Classificação do tabaco acirra divergências entre fumicultores e indústrias
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Imagem: Marcel Oliveira

AGRONEGÓCIO

Classificação do tabaco acirra divergências entre fumicultores e indústrias

Produção foi primeiramente afetada pela chuva em 2019, em algumas regiões,e depois pela estiagem
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A negociação de preços entre a indústria do tabaco e os fumicultores é um processo que tradicionalmente gera divergências entre as duas pontas da cadeia produtiva, mas neste ano as faíscas geradas foram significativamente maiores. As divergências entre a indústria e campo se acirraram visivelmente desde junho e foram explicitadas em uma nota divulgada em conjunto por cinco entidades ligadas aos produtores.

Em comunicado enviado á imprensa, Farsul, Fetag, Afubra e entidades de produtores de Santa Catarina e Paraná acusam fabricantes de cigarro de estarem promovendo um “desmonte no setor produtivo do tabaco”. A nota afirma, ainda, que o cenário é “altamente preocupante” e que além dos prejuízos com a estiagem os produtores estão sendo “castigados” pela indústria com a baixa classificação do produto entregue, o que reduz a remuneração consideravelmente, impondo mais prejuízos e perdas ao agricultor, predominantemente de pequeno porte e familiar.

Diferentemente de outras culturas agrícolas tradicionais no Rio Grande do Sul, como soja e milho e arroz, em que há uma cotação de mercado, nacional ou internacional para balizar as vendas, os produtores de tabaco precisam ano a ano negociar a remuneração. Além disso, também há negociações pontuais e individuais a cada entrega - já que o tabaco vendido à indústria passa por uma avaliação de classificação baseado na textura e na aparência da folha. O processo é tão delicado que exige uma constante mediação entre o agricultor e as fabricantes de cigarro em caso de divergências, o que no Rio Grande do Sul, por acordo, cabe a profissionais da Emater.

“A classificação da folha é por visual e tato, e com a estiagem a folha foi danificada, em muitos casos. Nessa negociação comercial, quando a oferta é menor, há tolerância maior da indústria para classificar. Já quando há boa oferta, se aumenta a exigência e se reduz o valor pago ao produtor”, explica o coordenador da Unidade de Classificação de Tabaco da Emater, em Santa Cruz do Sul, Luiz Antonio Kaufmann.

Apesar dos danos na folha, a produção gaúcha não chegou a ter redução significativa, mesmo com uma área menor, mas a qualidade foi afetada. E com as vendas de cigarro no mercado interno vem em queda, tem concorrência dos produtos ilegais (que representariam mais de 50% do mercado) e com concorrência internacional acirrada nas exportações, as indústrias tem tabaco de sobra no mercado para comprar.

“O tabaco não é como um alimento, que se tu não venderes pode usar na alimentação, seja de pessoas ou de animais. Ou tu vendes pra indústria de cigarro ou perde a produção”, alerta Kaufmann.

De acordo com o presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), Benício Albano Werner, há o sério risco de produtores arcarem com os custos de ficar com a planta na terra, sem colher. Werner lamenta, ainda, que há intermediadores de mercado buscando essa planta que ainda está no campo, pagando pouco e se aproveitando do temor do produtor com o prejuízo de perder o tabaco semeado e rejeitado pelas fumageiras, mesmo o produtor atuando como integrado.

“E parte dessas compras que a indústria não faz, e os intermediários vão comprar por um valor abaixo do mercado, e que pode inclusive alimentar a fabricação ilegal de cigarro que ocorre dentro do Brasil também, não só no Paraguai”, lamenta o presidente da Afubra.

Marco Antônio dos Santos, representante da Farsul para o setor de tabaco, reclama que as negociações de preços foram acirradas desde janeiro, quando o setor fecha uma previsão de valores com os quais trabalhará na safra vigente. Em 2020, assegura Santos, pela primeira vez em muitos anos, não houve sequer um acordo, já que as indústrias estariam oferecendo valores até abaixo dos custos de produção.
“A media de compra teve apenas 1,2% de aumento, e agora até menos, em média de R$ 9,53 o quilo, ante um custo de produção de média de R$ 9,47. Ou seja, o produtor pagou para trabalhar”, diz o representante da Farsul.

Nesta terça-feira (7), espera Santos, uma solução para a crise no setor pode ser encaminhada em uma videoconferência entre produtores e indústrias para rever alguns destes temas. Nem mesmo para o custo de produção, diz o representante da Farsul, há um consenso no setor. A proposta é ter um novo modelo de cálculo, conjunto ou feito por terceiros.

Aos produtores, diz Santos, as empresas alegam que o consumo mundial diminuiu com restrições ao tabaco, e 85% da produção gaúcha é para exportações. Além disso, o mercado interno tem perda de mais de 50% do consumo anualmente para o contrabando, reduzindo os lucros por aqui. Ainda assim, Santos critica o fato de as empresas não estarem cumprindo acorde vigente desde 2016, quando o sistema passou atuar no modelo de produção integrada e que viabilizou a Foniagro, espaço para discussões entre os elos da cadeia e onde se definem as regras a serem seguidas.

“O que vemos, hoje, é o não cumprimento das normas por parte da indústria”, assegura Santos.
Procurado para comentar as queixas dos produtores o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco) afirmou que a questão é comercial e individual de cada empresa, e por isso não poderia se posicionar sobre o assunto.

A fumicultura no Rio Grande do Sul

Safra 2018/19

Famílias envolvidas na produção: 75.230

Área: 145,176 mil hectares

Produção: 320,788 mil toneladas

Safra 2019/20

Famílias envolvidas na produção: 73.490

Área: 126,875 mil hectares

Produção estimada: 269,715 mil toneladas

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