Cotonicultores de Mato Grosso conhecem produção de algodão na Austrália
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Agronegócio

Cotonicultores de Mato Grosso conhecem produção de algodão na Austrália

Austrália é um dos cinco maiores exportadores de algodão em pluma ao lado do Brasil
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A organização da cadeia do algodão na Austrália e a união dos agricultores foram os principais aspectos destacados pelo grupo de associados da Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) após recente visita ao país.  Cotonicultores de Mato Grosso conhecem a produção de algodão na Austrália
 
A organização da cadeia do algodão na Austrália e a união dos agricultores foram os principais aspectos destacados pelo grupo de associados da Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) após recente visita ao país. Hoje, a Austrália é referência na preservação de novas tecnologias e no Manejo Integrado de Pragas, o que inclui o controle das lagartas do gênero Helicoverpa spp., além de ser um dos cinco maiores exportadores de algodão em pluma ao lado do Brasil.
 
Liderado pelo presidente Milton Garbugio, o grupo percorreu durante uma semana fazendas de algodão, centros de referência em pesquisa, como o Australian Cotton Research Institute ( ACRI - instituto de pesquisa do algodão), e entidades como a Cotton Australia, que reúne os produtores de algodão e industriais do país.
 
"O foco principal de nossa viagem foi ver como eles lidam com as novas tecnologias de forma a preservá-las", explica Garbugio, numa referência às variedades de algodoeiro geneticamente modificadas, conhecidas como Bt ou Bollgard 2, que são utilizadas em praticamente 100% da área de plantio de algodoeiro na Austrália e são consideradas fundamentais para o controle de diversas lagartas por serem capazes de expressar proteínas inseticidas da bactéria de solo Bacillus thuringiensis.
 
"Em Mato Grosso, estamos começando a utilizar a tecnologia Bollgard 2 e foi importante constatar a eficiência do trabalho de conscientização dos agricultores feito pelas entidades australianas. A tecnologia Bt funciona bem exatamente por causa do nível de consciência dos produtores", comenta o presidente da Ampa. Tanto ele quantos os demais integrantes da comitiva mato-grossense destacam o fato de todos os cotonicultores australianos seguirem à risca as recomendações da pesquisa, que inclui a manutenção de áreas de refúgio (área cultivada como fornecedora de indivíduos sensíveis à toxina de Bt, indispensáveis para se cruzar com eventuais indivíduos resistentes que apareçam na lavoura).
 
"Em nossa visita à Cotton Australia, constatamos o quanto os agricultores de lá são coesos e seguem o que é determinado pela entidade. Isso faz toda a diferença no controle de pragas e na preservação das novas tecnologias", opina Gustavo Piccoli, vice-presidente da Ampa e presidente do Instituto Algodão Social (IAS).
 
"Para mim, essa viagem foi um divisor de águas", complementa Sérgio Introvini, produtor em Campo Novo do Parecis e representante do Núcleo Regional Médio Norte. "Eu era contra a utilização de áreas de refúgio, apesar das orientações de nossos pesquisadores, mas como diz o ditado 'Santo de casa não faz milagre'. Ao ver o exemplo australiano, mudei meu ponto de vista", admite Introvini. O associado da Ampa é enfático: "Temos que fazer um trabalho de conscientização do produtor mato-grossense e brasileiro: ele precisa mudar seus conceitos, começar a trabalhar com o Manejo Integrado de Pragas e utilizar ferramentas de controle biológico, caso contrário nossa agricultura não terá sustentabilidade".
 
Cleto Webler, presidente do Núcleo Regional Noroeste, também destaca a preocupação dos cotonicultores australianos com a manutenção de áreas de refúgio, fundamental para a preservação das novas tecnologias e a redução no uso de inseticidas químicos. "Os australianos usam apenas duas variedades Bt e, graças ao fato de seguirem o plano de manejo de resistência a essa tecnologia, conseguem ser extremamente eficientes no controle das lagartas. Nós, em Mato Grosso, estamos sempre testamos um monte de variedades, somos cobaias das empresas e não conseguimos ter a mesma eficiência", afirma Webler. O produtor Geraldo Vigolo, presidente do Núcleo Regional Sul, complementa: "A eficiência dos agricultores australianos na utilização das biotecnologias na produção de algodão trouxe tantas vantagens que reduziu até a pressão das pragas nas áreas de plantio de variedades convencionais". Vigolo ressalta ainda a forma como a cadeia australiana do algodão trabalha com foco na prevenção, na antecipação dos problemas e na redução de riscos para salvaguardar a tecnologia Bt. "Há uma sincronia de todos os atores envolvidos em prol do negócio do algodão", resume.
 
