Ciência auxilia no resgate da cultura alimentar amazônica
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Imagem: Divulgação
AGRICULTURA

Ciência auxilia no resgate da cultura alimentar amazônica

A pupunha é uma fruta amazônica muito consumida no café da manhã dos paraenses
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O primeiro projeto de inovação social aberta em execução pela Embrapa Amazônia Oriental vai auxiliar no resgate, valorização e profissionalização de parte da cultura alimentar do nordeste paraense. Saber tradicional e ciência agropecuária se unem para a fabricação de farinhas alimentícias tendo como base produtos e bioativos da sociobiodiversidade da região.

Para a Embrapa, a inovação social alia o saber científico ao saber popular para valorizar a identidade, a cultura e a tradição dos agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais. Foi com esse princípio que surgiu a parceria com a Rede Bragantina de Economia Solidária Artes e Sabores, por meio da Cooperativa Mista dos Agricultores e Agricultoras Familiares entre os Rios Caeté e Gurupi (Coomar), uma organização que agrega mais de 400 famílias de agricultores familiares em cinco municípios paraenses. Integram arede os municípios de São Luzia do Pará, Bragança, Augusto Corrêa, Cachoeira do Piriá e Viseu.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Laura Abreu, líder do projeto, a parceria terá duração de dois anos e visa entregar ativos tecnológicos desenvolvidos em parceria com a comunidade e que respondam a demandas reais do público envolvido. “A Rede Bragantina tem tradição na produção de farinhas alimentícias e de alimentos oriundos da transição agroecológica, como frutas e tubérculos, e serão esses o nosso foco de trabalho”, explicou.

A cientista adiantou ainda que entre os resultados, se prevê a criação de novas farinhas que terão como base bioativos diferenciados de frutas e tubérculos que já integram a cultura alimentar e cultivos desse pedaço da Amazônia. “O processo será todo em parceria e nesse caminhar e troca de conhecimentos, vamos usar da ciência para validar o saber tradicional, ao estabelecer protocolos de boas práticas, caracterizar os ingredientes e suas potencialidades nutricionais, assim como adequá-los à legislação vigente para a disputa de mercados formais”, revela Laura Abreu.

A parceria foi oficializada em agosto e no início de setembro já houve a primeira visita de campo, nos municípios participantes, para identificar as áreas de cultivo e famílias de agricultores que fornecerão as matérias-primas usadas no desenvolvimento das farinhas.

Unir excedente de produção à tradição em fabricação de farinhas

A Rede Bragantina tem tradição na fabricação de farinhas artesanais e parte dos cinco municípios que a integram estão geograficamente localizadas na região que recentemente recebeu a Indicação Geográfica (IG) da Farinha de Bragança, no nordeste do Pará.

A responsável técnica da organização dos agricultores junto ao projeto, a agrônoma Nazaré Reis, explica que embora o IG da farinhas de mandioca seja um orgulho para todos, o projeto vai criar novas farinhas usando frutas e tubérculos que fazem parte da cultura alimentar das famílias de agricultores da Amazônia. “É tradição da região o preparo de mingaus com inhames, macaxeira, tucumã, carás, além do consumo de pupunha e outros tubérculos cozidos em substituição ao pão no café da manhã ou café da tarde”, explica.

Nazaré relembra que os agricultores familiares que integram a Rede Bragantina, tem cerca de 15 anos de atuação, fabricam a farinha de mandioca artesanal,muito usada na culinária regional, mas que nos últimos anos tem ensaiado a criação de outras farinhas, com vistas ao preparo de mingaus e produtos de panificação. “A parceria com a Embrapa vai profissionalizar esse processo, desde o plantio, colheita, preparo,tempo de prateleira e qualificação de nossos associados”, comemora.

A fabricação de farinhas com produtos da biodiversidade é uma demanda dos agricultores, pois além de agregar valor e criar novos produtos,resolveria o problema da perda de alimentos excedentes. Nazaré Reis explica que entre os trabalhos da rede houve o resgate do cultivo de alimentos tradicionais que estavam desaparecendo, como o cará roxo e a araruta, entre outros.

Aliado à transição agroecológica como prática de cultivo das famílias de agricultores e a economia solidária, havia então matéria-prima, ideias de produtos e até redes de comercialização. “A Embrapa chega para coroar o processo trazendo a ciência para a validação, melhorias e novos produtos para garantir a soberania alimentar, renda e qualidade devida”, fala orgulhosa.

Parceria constrói resposta em conjunto agricultores

A relação entre a Embrapa e a Rede Bragantina também tem tradição, conforme conta a pesquisadora Tatiana Sá. Ponto focal dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Embrapa no Pará e articuladora do Núcleo Puxirum Agroecológico. “A rede é parceira antiga desde ações do projeto Tipitamba, com a transição agroecológica e sistemas de roça sem queima no cultivo”, historia.

Tatiana comemora que essa relação tenha se consolidado no primeiro projeto de inovação social aberta da Embrapa no Pará. “A parceria se enquadra em tudo que preconiza o conceito de inovação social, pois é pautada na construção coletiva e respeito dos saberes, com a interlocução com diferentes atores para apontar alternativas e soluções dos desafios de determinada comunidade ou região. “Vamos produzir farinhas especiais com produtos da biodiversidade, aproveitando o excedente, para gerar renda e qualidade de vida. Tudo isso com cultivos agroecológicos”, enfatiza a cientista.

A pesquisadora atenta que esse tipo de construção se torna ainda mais rica, pois internaliza no portfólio de projetos da Embrapa ações concretas de respostas à sociedade, preconizadas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os ODS são compromissos mundiais estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015 e compõem uma agenda global para a construção e implementação de políticas públicas fundamentais para o desenvolvimento humano, nas perspectivas de pessoas, planeta, prosperidade, parceria e paz.


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