente zero de perda de solo. Mas tenho áreas onde, por uma serie de fatores, não consegui ter esse mundo perfeito, houve danos. É mais um ano que nos mostrou a importância de conservar o solo", analisa Schiochet.
 

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