França questiona subsídios ao campo

Agronegócio

França questiona subsídios ao campo

Setor agrícola europeu recebe anualmente 50 bilhões de euros
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Incentivo que prejudica países como o Brasil é colocado em xeque na própria Europa

Os comerciantes de cereais da França – maior produtor e exportador de grãos da União Europeia (UE) – pressionam o comando do bloco a rever o pagamento de subsídios aos agricultores em nome da sustentabilidade do agronegócio. O posicionamento contradiz a política mantida desde os anos 60 pela UE e coincide com uma das principais reivindicações de países como o Brasil.

“A política agrícola desenvolvida há 50 anos foi boa para que conseguíssemos estruturar a produção, elevar a renda do campo, alcançar segurança alimentar e não depender tanto das importações, mas não nos parece coerente continuar ajudando os produtores por quedas de preços que ocorreram 20 anos atrás”, disse à Expedição Safra Gazeta do Povo Leandro Pierbatisti, analista de mercado e exportações da France Export Céréales, associação que funciona como uma janela para o mercado externo.

A reivindicação dos exportadores põe o governo francês diante de um dilema. Ou agrada ao setor, que compete no mercado de commodities, ou aos produtores agrícolas, que não dispensam o repasse de dinheiro público anual. A França distribui cerca de 10 bilhões de euros em subsídios agrícolas por ano, conforme o Ministério da Agricultura e Pesca. “99% dos produtores recebem algum tipo de ajuda, com repasses em valores que variam muito, mas que ficam em torno de 20 mil euros por produtor”, aponta Sylvain Maestracci, diretor do setor de Grandes Culturas.

Apesar de o país ter autonomia para definir o sistema de distribuição interna dos subsídios, uma mudança na política pública depende do posicionamento da UE. Os administradores do bloco vêm implantando uma série de mudanças no sistema e tendem a limitar os repasses aos patamares atuais, ou seja, em cerca de 50 bilhões de euros – que representam 45% do orçamento coletivo. Em passagem pela sede da UE, em Bruxelas, a Expedição Safra apurou que as mudanças estão em pauta, mas que as discussões podem se estender indefinidamente.

A competitividade dos produtos a serem exportados pela Europa é colocada em xeque num ano em que os 27 países do bloco esperam produzir 282 milhões de toneladas na temporada agrícola 2011/12. Trata-se de uma safra cheia, apesar de o volume representar 55% do que o Brasil está colhendo sozinho no ciclo 2010/11.

A França é líder de produção no continente europeu – colhe um quarto da safra de cereais, que chega a 285 milhões de toneladas ao ano. O país planta em 49% de seu território, com unidades de 80 hectares em média. O campo concentra apenas 1,9% da população economicamente ativa (que é de 27,8 milhões de pessoas), mas produz o dobro do consumo interno e o suficiente para que o país seja o maior exportador do bloco e, assim, tenha um posicionamento diferente dos parceiros vizinhos. À França, interessa que a União Europeia possa oferecer grãos de forma competitiva no mercado externo.

Este ano deve ser especialmente bom para as exportações francesas. A própria Europa consome a maior parcela da produção agrícola da França, que exporta também para o Norte da África, explorando o mercado de países com população crescente. Os franceses sentem-se otimistas a partir da tendência de consumo firme em países como a Itália.

“Nossa dificuldade em expandir continuamente as vendas ao mercado externo têm origem no clima e nas próprias regras da União Europeia e do país”, afirma Jacques Mathieu, diretor geral da Arvalis, instituto privado que trabalha com pesquisas para ampliação da produtividade rural.

Expedição na UE

O roteiro da Expedição Safra Gazeta do Povo pela União Europeia termina nesta semana. Durante 15 dias, os técnicos e jornalistas percorreram Alemanha, Holanda, Bélgica e França para produção de reportagens sobre o potencial do velho continente diante do agronegócio brasileiro. As visitas incluíram portos, indústrias, fazendas de leite, carne e grãos, além de órgãos públicos e privados que dirigem e debatem a Política Agrícola Comum (PAC). Confira as reportagens nas próximas edições do caderno Caminhos do Campo, publicado às terças-feiras pela Gazeta do Povo.

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