Estudo aponta prioridades de políticas públicas para preservar polinizadores em nível mundial

Agronegócio

Estudo aponta prioridades de políticas públicas para preservar polinizadores em nível mundial

Iniciativa resultou na publicação de artigo divulgado hoje (25/11) na edição online da revista Science
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Iniciativa resultou na publicação de artigo divulgado hoje (25/11) na edição online da revista Science

A pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmen Pires é uma das autoras de artigo divulgado hoje (25/11) na edição online da revista norte-americana Science que aponta dez prioridades de políticas públicas para proteger os polinizadores em nível mundial. O artigo tem como base o estudo internacional coordenado pela Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, sigla em inglês) que reuniu especialistas de sete países – Reino Unido, Brasil, Suécia, México, Austrália, Argentina e Japão – para avaliar o declínio das populações de abelhas no mundo, e propor políticas públicas para auxiliar os governos a adotarem medidas de proteção a esse e outros animais polinizadores, que têm participação direta na produção de alimentos. A versão resumida do estudo será apresentado na 13ª reunião da COP (Conferência das Partes), em Cancun, México, no período de 4 a 17 de dezembro próximo.

A avaliação do IPBES confirma a evidência de declínios em larga escala de polinizadores selvagens em partes da Europa e da América do Norte e a necessidade urgente de um monitoramento mais efetivo desses organismos em todo o mundo. O relatório deixa bem claro que os polinizadores são importantes para as pessoas em todos os lugares tanto do ponto de vista econômico quanto cultural. Os governos entendem isso e muitos já tomaram medidas substanciais para salvaguardar esses importantes animais, mas ainda há muito a ser feito. "As prioridades políticas que sugerimos ajudarão os governos a apoiar e proteger os polinizadores, como parte de um futuro sustentável e saudável ", afirma Carmen Pires.

O mundo inteiro tem assistido ao desaparecimento crescente de colônias de abelhas, especialmente da espécie mais utilizada para a polinização de plantas cultivadas, a Apis mellifera (abelha europeia), que se adapta facilmente a diferentes ecossistemas, formas de manejo e é generalista na busca de recursos. Junto com outros insetos e animais, as abelhas têm responsabilidade direta no aumento da produtividade agrícola, já que cerca de 70% das plantas utilizadas no consumo humano dependem de polinização. A dizimação em massa de populações de abelhas no mundo tem preocupado agricultores, apicultores e a população em geral. Por ser um fenômeno associado a várias causas, os cientistas têm tratado o problema como uma síndrome: o distúrbio do colapso das colônias (CCD, sigla em inglês).

Segundo a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o desaparecimento de abelhas melíferas no mundo é um somatório de diversos problemas, entre os quais destacam-se: uso de agrotóxicos; perda dos habitats naturais em decorrência dos diversos usos da terra, incluindo aumento da fronteira agrícola; patógenos e parasitas que atacam as colônias e mudanças climáticas.

Mas o problema não é só com a abelha Apis mellifera. O estudo capitaneado pelo IPBES propõe 10 diretrizes para auxiliar os governantes na elaboração de políticas públicas voltadas à preservação dos polinizadores em nível global. São elas:

1 - Aprimorar os padrões regulatórios de pesticidas.
2 - Promover o manejo integrado de pragas (MIP).
3 -Incluir efeitos indiretos e subletais na avaliação de riscos de culturas geneticamente modificadas.
4 - Regular o movimento dos polinizadores manejados entre os países.
5 -Desenvolver incentivos, tais como seguros, para incentivar os agricultores a utilizar serviços ecossistêmicos, como polinização, ao invés de agroquímicos.
6 - Reconhecer a polinização como um insumo agrícola nos serviços de extensão.
7 – Apoiar sistemas agrícolas diversificados.
8 – Conservar e restaurar os habitats de polinizadores nas paisagens agrícolas e urbanas.
9 - Desenvolver o monitoramento de polinizadores a longo prazo
10 - Financiar pesquisas participativas para intensificar o uso de práticas de agricultura orgânica, diversificada e ecologicamente correta.

Situação no Brasil: ainda não há um colapso, mas a perda de colônias de abelhas já é uma realidade

Carmen participou também de um outro estudo, publicado na PAB este ano (https://seer.sct.embrapa.br/index.php/pab/article/view/22708/13305), que reuniu pesquisadores da Embrapa - Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília, DF) e Meio Norte (Teresina. PI) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês) e Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios para avaliar a situação da perda de colônias de abelhas no Brasil, a partir de revisão de literatura e compilação de dados oriundos de estudos relacionados às possíveis causas de perda e enfraquecimento de colônias de Apis mellifera e também de espécies nativas.

Apesar de não confirmar a ocorrência da CCD, o estudo deixou claro que o risco é iminente porque muitos dos fatores associados ao colapso já são encontrados no País. A situação no Brasil é bastante preocupante. Em cerca de um terço do território nacional, já houve perda de grandes áreas de vegetação natural. Somado a isso, os possíveis impactos da fragmentação de habitats sobre as comunidades de abelhas não têm sido devidamente avaliados.

No Brasil, casos de enfraquecimento, declínio e colapso têm sido relatados especialmente nos estados de São Paulo e Santa Catarina, que somam grandes perdas.

De acordo com Carmen, a perda de colônias no País está associada aos mesmos problemas enfrentados em países da Europa e EUA, onde a CCD já é uma realidade comprovada.
        
Impacto econômico de uma possível CCD no Brasil


Estima-se que o valor da polinização feita por insetos, principalmente abelhas, corresponde a 9,5% da produção agrícola mundial. No Brasil das 141 espécies de plantas cultivadas para uso na alimentação humana, produção animal, biodiesel e fibras, aproximadamente 60%, ou seja, 85 espécies dependem da polinização animal.  Além disso, a produção de mel no Brasil movimenta mais de 300 milhões de reais. Por esses dados, é possível prever o quanto um colapso nas populações de abelhas poderia causar de prejuízos à economia nacional.
        
Brasil: falta de informações e de um sistema de monitoramento efetivo das colônias

Entre os problemas enfrentados no País hoje, destacam-se: a ausência de um sistema de monitoramento das colônias de abelhas nos apiários e no ambiente natural; o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras; inexistência de um cadastro amplo e organizado de apicultores e meliponiculltores, entre outros.     "Sem o conhecimento efetivo de produtores e colônias no Brasil, não é possível mensurar a magnitude das perdas e nem associá-las de forma segura à CCD ou a outros colapsos. É premente a implementação de programas oficiais de levantamento sistemático de sanidade apícola associada a avaliações dos impactos de fragmentação dos habitats e das práticas agrícolas sobre as comunidades de abelhas", finaliza a pesquisadora.

O artigo da revista Science está disponível no link.      


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