Dados valem ouro para enxergar oportunidades no agronegócio
Estudo foi apresentado no 4º Fórum Agro
Foto: Ney Moreira
Por Flávia Macedo
No agronegócio, uma decisão começa muito antes de plantar, comprar ou vender. Começa na leitura do mercado. Saber onde as empresas estão crescendo, como o produtor está comprando e quais dificuldades atingem os fornecedores ajuda a reconhecer oportunidades e antecipar riscos. É nessa passagem da informação para a estratégia que os dados passam a valer ouro.
Esse foi o ponto de partida do 4º Fórum Agro, o ouro Invisível no campo, realizado na quarta-feira (14), em São Paulo (SP). O encontro apresentou a quarta edição do estudo “Agronegócio em Números”, realizado pelo Empresômetro, e reuniu representantes de diferentes elos da cadeia para discutir o que existe por trás dos indicadores.
“Esse ouro é justamente a capacidade, a condição que o agronegócio brasileiro tem para não só exportar commodities, mas exportar e consumir produtos de alto valor agregado”, afirmou Gilberto Luiz do Amaral, fundador do Empresômetro.
O tamanho dessa oportunidade aparece no desempenho do setor. Segundo o levantamento apresentado, a agropecuária cresceu 11,7% em 2025, enquanto o PIB brasileiro avançou 2,3%. Ao ampliar o olhar para as relações comerciais da cadeia, o estudo mostra que os valores comercializados pelo agronegócio aumentaram 9,8%, acima dos 6,4% registrados no conjunto dos setores analisados.
Esse movimento também ajuda a entender por que olhar apenas para a produção deixa uma parte importante da história de fora. Dos R$ 1,02 trilhão em tributos gerados pelo agro em 2025, conforme o estudo, 50,2% vieram da agroindústria. Pela primeira vez, o setor respondeu por mais da metade do total, evidenciando o peso da transformação da matéria-prima e das atividades que acrescentam valor depois da porteira.
Na avaliação de Amaral, a busca por alimentação, saúde e bem-estar amplia as possibilidades de negócios dessa cadeia. Ele projeta que o agro brasileiro tem condições de passar de uma receita de aproximadamente US$ 600 bilhões para US$ 1 trilhão em três anos, com maior participação de produtos de alto valor agregado. A estimativa se refere à movimentação financeira mencionada pelo executivo, e não ao PIB do setor.
O mercado cresce e muda de endereço
As oportunidades também aparecem na forma como os negócios são realizados. Em 2025, 76% das transações de defensivos agrícolas ocorreram por e-commerce, WhatsApp e outros canais não presenciais, ante 63% em 2024. Para quem vende ao produtor, o dado mostra a importância de acompanhar uma jornada de compra que passa cada vez mais pelo ambiente digital.
Ao mesmo tempo, as cooperativas agropecuárias movimentaram R$ 150 bilhões em compras no ano, demonstrando sua relevância na conexão entre fornecedores, tecnologias e produtores. Entre os mercados em expansão, as vendas de defensivos microbiológicos cresceram 55% na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
Há ainda uma mudança geográfica a acompanhar. Entre 2024 e 2025, Centro-Oeste e Norte lideraram o crescimento do número de empresas do agro, com avanços de 5,7% e 5,6%, respectivamente. São informações que ajudam a orientar desde a presença comercial de uma empresa até a avaliação de novos mercados.
Crescimento exige atenção ao risco
A expansão, porém, convive com dificuldades financeiras que ultrapassam os limites de uma única empresa. Segundo o levantamento, quando uma grande companhia do agro entra em recuperação judicial, outras 27 empresas são atingidas dentro da cadeira produtiva. O estudo também aponta perda de 30% do poder de negociação em três anos de recuperação judicial.
Esse efeito sobre fornecedores e parceiros reforça a necessidade de conhecer a cadeia com a qual se negocia. O desempenho de um cliente, as condições de crédito e a capacidade de pagamento fazem parte da mesma leitura de mercado que permite identificar oportunidades.
Para Carlos Alberto Pinto, o Beto, sócio-diretor do Empresômetro e idealizador do Fórum Agro, aproximar os indicadores da experiência de quem produz foi uma das propostas do encontro. “Ter a voz ativa de produtores rurais, indústrias, das revendas e estudiosos, cientistas, faz com que a gente tenha essa pluralidade de opiniões e isso enriquece muito o evento”, afirmou.
Da leitura do presente à antecipação
O próximo passo é usar esse conhecimento para antecipar cenários. Amaral anunciou que o Empresômetro prepara produtos com análise preditiva para 2027, destinados ao agronegócio e a outras áreas da economia. “Nós estamos investindo de maneira muito forte em análises preditivas”, disse. A proposta, segundo ele, é permitir que os usuários se antecipem com dados fidedignos e tomem decisões mais assertivas.
Fazer a informação chegar às pessoas também entrou na discussão. Ao abordar a desinformação, o jornalista e sócio-diretor na Biomarketing, José Luiz Tejon, defendeu que comunicar corretamente exige criatividade e emoção para conquistar atenção e persuadir. Uma reflexão que complementa o debate sobre os números. O ponto é que o seu valor como profissional ou da sua empresa depende tanto da qualidade da informação quanto da capacidade de compreendê-la e colocá-la em prática.