A ocorrência de geadas pode comprometer a produtividade do trigo, mas a intensidade dos danos depende principalmente do estágio de desenvolvimento da lavoura. Enquanto plantas em fases iniciais apresentam maior capacidade de recuperação, o frio intenso durante o espigamento e o florescimento pode afetar diretamente a formação dos grãos. Também, conforme o Engenheiro Agrônomo Ubirajara Fontoura, depende do teor de água nos tecidos das plantas que, crescendo o conteúdo após a ocorrência de chuvas ou irrigações muito intensas.
Por isso, nessas condições está criado o ambiente para congelamento por ocasião de geadas com temperaturas menores que 3 a 5ºC negativos. Neste caso, poderá afetar a planta em qualquer estádio de desenvolvimento. Podemos explicar uma ocorrência de geadas com temperatura inferiores a -7ºC no ano de 1975 após chuvas com duração de aproximadamente 24 horas somando mais de 150mm, nos estados de MS, PR e SP, em que trigais em estádio de perfilhamento, floração e enchimento grãos foram totalmente destruídos. Além disso, nesses estados, foram destruídas outras grandes culturas de importância econômica, como café e pastagens
Nas principais regiões produtoras do Sul do Brasil, o risco de geadas exige atenção ao calendário de semeadura e ao ciclo das cultivares. O objetivo é evitar que as fases mais sensíveis da cultura coincidam com períodos de maior probabilidade de temperaturas negativas.
Durante a emergência e o perfilhamento, o trigo apresenta maior tolerância ao frio. Nesses estágios, o ponto de crescimento permanece próximo ao solo, relativamente protegido das baixas temperaturas. Embora a geada possa provocar queimaduras nas folhas, as plantas conseguem se recuperar quando os tecidos responsáveis pelo crescimento são preservados.
O risco aumenta durante o alongamento dos colmos e o emborrachamento, quando as estruturas que darão origem às espigas ficam mais expostas. Nessa fase, o frio intenso pode causar danos internos, mesmo quando os sintomas externos ainda não são evidentes.
Florescimento é a fase mais sensível
O espigamento e o florescimento representam os momentos de maior vulnerabilidade do trigo à geada. Temperaturas abaixo de 0 °C, mesmo por poucas horas, podem comprometer os órgãos reprodutivos, provocar esterilidade das flores e reduzir a quantidade de grãos formados nas espigas.
Em algumas situações, as espigas mantêm aparência normal após o evento, mas apresentam poucos grãos ou falhas na formação. Já durante o enchimento, a geada pode antecipar o envelhecimento das folhas e reduzir o peso dos grãos, afetando a produtividade e a qualidade comercial. Isso, na colheita será mostrado pela redução do peso do hectolitro (PH), peso de 1000 grãos (PMG) baixo, devido a presença de grãos chochos e as vezes grãos com presença de fungos. Em certas ocasiões, verifica-se que plantas danificadas por geadas tornam-se mais suscetíveis ao ataque de fungos e bactérias.
Além da fase de desenvolvimento, a intensidade e a duração do frio, assim como as condições de umidade do solo e do ar, influenciam a gravidade dos danos.
O planejamento da semeadura é uma das principais estratégias para reduzir esses riscos. Além da utilização de mais de uma cultivar e de ciclo diferente, escolha de cultivares com ciclos adequados à região, com respeito às janelas recomendadas, pelo Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos (ZARC) ajuda a posicionar os estádios críticos, como florescimento em períodos de menor probabilidade de geadas. O escalonamento da semeadura, com plantios em diferentes datas dentro do período recomendado pelo ZARC, também pode reduzir a exposição de toda a área a um mesmo evento climático.
Após a ocorrência de geada, a avaliação dos danos não deve ser imediata. Parte dos sintomas aparece gradualmente, sendo indicado aguardar de 3 a 7 dias para observar com maior precisão os efeitos sobre folhas, colmos e espigas.
Nas fases vegetativas, a emissão de novas folhas indica possibilidade de recuperação. Já durante o florescimento, a presença de anteras danificadas e falhas na formação dos grãos pode revelar comprometimento do potencial produtivo.