Diferenças - Durante a expedição, os produtores mato-grossenses também perceberam outras diferenças entre a realidade dos produtores de algodão australianos e a que enfrentam no Cerrado brasileiro. "Eles terceirizam muitos serviços, inclusive, notamos que somente os maiores produtores têm algodoeiras em suas fazendas", conta o vice-presidente Gustavo Piccoli. Mas, na sua opinião, a maior diferença está nas condições climáticas que acabam influenciando na ocorrência de pragas e doenças. Os australianos são considerados um modelo para o Brasil no controle da lagarta Helicoverpa spp., mas não enfrentam, por exemplo, a pressão do bicudo-do-algodoeiro, considerado por muitos especialistas a maior praga da cotonicultura brasileira.
 
"Temos algumas particularidades que tornam ainda mais complexa a produção de algodão em Mato Grosso", diz Piccoli, ressaltando a necessidade de os produtores mato-grossenses associados à Ampa serem ainda mais organizados para se tornaram competitivos.
 
O produtor Arilton Riedi, presidente do Núcleo Regional Norte da Ampa, concorda. "Temos muitas diferenças em relação à Austrália: estamos num clima tropical úmido, enquanto eles estão num clima semiárido, quase desértico. Eles não têm lagarta-falsa-medideira, nem lagartas do gênero Spodoptera ou bicudo, entre outras pragas e doenças, mas foi muito importante conhecer o sistema de cultivo dos australianos. Fiquei impressionado com a organização deles para se manterem na cultura, preservando as novas tecnologias e seguindo as recomendações da pesquisa para não estimular o desenvolvimento de insetos resistentes", observa Riedi.  Segundo o produtor de Sorriso, a preocupação fitossanitária é compartilhada por todos: produtores, instituições de pesquisa, associações e governo. Para Riedi, a maior lição aprendida com a viagem à Austrália e a celeuma em torno da lagarta Helicoverpa armigera que mobilizou os agricultores brasileiros ao longo de 2013 foi a de que "o monitoramento das lavouras é o principal aliado do produtor hoje no Brasil".
 
Logística - O produtor Alexandre Schenkel, representante do Núcleo Regional Centro (região de Campo Verde), foi outro que voltou da Austrália impressionado com a organização dos agricultores não só em termos de padronização de manejo, como também em termos de logística. "Eles têm vantagens geográficas sobre nós, por estarem mais próximos dos países asiáticos, maiores importadores de algodão em pluma do mundo, porém não seriam tão eficientes em fazer o produto chegar ao cliente se não tivessem uma organização exemplar", diz Schenkel. 
 
O grupo brasileiro que visitou a Austrália em abril foi integrado ainda pelos produtores Anderson Stoquero, representante do Núcleo Regional Centro Norte, e Alessandro Sousa Polato, representante do Núcleo Regional Centro Leste, e pelos consultores do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt),  Wilhelmus Uitdewilligen e Jean Louis Belot. A comitiva mato-grossense foi recepcionada na Austrália pela pesquisadora Sharon Downes (entomologista do CSIRO - The Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation – uma espécie de Embrapa australiana), por Adam Kay da Cotton Australia e por representantes da Cotton Seed Distributors e da Agbitech, e conheceram lavouras de algodão da região do vale de Namoi (Narrabri), Macintyre (Moree) e Darling Downes (Dalby).
 
“A pesquisa algodoeira australiana é um modelo de integração entre pesquisadores de diversos institutos nacionais (CSIRO) e estaduais (Departamento de Indústrias Primárias de NSW)”,  diz o consultor Jean Belot.  Segundo ele, os temas de pesquisa são definidos de acordo com as demandas dos produtores, industriais e pesquisadores, e financiados por um fundo (CRDC) alimentado por cotizações dos produtores (2,25$ por fardo de algodão) e aporte equivalente do governo.  
 
Belot acrescenta que o monitoramento da resistência de diversas espécies de Helicoverpa é realizado em relação às diversas toxinas usadas nos algodões transgênicos, mas também em relação a alguns inseticidas. Ele é feito pela pesquisa pública, que dispõe assim de dados objetivos e independentes para estabelecer, em conjunto com outras instituições públicas e privadas, esse plano de manejo da resistência, em particular a definição do tamanho dos refúgios a serem usados. Na avaliação de Belot, o sucesso da produção algodoeira na Austrália vem de uma soma de esforços realizados de forma integrada por todas as instituições públicas e privadas, produtores e indústria, para produzir de modo sustentável  - com uso de plantio direto ou “cultivo mínimo”, Manejo Integrado de Pragas com uso racional das tecnologias Bt - uma fibra de alta qualidade para exportação nos mercados mais exigentes do mundo.

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