Disputa por soja brasileira vai subir preço do produto


Agronegócio

Disputa por soja brasileira vai subir preço do produto

Por: -Admin
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A expansão da soja no Brasil está atraindo grupos empresariais estrangeiros e nacionais para a exportação. Na safra deste ano (2002/03), cujas estimativas de colheita beiram 50 milhões de toneladas, pelos menos três novas tradings iniciam suas operações. São empresas com características em comum, como estrutura comercial enxuta, compra direta de soja na origem e sua respectiva venda a destinos no exterior, especialmente na Ásia e na Europa.

"A chegada de novas tradings é excelente não só para a exportação e a balança comercial, pois quanto mais "players" estão presentes no mercado, melhor tende a ser o preço pago ao produtor, com a maior disputa", avalia o diretor geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), Sérgio Mendes. A disputa a que se refere o executivo compreende também maior oferta de financiamento para a produção.

"Boa parte da safra brasileira de soja é negociada antecipadamente, com financiamento do plantio pelas próprias tradings, que será pago em produto na época da colheita. Quem deseja entrar neste mercado precisa necessariamente atrair o produtor de soja com financiamentos que o favoreça", explica. Em conseqüência, a chegada e a consolidação das tradings tende a promover ainda mais a expansão da soja no Brasil.

Quatro grandes multinacionais

Segundo Sérgio Mendes, o crescimento do agronegócio da soja começou com a Lei Kandir, de 1996, que desonerou a exportação dos produtos do complexo de impostos e acionou uma forte concentração no setor. Grandes multinacionais chegaram ao país, com prando estruturas já em operação e ampliando as mesmas. Essas grandes empresas são quatro: ADM, Bunge, Cargill e Dreyfuss. O capital nacional está representado por pelo menos duas grandes tradings, o Grupo Maggi e a Caramuru Alimentos.

Isto quer dizer que quase toda a soja nacional é industrializada e comercializada por estas seis empresas. As recém-chegadas ou recém-abertas tradings, que não industrializam mas apenas operam a exportação do grão, inicialmente, vêm acirrar a concorrência. "O Brasil tem espaço para todos, e é o único país do mundo com capacidade para expandir a lavoura de soja sem prejuízo para outras culturas", diz o diretor da ANEC.

A briga é por uma fatia da receita cambial de US$ 7,6 bilhões estimada para o complexo soja em 2003. Em 2002, a receita cambial oficial do complexo foi de US$ 6 bilhões.

Porém, novas empresas pretendem explorar esse potencial. Neste verão as empresas Harvest States do Brasil, Rutherford Trading Company e Unipar Commerce iniciam as atividades no país. A Conagra também é nova, mas retornou ao Brasil no ano passado, tendo já operado com soja brasileira na primeira metade da década de 90. O Conagra Trade Group é ligado à norte-americana ConagraFoods, indústria de alimentos prontos e embutidos. Há cerca de um ano a Conagra reabriu escritório em São Paulo, e neste verão inaugurou uma base em Cuiabá.

"Nós temos clientes em todo o mundo que precisam comprar soja. Com o crescimento da safra brasileira, decidimos atendê-los a partir do Brasil. Abrimos um escritório menor em Mato Grosso para estar mais perto dos produtores da maior região de soja do país", disse Bob McKeon, porta-voz do Conagra Trade Group, de Omaha, Nebraska. No Brasil, a Conagra está sob o comando de Thomas Daetwyler, ex-executivo da ADM. A Rutherford Trading tem um braço no Reino Unido, e está sob direção no Brasil de Armínio de Melo Gaia Neto.

A Unipar Commerce é brasileira, a mais nova empresa do Grupo Unipar (União das Indústrias Petroquímicas S/A), com operações de exportação de soja sob a batuta de Nelson Mamede, ex-Sadia. A Unipar Commerce, aliás, tem a vantagem de já atuar na área de insumos, com produção e distribuição de fertilizantes, importante moeda de troca nos financiamentos à lavoura.

Terceira maior tem base cooperativista

A Harvest States também é norte-americana e de base cooperativista, ligada à CHS Cooperatives (Cenex Harvest States), a terceira maior exportadora de soja dos EUA formada por agricultores cooperados baseados desde a região dos Grandes Lagos até o Noroeste do Pacífico, e desde a fronteira com o Canadá até o Texas. De acordo com o diretor geral da companhia no Brasil, Stefano Rettore, as operações com soja brasileira serão inauguradas em 1º de março.

"Estamos aqui para receber o excedente de soja que o Brasil produz, para exportar", explica.

A Harvest pretende atuar desde Mato Grosso até o Rio Grande do Sul, inicialmente com o embarque de soja em grão. "A América do Sul tem vantagens competitivas em relação aos EUA, maior produtor e exportador mundial de soja, e pouco a pouco está conquistando mercados que antes eram cativos dos EUA", explica Rettore.

Segundo o executivo, até cerca de 2 anos atrás os EUA forneciam soja para o mundo durante 8 meses por ano, mas o jogo está virando. "Hoje a proporção já é de seis meses para os EUA e seis meses para a América do Sul, e a tendência é de que a América do Sul se torne o maior fornecedor mundial de soja em poucos anos", diz. De fato, pela primeira vez na história a safra de soja sul-americana, somadas as colheitas do Brasil, Argentina e Paraguai, consolidou-se como superior à produção dos EUA.

Os três países do Mercosul devem colher, juntos, cerca de 85 milhões de toneladas de soja este ano, contra colheita de 74 milhões de toneladas nos EUA. "Este tipo de margem não é circunstancial, dificilmente vai ser revertida. A América do Sul suplantou os EUA", afirma Fernando Lobo Pimentel, diretor da consultoria Agro Security, de Campinas. Ele lembra que no início da década de 90 o Brasil tinha cerca de 25 exportadoras de soja, todas incorporadas pelas quatro grandes multinacionais do setor (ADM, Bunge, Cargill e Dreyfuss).

"O mercado ficou muito concentrado, tanto para a soja quanto para os fertilizantes, insumos fornecidos pelas mesmas tradings que compram a safra", diz Pimentel. Com isso, segundo ele, o agronegócio atingiu sua maturidade no Brasil, e se apresenta cada vez mais como uma opção segura para as tradings. "O foco é o Cerrado, onde a tecnologia de produção é a melhor do mundo e o clima ideal. A expansão vai continuar", aposta.

Logística

Pimentel ressalta ainda a importância dos investimentos em logística como fator de atração das tradings. A melhor estrutura de transporte reduziu custos, e a estabilização dos sistemas, como a privatização dos portos e o conseqüente fim das greves e outras ameaças ao funcionamento dos sistemas, representa menor risco para o investidor. Por último, o consultor destaca o papel da China como determinante dos movimentos do mercado internacional de soja.

Como principal importador mundial de soja, a China está buscando, segundo ele, menor dependência tanto em relação aos EUA, quanto às quatro grandes tradings mundiais. A ação de empresas de menor porte na América do Sul, portanto, parece corresponder às intenções chinesas. "Qualquer player que queira atuar no mercado internacional de soja não pode estar ausente da América do Sul", reforça Stefano Rettore, da Harvest States. E o Brasil é a porta de entrada, a base para as atividades no continente.


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