O aumento dos juros futuros no Brasil amplia os custos de financiamento do agronegócio e pode comprometer novos investimentos no setor. Mesmo com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a Selic em 13,75% ao ano, as taxas de médio e longo prazo registraram elevações expressivas, tornando o acesso ao crédito mais caro para produtores rurais e empresas.
Segundo Amanda Coura, fundadora da Zera.ag, consultoria especializada no agronegócio, a manutenção da taxa básica interrompe uma sequência de cinco cortes consecutivos e reflete a deterioração das expectativas econômicas após as eleições. As incertezas sobre a condução das contas públicas elevaram a percepção de risco dos investidores, pressionando o câmbio e, principalmente, os juros futuros.
O movimento pode ser observado nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI). Antes das eleições, o vencimento de janeiro de 2028 era negociado próximo de 12,8% ao ano, passando posteriormente para cerca de 14,4%. Nos contratos de 2029 e 2031, as altas foram ainda maiores, de aproximadamente 2,2 e 2,5 pontos percentuais, respectivamente. Enquanto os vencimentos mais curtos apresentaram variações menores, as taxas de longo prazo voltaram a superar 15% ao ano.
Para o agronegócio, esse cenário representa um desafio adicional, especialmente diante da crescente participação de recursos privados e do mercado de capitais no financiamento das atividades. Muitas dessas operações são vinculadas ao CDI e possuem prazos que precisam acompanhar os ciclos produtivos e o retorno de investimentos de longo prazo.
Amanda explica que o custo efetivo do crédito não depende apenas da Selic vigente. Empréstimos, debêntures e operações estruturadas são calculados considerando a curva de juros futuros, acrescida de taxas relacionadas ao risco da operação, às garantias e ao prazo de pagamento. Dessa forma, mesmo sem uma nova elevação da taxa básica, produtores e empresas podem enfrentar condições de financiamento mais restritivas.
A alta dos juros de longo prazo também reduz a capacidade de endividamento e pode comprometer a viabilidade financeira de projetos que anteriormente apresentavam retorno suficiente para justificar o investimento. Além disso, a necessidade de refinanciar dívidas em condições mais caras aumenta as despesas financeiras e consome parte das margens e da geração de caixa.
No setor agropecuário, os efeitos podem ser ampliados quando o encarecimento do crédito coincide com períodos desfavoráveis dos ciclos produtivos e de mercado. A necessidade de financiar as operações e administrar compromissos de longo prazo torna produtores e empresas mais sensíveis às mudanças nas condições financeiras.
Na avaliação da fundadora da Zera.ag, uma redução antecipada da Selic, sem melhora das expectativas econômicas, poderia provocar um efeito contrário ao esperado. A queda dos juros de curto prazo poderia ser acompanhada por novas elevações nas taxas futuras, mantendo elevado o custo efetivamente pago pelas empresas.
A especialista considera que a redução sustentável dos juros depende de maior previsibilidade na condução da política fiscal. Para isso, aponta a necessidade de uma trajetória gradual e mensurável de ajuste das contas públicas, capaz de demonstrar condições para estabilizar a dívida e reduzir os prêmios de risco exigidos pelo mercado. Para Amanda Coura, a estabilidade fiscal tem relação direta com a capacidade de investimento do setor. Com a maior dependência de financiamento privado, a redução dos custos de crédito passa a ser uma condição importante para que produtores e empresas mantenham seus projetos de expansão e crescimento.