A necessidade de importar grandes volumes de fertilizantes coloca o agronegócio diante de um mercado que pode sofrer mudanças nas condições de oferta, transporte e negociação internacional. Com 45,5 milhões de toneladas adquiridas do exterior em 2025, volume recorde segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil depende de fatores que vão além da demanda interna para a formação dos preços desses insumos.
Entre os elementos que interferem nas cotações estão a variação do dólar, os custos logísticos, as tensões geopolíticas e as políticas comerciais de países fornecedores. O movimento de grandes compradores internacionais também pode alterar a disponibilidade de produtos e influenciar os valores praticados nas operações de importação.
A Ureia é um exemplo dessa exposição ao mercado externo. Em 2026, o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, acompanhado por interrupções comerciais no Estreito de Ormuz, afetou as negociações internacionais do fertilizante. De acordo com dados da Argus, o preço médio da Ureia granulada importada pelo Brasil subiu de US$ 480 por tonelada, em 26 de fevereiro, para US$ 805 em 16 de abril, aumento de 67,7%.
O episódio demonstra como acontecimentos em regiões estratégicas para o comércio internacional podem repercutir sobre os custos dos insumos utilizados nas lavouras brasileiras. Restrições comerciais, sanções econômicas e dificuldades nas rotas de transporte podem exigir mudanças de fornecedores e ampliar os custos das operações.
Segundo Rafael Diegues, CEO da Nobel, empresa que atua na importação e distribuição de insumos para nutrição animal e fertilizantes, a formação dos preços depende de uma combinação de condições comerciais e operacionais. O executivo explica que alterações na disponibilidade dos produtos, no câmbio ou nos custos de transporte podem modificar o resultado das negociações realizadas pelos importadores.
A valorização do dólar é uma das variáveis acompanhadas pelo setor. Como parcela expressiva dos fertilizantes consumidos no país é adquirida no exterior, a perda de valor do real torna as importações mais caras em moeda brasileira. Mesmo sem mudanças nas cotações internacionais, a oscilação cambial pode elevar o custo de aquisição. O repasse dessa diferença ao mercado interno, entretanto, depende dos estoques disponíveis, dos contratos e do momento em que as compras foram realizadas.
Outro componente importante é o transporte. A disponibilidade de navios, os gastos com combustível e os congestionamentos portuários interferem tanto nos valores dos fretes quanto nos prazos de entrega. Depois da chegada dos produtos ao Brasil, despesas com armazenagem, operações portuárias e distribuição também fazem parte dos custos de abastecimento.
Além das questões cambiais e logísticas, as decisões dos países produtores exercem influência sobre a quantidade de fertilizantes disponível para exportação. A China, por exemplo, adota um sistema de cotas e prioriza o consumo doméstico antes de direcionar volumes excedentes ao mercado internacional. Essa política faz com que a oferta chinesa varie ao longo do ano.
Quando o país restringe as vendas externas, a redução da disponibilidade pode contribuir para a elevação das cotações. Já a liberação de maiores volumes tende a ampliar a oferta mundial, criando condições para uma eventual redução dos preços.
Do lado da demanda, a Índia tem participação relevante nas negociações internacionais. O país realiza compras de grandes quantidades de fertilizantes por meio de licitações governamentais, chamadas de *tenders*. Pelo volume movimentado, essas operações podem influenciar as referências de preços utilizadas nas semanas seguintes.
Esse movimento ganha importância para o Brasil quando as aquisições indianas coincidem com períodos de maior necessidade de importação para atender ao calendário agrícola nacional. No mercado de ureia, a demanda brasileira está relacionada, entre outros fatores, ao abastecimento necessário para a safrinha de milho.
De acordo com Diegues, as necessidades de importação do Brasil podem chegar a quase 1 milhão de toneladas de Ureia por mês até dezembro. Se esse volume coincidir com grandes compras indianas e restrições nas exportações chinesas, a maior concorrência pelo produto disponível poderá exercer pressão adicional sobre os preços.
O executivo também observa que os fornecedores internacionais direcionam suas vendas conforme as condições comerciais oferecidas pelos mercados compradores. Assim, a disputa entre países importadores pode influenciar tanto as negociações quanto a disponibilidade dos fertilizantes.